Crise da Grécia pode ter reflexos político e econômico no Brasil

publicado 18/08/2015 15h38, última modificação 18/08/2015 15h38
São Paulo – Cenários possíveis permitem tomar posicionamento, explicam professores da Belas Artes
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A crise grega lança desafios econômicos e geopolíticos à Europa, mas também pode influenciar países como o Brasil, que tem balança comercial positiva com o país do Mediterrâneo, para onde exporta produtos agrícolas. Há, ainda, riscos de os desdobramentos respingarem no cenário político brasileiro, que também passa por transtornos.

“Essa relação é muito parecida com a situação brasileira: não sabemos discernir onde começa a crise grega, se no campo político ou no econômico”, observa Sidney Ferreira Leite, pró-reitor acadêmico e professor de Relações Internacionais do Centro Universitário Belas Artes.

Ele analisou os desdobramentos da crise grega sobre o Brasil no comitê estratégico de Finanças da Amcham – São Paulo, quinta-feira (13/08), ao lado de Luciene Patrícia Canoa de Godoy, coordenadora do curso de Relações Internacionais no Centro Universitário Belas Artes.

A Grécia do primeiro-ministro Alexis Tsipras fechou novo acordo de empréstimo – o terceiro - com a União Europeia há um mês, se comprometendo a fazer reformas com as quais se comprometera nos dois primeiros acordos - e não fez. O bloco, liderado financeiramente pela Alemanha, exige ajustes fiscais que atingem gastos sociais. Já Tsipras chegou ao poder criticando essa austeridade imposta.

Os três cenários possíveis para a Grécia nos próximos seis meses vão de superação da crise, num espectro mais positivo, à radicalização e o virar de costas à UE. “O objetivo do cenário não é prever futuro, mas se posicionar no presente”, explica Leite.

Se o Syriza, partido de extrema esquerda que ascendeu rapidamente ao poder, não cumprir o acordo, a situação se radicaliza e a Europa terá de decidir sobre a permanência da Grécia no bloco. “A corda seria esticada ao máximo e não haveria outro empréstimo, o que implicaria na saída da Grécia da zona do euro”, avalia o professor.

Tal posicionamento radicalizaria o quadro político e o partido Nova Democracia, de centro-direita, seria alternativa para quem quer permanecer no bloco.

“Para o Brasil, poderia repercutir o discurso de esquerda de que irresponsabilidade macroeconômica não é problema, de que precisamos defender interesses brasileiros. Alimentaria discurso populista da irresponsabilidade fiscal, modelo que construímos com certa eficiência a partir anos 90”, comenta Leite.

Um outro cenário seria o de superação da crise econômica, com o governo cumprindo o acordo que não vem sendo cumprido desde o governo da Nova Democracia, que segundo os professores, foi irresponsável na gestão das contas públicas. Se o Syriza realizar as reformas, os indicadores econômicos podem se estabilizar positivamente. “A Europa conseguiria resolver seu problema, o que contribuiria para a melhoria das condições da Espanha, Portugal e Itália”, diz Leite.

Para o comercio com o Brasil, que tem balança comercial vantajosa com os gregos, também seria positivo. Os riscos econômicos diminuiriam e a Grécia voltaria a ser interessante para futuros investimentos.

“Mas é muito pouco provável, até pelo espectro ideológico do partido no poder e das alternativas”, ressalta o professor.

O mais provável

As chances são maiores, de acordo com os palestrantes, de haver um cenário de moderação, num meio termo entre os dois anteriores. “Partidos radicais, quando chegam ao poder, tendem a ficar mais moderados e buscar governabilidade. Já há sinais de que isso está acontecendo, com a substituição de ministros mais radicais, como o de Finanças, Yanis Varoufakis”, destaca Leite.

Nessa hipótese, o governo realizaria algumas reformas para mostrar aos europeus, o que arrefeceria a crise. Os problemas estruturais, porém, não seriam enfrentados, já que os investimentos seriam apenas em soluções conjunturais. Ao se mostrar não tão radical, o Syriza ganharia força e tempo para respirar e ter condescendência dos atores europeus. A Nova Democracia continuaria no jogo político como alternativa e o Pasok, partido socialista situado no campo ideológico do Syriza, seria sepultado de vez.

A situação prosseguiria com balança comercial favorável para o Brasil, com a Grécia mantendo as compras de nossos produtos e menor risco para a economia grega.

Essa é a mais provável das hipóteses, acredita Luciene. Todos esses cenários são especulativos e dão tempo para os dois lados dessa negociação, ressalta a coordenadora do Centro Universitário Belas Artes. “A Grécia está tentando ganhar tempo, mas a Alemanha também. Se eles tiverem condições de colocar a Grécia para fora, vão colocar, mas por enquanto não sabem como fazê-lo”, considera.

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