Empresas não podem controlar todos os riscos, mas devem selecionar quais enfrentar por melhores resultados

por marcel_gugoni — publicado 16/07/2012 09h51, última modificação 16/07/2012 09h51
São Paulo - Juliana Rodrigues Pereira, da consultoria Ernst&Young, diz que área de gestão de risco é quem transforma ameaças em oportunidades do dia a dia.
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Nenhuma empresa pode controlar todos os riscos a que está sujeita, mas deve saber quais estão dispostas a correr em busca de mais oportunidades de mercado, chances de lucros maiores e liderança competitiva diante dos concorrentes. Para Juliana Rodrigues Pereira, sócia e líder dos serviços de auditoria interna para a América do Sul da consultoria Ernst&Young, a gestão de risco é a área responsável por transformar as ameaças que rondam as empresas em resultados tangíveis ao dia a dia dos negócios.

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Juliana moderou o debate com gestores e executivos da área no seminário Gestão de Riscos Corporativos, realizado na Amcham-São Paulo na quinta-feira (12/07), e afirmou que “as empresas com uma gestão de riscos mais madura têm resultados financeiros que são até o triplo do visto em empresas que não cuidam tão bem dos seus riscos”. Este número faz parte de uma pesquisa inédita sobre o tema. 

O estudo elencou os dez principais riscos que as empresas reconhecem em seus negócios e as ameaças do topo do ranking foram regulamentação e compliance em primeiro lugar, corte de custos em segundo e gerenciamento de talentos na terceira posição. A lista ainda mostra que há preocupações das empresas com pressões por preço (4º), tecnologias emergentes (5º), riscos de mercado (6º), expansão da atuação do governo (7º), recuperação da recessão (8º), responsabilidade social (9º) e acesso a crédito (10º). 

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“Ao mesmo tempo em que não é uma coisa a se estranhar, surpreende muito o fato de as empresas colocarem compliance e legislação no topo da pesquisa acima de corte de custos e otimização de recursos e geração de valor das empresas”, diz ela. Outro aspecto da lista que se destaca é a guerra de talentos, que poderia facilmente estar em primeiro no Brasil, diz a especialista. “No Brasil especialmente, a escassez de recursos humanos é uma realidade, graças à expansão das empresas dos países desenvolvidos aos mercados emergentes.” 

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Segundo ela, o acesso ao crédito teve uma queda brutal no ranking dos anos passados. “Ele estava em segundo e caiu para décimo. Isso reflete, de certa forma, a recuperação das economias após a crise de 2008. Muitos países ampliaram o acesso ao crédito e o Brasil, por exemplo, veio diminuindo os juros e isso reflete na pesquisa.” 

Veja os principais trechos da entrevista com Juliana Rodrigues Pereira: 

Amcham: O que mais te chamou a atenção nesta pesquisa da Ernst&Young?

Juliana Rodrigues Pereira: Foi a primeira vez que conseguimos construir uma ligação efetiva [do controle de riscos] com o resultado das companhias. E o resultado mostra claramente que as empresas com uma gestão de riscos mais madura têm resultados financeiros que são até o triplo do visto em empresas que não cuidam tão bem dos seus riscos. Isso sempre foi uma sensação bastante forte, no sentido de ver que é positivo prevenir os riscos, de que isso é bom para a empresa. Mas antes não havia comprovação que isso reflete em melhores resultados financeiros para a empresa. 

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Amcham: De que forma a gestão de risco se relaciona com a governança corporativa?

Juliana Rodrigues Pereira: Ela é um dos pilares. A governança corporativa atua com alguns elementos, como os comitês e os conselhos de administração, que darão o tom da empresa e direcionarão seu apetite ao risco. A gestão de risco é que transforma essas medidas em ações do dia a dia. É a área que olha para a preocupação do conselho em distribuir dividendos aos acionistas, por exemplo, e transforma isso em um risco tangível para o gestor de contas a pagar. A gestão de risco atua como fator de ligação. Quando conversar com comitês e acionistas, a área de gestão de risco tem que provocar as perguntas certas e entender se a empresa realmente quer traduzir essas ameaças e oportunidades em resultados na operação do dia a dia. 

Amcham: Qual a melhor forma de definir essa questão do apetite ao risco?

Juliana Rodrigues Pereira: Isso depende de cada empresa. Uma coisa é certa: não dá para controlar todos os riscos a que sua empresa está sujeita. Porém, é preciso saber quais riscos se está disposto a correr. Em um exemplo do dia a dia, imagine quem vai viajar num feriado e resolve sair de casa às 17h. Você está disposto a correr o risco de ficar preso no engarrafamento? Com as empresas ocorre o mesmo. O grande papel da gestão de riscos é procurar modificar esse apetite a risco das organizações e alinhar a estratégia da empresa com o perfil dos gestores. Imagine o trabalho que dá afinar uma empresa conservadora com um CFO arrojado. A gestão de risco monitora esse alinhamento. 

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Amcham: Por esse motivo a integração é tão importante?

Juliana Rodrigues Pereira: Isso. A integração entre as áreas de gerenciamento de risco garante mais eficiência, mais integridade, tempo para atuar em questões estratégicas. As empresas costumam atuar com uma área de compliance, uma de auditoria interna e uma de gestão de risco. O gestor de riscos vai conversar com o de compras e faz uma série de perguntas referentes aos riscos da área. O de auditoria faz o mesmo, assim como o de compliance. Grande parte das vezes, há uma sobreposição enorme entre essas perguntas. O que buscamos com a integração é que essas três áreas se alinhem e montem um plano de aço conjunto, mesmo que só para compartilhar os pontos em comum. O esforço conjunto de compartilhamento e complementação de dados seria um grande passo. 

Amcham: A tecnologia aparece de que maneira à gestão de riscos?

Juliana Rodrigues Pereira: Ajuda na integração, reforça o monitoramento e eleva a eficiência da área. Há ferramentas muito poderosas e um mercado de tecnologia ainda imaturo, com poucas empresas usando toda a capacidade que essa tecnologia oferece. Em um exemplo simples e que poucos fazem é o compartilhamento de um plano de riscos dentro de uma ferramenta e atribuir responsabilidades específicas a agentes distintos a fim de evitar a sobreposição e ampliar a cobertura das ameaças. Vejo uma grande oportunidade. 

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Amcham: A pesquisa mostra que compliance e legislação são a principal preocupação no ranking de área de risco das empresas. Esse resultado surpreende?

Juliana Rodrigues Pereira: Sim, mas acho que o primeiro lugar ainda mostra que os gestores associam a gestão de risco à área de compliance, principalmente como resultado da Lei Sarbanes-Oxley [criada em 2001 nos Estados Unidos após o escândalo da Enron, a lei regulamenta a criação de comitês de auditoria e de segurança nas empresas visando a ampliação da supervisão e do controle para garantir transparência na gestão das empresas]. Essa lei foi importante para permitir a criação de comitês, auditorias, áreas de controles e riscos e gestão em empresas que antes nem sequer se preocupavam com isso. Elas foram obrigadas a implementar essa infraestrutura para atender a legislação. Hoje em dia, a maioria dos gestores pensa nessa lei quando o assunto é gestão de risco. Em mercados muito regulamentados, como o mercado financeiro e de saúde pública, existe uma preocupação constante em atender essa regulamentação.

Amcham: E sobre os dois outros segmentos do topo do ranking: corte de custos e guerra de talentos. Fale mais sobre eles.

Juliana Rodrigues Pereira: Esses aspectos se destacam. Ao mesmo tempo em que não é uma coisa a se estranhar, surpreende muito o fato de as empresas colocarem compliance e legislação no topo da pesquisa acima de corte de custos e otimização de recursos e geração de valor das empresas. E, no Brasil especialmente, a escassez de recursos humanos é uma realidade, graças à expansão das empresas dos países desenvolvidos aos mercados emergentes. Esses mercados são carentes de mão de obra qualificada. Uma pesquisa recente mostrou que a América Latina tem três ou quatro universidades de qualidade mundial em um ranking das cem melhores. Ver a quantidade de universidades reconhecidas mundialmente em relação ao tamanho da população da região mostra que há um problema muito sério de qualificação. Acho que isso tende a piorar e o crescimento do mercado é que faz isso aparecer mais. Os investimentos em educação estão sendo feitos mas demorar a suprir rapidamente a demanda por mão de obra qualificada. 

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Amcham: E qual outro aspecto da lista chama atenção?

Juliana Rodrigues Pereira: O acesso ao crédito teve uma queda brutal no ranking dos anos passados. Ele estava em segundo e caiu para décimo. Isso reflete, de certa forma, a recuperação das economias após a crise de 2008. Muitos países ampliaram o acesso ao crédito e o Brasil, por exemplo, veio diminuindo os juros e isso reflete na pesquisa. A questão de responsabilidade social é um ponto que eu esperava um crescimento maior. As empresas falam tanto do assunto hoje em dia de imagem e de responsabilidade social, mas ainda não há uma percepção ampla do risco associado a isso. É o risco, por exemplo, de uma empresa construir uma fábrica no Brasil e nem saber que uma comunidade será desalojada ou que um rio será completamente poluído. É um tema que as empresas ainda estão começando a entender. A internet é capaz, hoje, de disseminar a rejeição de uma ação de uma empresa que tenha prejudicado uma comunidade, mas as empresas ainda não entenderam isso completamente.

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