Empresa forma professores de química para voltar a atrair profissionais para a área

por marcel_gugoni — publicado 08/03/2012 12h50, última modificação 08/03/2012 12h50
Marcel Gugoni
São Paulo – Vice-presidente de Recursos Humanos da Basf defende que é preciso aproximar escolas e realidade do mercado de trabalho.
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Ninguém mais se interessa pela tabela periódica. Em uma empresa química, especializada na produção de insumos industriais, plásticos, tintas e outros elementos, o problema é gravíssimo. Wagner Brunini, vice-presidente de Recursos Humanos América do Sul da Basf, diz que a empresa está tendo que formar seus próprios professores de química para poder incentivar os estudantes, futuros profissionais do mercado de trabalho, a seguir nesta área.

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Ele participou nesta quarta-feira (07/03) do comitê aberto de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo, o qual debateu o tema “Fazer diferente no novo contexto do mundo do trabalho da ‘Era do Potencial Humano’”. À reportagem do site da Amcham, Brunini afirmou que o grande desafio é diminuir a distância entre a realidade do mercado de trabalho e das empresas com aquilo que as escolas fazem. 

“A carência no mundo hoje é de mão-de-obra qualificada”, afirma. “Todos estão vivendo e sofrendo do mesmo mal. Temos que nos unir, chamando empresários, educadores, representantes do governo e de sindicatos e assumir que este é um problema de todos.”

Leia os principais trechos da entrevista com Wagner Brunini, da Basf:

Amcham: Qual é a deficiência do mercado de trabalho em relação à educação?

Wagner Brunini: O que acontece é que a demanda em termos de qualificação é bem maior. Cada vez mais se tem uma necessidade apresentada não respondida no mesmo nível sobre aquilo que a escola está formando. A escola está tendo todo um esforço de quantidade, o que não é ruim dentro de um cenário brasileiro, mas a qualidade desta formação está muito distanciada de uma realidade que o mercado está solicitando. A Basf tem um programa de formar professores de química internamente para que sensibilizem e tirem o máximo possível de alunos que se interessam em estudar química e os atraiam, para tentar minimizar este gap, principalmente no segundo grau, na hora em que os alunos costumam iniciar o estudo de química. Hoje, ninguém mais se interessa pela tabela periódica. Como podemos atrair profissionais neste cenário? Há muitos casos em que os professores nem sequer são químicos, mas ensinam a matéria. A empresa sentiu que não basta só se preocupar com o resultado do aluno, mas também com o aperfeiçoamento do professor no que se refere à parte de química.

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Amcham: Mas como a falta de qualificação se reflete no mercado? Este é o maior problema?

Wagner Brunini: Em termos de mercado de trabalho, sim, a educação é o nosso maior gargalo. Olhando para todo o Brasil, vejo esse problema no mesmo nível dos gargalos de transporte, infraestrutura e logística.

Amcham: Seria ideal que os alunos estudassem a vida inteira?

Wagner Brunini: Eu diria não estudar a vida inteira propriamente, até porque a vida também nos ensina muito, em uma educação não formal. Mas acho que a distância entre a realidade do mercado, das indústrias, com aquilo que as escolas fazem deveria ser diminuída. Esse é o nosso grande desafio. Uma coisa cultural é que nós sempre entendemos que a educação é responsabilidade da escola. Muitas vezes, as famílias se eximem da responsabilidade de educar achando que basta ter todos os filhos matriculados nas escolas. É um erro. Ainda achamos que o papel da formação e da educação formal é coisa do governo. E não é. As organizações, tanto empresas quanto associações, estão entendendo que só isso [jogar a obrigação da educação exclusivamente ao governo e a tarefa de ensinar exclusivamente às escolas] não funciona. Até as empresas já estão entendendo que essa disputa por talentos não é mais só a busca por trainees. Muito pelo contrário: temos falta de motoristas, de pedreiros, de técnicos. A carência de mão-de-obra que nós temos não é, necessariamente, uma carência de top talents

Amcham: No Brasil, temos uma taxa de desemprego baixíssima atualmente, mas as empresas ainda reclamam da falta de mão de obra. O que ocorre?

Wagner Brunini: O Brasil vive esse momento especial e isso é importantíssimo. O problema que nós temos no contexto dessa demanda por talentos não é a falta de mão de obra pura e simples. É falta de mão de obra qualificada. Estive em uma reunião da qual participaram várias transportadoras e fui convidado para falar sobre qualificação profissional. Quando terminou a palestra, um dos empresários se levantou e disse: ‘O que você diz, Brunini, faz muito sentido. A minha empresa acabou de fazer uma aquisição de dezenas de carretas e elas estão paradas porque eu não tenho motorista que saiba dirigir aquele cockpit’. A questão é: você pode encontrar motoristas no mercado, que estejam desempregados. O que é difícil é achar os motoristas que lidem com as novas tecnologias de transporte de carga, com computadores de bordo e uma conexão da cabine com o que acontece na carreta. Quando se fala em carência de mão de obra e nível de desemprego, é evidente que há uma relação, mas não há essa eterna coligação. A carência no mundo hoje é de mão de obra qualificada. Temos uma situação muito global. Entendo que todos estão vivendo e sofrendo do mesmo mal. Temos que nos unir, chamando empresários, educadores, representantes do governo e de sindicatos e assumir que este é um problema de todos nós.

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