Empresas buscam 'Chinas' dentro do Brasil para sustentar expansão

por andre_inohara — publicado 17/02/2012 16h36, última modificação 17/02/2012 16h36
André Inohara e Marcel Gugoni
São Paulo – Cidades médias no interior do País apontam para enorme potencial de crescimento; segmentar e diversificar também são saídas.
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O grupo dos Brics, formado por Brasil, Rússia, Índia e China, já deixou há algum tempo a categoria de economias emergentes para ser tratado como mercados com grande crescimento. A mudança conceitual evidencia, além da grande capacidade dessas economias, uma segmentação advinda de grande interesse e alto poder de investimento nesses quatro gigantes. A mesma mudança de categoria passa a fazer parte do mundo empresarial, que começa a procurar os 'Brasis' e 'Chinas' que estão dentro de seus mercados de atuação.

A segmentação e a busca por novos mercados devem entrar na lista de prioridades das companhias nos próximos anos.

“Temos um mundo inteiro ainda para explorar”, afirma Adriano Navarini, diretor de Estratégia e Planejamento comercial da operadora de cartões Cielo. Ele foi um dos executivos que participaram do seminário Perspectivas Comerciais 2012, realizado pela Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (16/02) para debater as oportunidades e estratégias de vendas das empresas paras este ano.

“Nosso mercado vai dobrar nos próximos quatro ou cinco anos”, afirmou o executivo, se referindo ao crescimento da 'adquirência' de cartões – as famosas maquininhas. Sem revelar suas projeções de crescimento (ele apenas mencionou que a taxa será de “dois dígitos”), Navarini diz que há um grande potencial desse mercado na adesão de trabalhadores informais ao mercado formal.

Navarini compara esse movimento com a mudança ocorrida com o fim da exclusividade das bandeiras de cartões. “Antes, tínhamos preferência da Visa. Com o fim da exclusividade, achávamos que perderíamos espaço, mas não foi o que aconteceu”, lembra. “Antes queríamos que os clientes usassem mais a nossa e menos a do concorrente. Hoje, queremos que todo o mercado de cartões cresça.”

Veja também: PMEs serão um dos principais motores do crescimento nacional nesta década

Novas Chinas

Bruno Furtado, sócio da consultoria McKinsey, apresentou uma projeção que mostra muito otimismo das empresas. No pior cenário, o PIB (Produto Interno Bruto) brasileiro vai crescer 2% neste ano; no melhor, 5%, afirma ele.

E num cenário de competição, ganha quem encontrar “as grandes oportunidades dentro de mercados, segmentos, serviços e categorias com rápido crescimento”, aponta. “Customização e adaptação a diferentes realidades será a chave para vencer. É o que chamo de Bric dentro do Bric.”

Sérgio Leme, vice-presidente de Marketing, Vendas e Logística da fabricante de eletrodomésticos Whirlpool, vê dois movimentos distintos. Para a empresa que é dona das marcas Consul e Brastemp, as novas Chinas são tanto novos consumidores como os já fidelizados à marca.

“Perto de 100% dos lares brasileiros têm geladeira e fogão”, analisa. “E, como o consumidor está mais exigente, há uma procura maior do consumidor por eletrodomésticos mais qualificados. Há seis ou sete anos, as vendas de refrigeradores frost free [descongelamento rápido] representavam menos de 10%, mas agora estamos perto de 40%.”

Élio França, diretor de Marketing da C&A Modas, afirma que “o varejo tem tido crescimentos fortes e vai continuar tendo em 2012”, puxado pela expansão dos shoppings em cidades menores, com cerca de 250 mil habitantes. “Cada vez mais há novos empreendimentos em lugares que nem imaginávamos que poderiam recebê-los”, afirma. “Quem está no varejo, não pode só ouvir falar. Tem que ir atrás.”

Norte, Nordeste e Centro-Oeste

Furtado avalia que o crescimento brasileiro está baseado em consumo, que movimenta em torno de 70% do PIB, nas contas do especialista. “Nos próximos dez anos, o consumo de produtos de beleza no Brasil será o equivalente a cinco vezes o consumo francês. Em cerveja, o Brasil beberá o triplo do mercado alemão. Em massa, seremos do tamanho da Itália”, compara.

Para os executivos, a expansão da maior parte das empresas vai para fora do eixo Sul e Sudeste. França, da C&A, afirma que a China do varejo é a classe C – e, mais do que isso, é principalmente o consumidor nordestino que mora em cidades afastadas dos grandes centros.

“Para o varejo em geral, a China é a nova classe média”, afirma. “As empresas precisam entender as diferenças desse segmento. Hoje, esse consumidor não quer mais a solução Classe A, que era voltada para o cliente de consumo mais alto e automaticamente passava a objeto de desejo da classe média. Esse cliente tem, sim, maior poder de compra, e, como esse poder de compra tem limite, ele passa a escolher os produtos e serviços que cabem dentro disso. Ele não tem mais aquela aspiração de ser milionário.”

Antônio Moraes, diretor de Marketing, Vendas e Canais para Soluções da Microsoft, afirma que o Brasil já é o terceiro maior mercado consumidor de computadores pessoais do mundo. A gigante de tecnologia olha o Brasil da mesma forma que olha para a China: “temos duas fábricas onde fazemos o console Xbox no mundo. Uma fica na China. A outra, no Brasil.”

O Brasil detém um mercado que, para as multinacionais deficitárias no exterior por conta da crise nos países desenvolvidos, aparece como forma de garantir vendas e dar fôlego às operações globais. “Hoje o Brasil é tapa-buraco para as operações de várias empresas no mundo”, analisa Fábio Narahara, gerente de Marketing Estratégico para a América Latina da Singer do Brasil.

Veja também: Otimistas, empresas apostam na classe C para continuar crescendo em 2012

América Latina: a próxima China?

Durante o seminário, os painelistas debateram a viabilidade das oportunidades de crescimento na América Latina. Empresas como Whirlpool e Singer comandam as operações da região a partir das filiais brasileiras e demonstram otimismo. “Temos uma estrutura dedicada e fronteiras enormes e estamos falando de uma terceira China, com oportunidades de crescimento de dois dígitos na Colômbia e no Caribe (América Central)”, destaca Sérgio Leme, vice-presidente de Marketing, Vendas e Logística da Whirlpool.

Fábio Narahara, da Singer, ressalta que as parcerias em países como Colômbia e Peru têm rendido bons frutos à empresa. “Apesar da taxa de câmbio e do protecionismo em alguns países, temos conseguido um bom volume de exportações”, assinala.

A Microsoft é uma das empresas que demonstraram otimismo com o potencial de crescimento da região, mas lembra que o foco é o Brasil. “O Brasil é o principal destino de novos projetos da Microsoft. Por outro lado, nossos parceiros nacionais buscam apoio para alçar vôos internacionais”, comenta.

Tanto a C&A e quanto a Cielo se mostraram reticentes ao comentar sobre expectativas de operações fora do Brasil. “A pulverização do varejo na América Latina é muito grande, maior que no Brasil. Essa é uma das barreiras que temos que considerar para uma expansão”, segundo Élio França, da C&A.

A Cielo, administradora nacional de cartões, pretende consolidar sua posição no mercado brasileiro. “O mercado de meios de pagamento eletrônico no Brasil é muito jovem, com quinze anos. Mudamos nossa forma de lidar com o cliente, mas ainda há muito o que melhorar. Estamos sempre olhando oportunidades”, observa Adriano Navarini, da Cielo.

 

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