Empresa torna-se mais competitiva quando dá espaço para a diversidade

por gustavo_galvao — publicado 05/07/2013 10h31, última modificação 05/07/2013 10h31
São Paulo – Ambiente de trabalho deve oferecer condições para que todos possam se adaptar
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A diversidade traz competitividade, mas nem todas as empresas ainda prestaram atenção nisso. Esse argumento é defendido por Beto de Jesus, secretário para América Latina e Caribe da ILGA (International Lesbian and Gay Association). Ele participou, junto com Alberto Brisola, diretor sênior do RH da Oracle Brasil, do Comitê Estratégico de Gestão de Pessoas, que aconteceu no dia 04/07, na Amcham-São Paulo.

De acordo com Beto, quanto mais diversificada for a equipe, mais facilmente os problemas serão resolvidos no ambiente de trabalho. “É importante que a orientação sexual, a identidade de gênero e a etnia não sejam fatores impeditivos para entrar no mercado”, comenta. 

Além de uma seleção igualitária, é preciso criar condições para que o profissional possa trabalhar sem medo de ser vítima de preconceito ou linchamento. “O funcionário se sente valorizado quando o respeitamos pelo talento, pelo conhecimento que ele tem. É importante não discriminar pela questão religiosa, ideológica ou sexual”, explica Alberto Brisola, diretor sênior de RH da Oracle Brasil, que tem procurado dar possibilidades para o individuo se integrar ao trabalho.

Espaço para todos

As empresas precisam estar receptivas a todos aqueles que, conforme Beto de Jesus, fogem dos marcadores identitários definidos como “normais” pela sociedade – como os deficientes ou indivíduos de outras etnias e orientações sexuais. “Os departamentos de Recursos Humanos ainda estão despreparados e acabam impedindo a seleção e a retenção desses profissionais”, ele alerta.

A principal barreira está no espaço oferecido durante a busca por novos funcionários. Beto explica que há uma grande parcela de jovens que estão desempregados porque não são aceitos por causa da sua orientação sexual. “Perder um colaborador desse jeito deixa de agregar valor ao nome da empresa e é uma desvantagem do ponto de vista da produtividade”, ele diz, ao lembrar que travestis e transexuais só passaram a ser inicialmente incorporados nas grandes companhias depois da lei que estabeleceu uma cota para os deficientes.

Uma estratégia que pode dar suporte às empresas é a assessoria externa. Alberto Brisola, da Oracle, acredita que, para impedir que haja uma exclusão desses funcionários, pode ser necessária uma orientação de toda a equipe e uma norma rígida para coibir possíveis agressões verbais e físicas. “Eu acho que o cenário deve contribuir para que a pessoa possa cumprir com aquilo que se espera e, principalmente, a gerência exigir respeito”, aponta Brisola. 

Reconhecer o profissional

Ainda que todos aqueles que fogem do padrão ou marcadores identitários definidos pela sociedade sejam, de alguma forma, discriminados, quem enfrenta maior rejeição nos processos seletivos e de adequação por parte do RH são os transgêneros. Esse é o principal foco de exclusão, conforme Beto de Jesus, que já chegou a entregar currículos de travestis e transexuais para ocupar vagas em grandes corporações, mas sempre surgiam argumentos para invalidar a contratação.

Outras vezes, funcionários pediam licença do trabalho para fazer cirurgias de mudança de sexo. Por isso, executivos chegaram a procurá-lo para dar suporte ao processo de readequação da identidade e convívio com os demais. “Ainda que não haja amparo legal, a empresa pode fazer a troca do nome, do crachá, do endereço de e-mail. Isso não tem custo e representa uma enorme valorização”, orienta Beto de Jesus, que também é membro da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais).

Durante a reunião com os membros do comitê, ele lembrou que hoje existe maior aceitação do homossexual, principalmente porque a própria legislação mudou. Desde 1990, a homossexualidade não faz mais parte do CID10 (Classificação Internacional de Doenças) e, a partir de então, muitos direitos foram alcançados, como a possibilidade da união civil.

O mesmo não ocorre com os transgêneros. “Ser transexual ainda é considerado doença e existe um longo trâmite até a mudança dos documentos”, ressalta. Por isso, Beto de Jesus alerta as empresas sobre a importância de facilitar todo o processo, que pode ser muito doloroso para a pessoa que vive essa transformação em sua vida. “Os gerentes que praticam a intolerância e a discriminação têm que ser advertidos”, justifica Alberto Brisola, que coordena o RH da Oracle.

Manual para as empresas

Em setembro deste ano, Beto de Jesus anunciou que será lançado um material de combate à homofobia no ambiente de trabalho. O manual está sendo produzido pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), o PINUDI (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) e o UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids). “Temos relatos que indicam que o local de trabalho é onde os homossexuais mais sofrem violência”, informa o palestrante.

Paralelamente, o Instituto Ethos também organiza uma publicação sobre diversidade sexual que será divulgada no mês de setembro. De acordo com Beto, “são dicas, informações e alinhamento conceitual com um alcance mais amplo, para que o maior número de companhias passe a melhorar a visão que existe sobre o assunto”.

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