Consultor analisa ‘fenômeno Marina’ e como o Congresso se comportaria em seu governo

publicado 03/09/2014 15h47, última modificação 03/09/2014 15h47
São Paulo – Para Ricardo Mendes, apenas ‘reviravoltas’ podem mudar o atual cenário eleitoral
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O processo de conquistas sociais dos últimos 20 anos criou uma massa crítica na população, que passou a exigir mais avanços. Tal anseio, deflagrado em junho de 2013, não foi captado pelos dois partidos que polarizaram as eleições nesse período, PT e PSDB, criando o cenário em que a candidatura de Marina Silva (PSB) tomou proporções de protagonismo. Essa é a análise de Ricardo Mendes, sócio diretor da Prospectiva Consultoria, no comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham – São Paulo, quarta-feira (03/09).

“Em junho do ano passado, houve um clamor por mudança que nenhum candidato, até surgir Marina Silva, havia capitalizado”, afirma Mendes.

Para ele, os principais fatores de formação de uma massa crítica foram as leis que obrigaram a matricular crianças em escolas, do governo tucano, a estabilização da economia e o crescimento econômico acentuado nas primeiras gestões petistas. A mesma população que se beneficiou das políticas sociais agora exige melhoria na entrega de serviços públicos e redução do imposto.

“Aumentou o nível de emprego e, com carteira assinada, o trabalhador passou a ver o quanto é descontado de imposto do salário”, comenta.

Ele cita pesquisa CNI/Ibope de julho deste ano que mostra quais os temas de maior desaprovação, na população: saúde (78%), impostos (77%) e segurança pública (75%). “Há 20 anos, imposto não era das principais preocupações da população em geral”, compara.

Os governos não estão conseguindo entregar esses serviços com qualidade, de acordo com a demanda dessa massa crítica. “A Marina surge com o discurso de uma nova política e o histórico de líder popular, que se alfabetizou aos 16 anos, uma imagem com que as pessoas se identificam”, complementa.

A candidatura repentina de Marina pegou PT e PSDB desprevenidos, arrebanhando eleitores indecisos e uma parte dos que pretendiam votar em Aécio Neves (PSDB). A polarização entre os dois, diz o consultor, era o melhor cenário para os petistas. Nas últimas pesquisas, Marina e Dilma (PT) já apareciam tecnicamente empatadas, numa tendência de ascensão marinista. “A eleição ainda não está ganha, mas precisa de muita reviravolta para virar o jogo”, avalia.

Congresso

Se eleita, Marina Silva não deve repetir a coalização ampla que PSDB e PT fizeram para ter maioria no Congresso, especialmente com o PMDB. A pessebista deve adotar o mesmo modelo de Itamar Franco, de negociar apoio tema a tema, o que gera mais dificuldades de governabilidade.

Nesse estilo, ela tentará passar reformas importantes, como as política e tributária. “A aposta dela é de que, se não houver maioria no Congresso, poderá jogar para a população (por meio de plebiscito)”, explica o consultor.

Mendes comenta que a a renovação do Congresso deve ser grande, com essa eleição. Concorrem à reeleição 396 dos 513 deputados, menor número desde 1990, segundo dados do Diap (Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar). “Metade deles não deve se reeleger”, prevê.

A expectativa é de que, se eleita, Marina tenha apoio de 80 a 120 deputados, oposição de cerca de 180 e um bloco de 213 a 253 abertos a negociações. Petistas devem se tornar oposição, enquanto tucanos podem aderir ao governo. “Não é ruim para o PSDB virar governo por um tempo”, considera. O partido, observa Mendes, deve continuar forte nos governos estaduais, ao contrário do PT.

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