Empresas precisam avançar mais no bom uso de conselhos de administração e assembleias de acionistas, afirma presidente do IBGC

por marcel_gugoni — publicado 01/08/2012 16h18, última modificação 01/08/2012 16h18
São Paulo – Sandra Guerra diz que é necessário levar importância da governança a mais regiões do País e implantar o assunto além das empresas comerciais, como em cooperativas e ONGs.
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As empresas brasileiras têm grande potencial para implantar boas práticas de gestão e de definição estratégica. O melhor meio de melhorar esses aspectos é criar e ampliar os conselhos de administração e as assembleias de acionistas, defende Sandra Guerra, presidente do conselho do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC).

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Ela diz que o conselho tem que ser um órgão efetivo de tomada de decisão estratégica e acompanhamento dos negócios. “É ruim quando [o conselho] está lá apenas por direito. O ideal é que ele funcione de fato”, explica Sandra. “Outro ponto de avanço é a relação da empresa com seus investidores, isto é, os laços dos acionistas e a proteção de seus direitos em assembleias.”

Eleita em 2012 para um mandato de dois anos à frente do IBGC, Sandra participou nesta quarta-feira (1/08) do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo. O tema debatido foram as perspectivas para a nova gestão do instituto.

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O maior desafio que surge para o futuro diz respeito a ampliar o conhecimento da governança corporativa pela sociedade e reforçar os benefícios que ela traz às empresas. Sandra propõe que o IBGC chegue a mais regiões do País e abrace um grupo maior de organizações, implantando o tema em cooperativas e demais associações sem fins lucrativos (as organizações não governamentais, ou ONGs), além das empresas comerciais.

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“Temos que tornar mais robusta a discussão dos temas centrais de governança corporativa no Brasil”, ressalta. “A velocidade e a intensidade das mudanças das empresas no sentido das melhores práticas de governança vêm sendo mais lentas. Para reacelerar esse processo, necessitamos envolver na discussão todos os agentes da sociedade e da área de governança, como acionistas ou controladores das empresas, executivos, especialistas, a Bolsa de Valores e os órgãos reguladores.”

Leia os principais trechos da entrevista com Sandra Guerra:

Amcham: Quais são os desafios da governança corporativa no Brasil na visão desta nova gestão do IBGC?

Sandra Guerra: O desafio de presidir uma organização com o tamanho e a relevância que o IBGC conquistou em seus 17 anos é de que maneira podemos continuar crescendo. O Brasil ainda tem muitas áreas com enorme potencial, tanto nos aspectos geográficos quanto no tipo de organização que alcançamos. Temos que tornar mais robusta a discussão dos temas centrais de governança corporativa no Brasil, e nessa direção o IBGC tem um papel de liderança como grande fomentador do debate. Isso é relevante porque sentimos que a velocidade e a intensidade das mudanças das empresas no sentido das melhores práticas de governança vêm sendo mais lentas. Para reacelerar esse processo, temos que envolver na discussão todos os agentes da sociedade e da área de governança, como acionistas ou controladores das empresas, executivos, especialistas, a Bolsa de Valores e os órgãos reguladores.

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Amcham: Qual o caminho dessas expansões?

Sandra Guerra: Em termos de associados, queremos ampliar nossa atuação para cooperativas, organizações sem fins lucrativos e a própria governança pública. Estamos buscando cada vez mais cooperativas e órgãos do terceiro setor para além das pessoas jurídicas e físicas que congregamos. Em um segundo momento, a ideia é buscar a governança pública também. Já nas questões geográficas, além da sede em São Paulo, temos o que chamamos de capítulos em Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná e Rio Grande do Sul. Pretendemos ampliar para o Nordeste e estruturar um núcleo em Brasília. Estamos estudando as cidades dessas novas regiões onde pretendemos buscar maior atuação.

Amcham: Quais são as áreas em que se destacam boas práticas de governança corporativa?

Sandra Guerra: Olhando para uma empresa, a primeira responsabilidade é dos donos, sejam eles um grupo de sócios, uma família, um único profissional ou, como é o caso de uma empresa listada em Bolsa, o dono controlador e diversos acionistas dispersos na Bolsa. As boas práticas, neste nível empresarial, cobrem direitos e deveres das relações entre os diversos acionistas e os controladores da empresa. O conselho de administração, que é um órgão de deliberação e governo da organização, também preza pela governança corporativa. As boas práticas regem desde a composição desse grupo até o funcionamento, a diversidade e a expertise dos conselheiros e o nível de independência do grupo em relação aos demais interessados na companhia [ou stakeholders]. As demais áreas da administração executiva das empresas, isto é, os gestores, também estão sujeitos a um conjunto de regras e boas práticas. Deve existir ainda um cuidado para montar um bom sistema de auditoria da organização, que seja segura e garanta que todos os números de relatórios emitidos pela empresa espelhem a verdade. A questão de conduta e conflito de interesse é outro elemento que permeia toda a governança corporativa e requer processos e atitudes que assegurem equidade nas deliberações e que demais transações sejam respeitadas entre todos os interessados na empresa.

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Amcham: Dentro destas categorias elencadas, qual aspecto está atrasado entre as empresas brasileiras?

Sandra Guerra: Não digo atrasado, mas acho que ainda há dois aspectos que ainda têm muito espaço para se desenvolver no Brasil. Um deles diz respeito ao conselho de administração. Este grupo tem que ser, efetivamente, um órgão robusto de tomada de decisão estratégica e de acompanhamento dos negócios. É ruim quando [o conselho] está lá apenas por direito. O ideal é que ele funcione de fato. O outro ponto de avanço é a relação da empresa com seus investidores, isto é, os laços dos acionistas e a proteção de seus direitos em assembleias.

Amcham: O que precisa ser melhorado nesses dois elementos?

Sandra Guerra: O conselho é o motor da governança corporativa. Se ele não funciona bem, é muito pouco provável que os outros elementos da governança estejam saindo corretamente. É dele o papel de governar a governança. Se o conselho não faz seu papel, quem supervisiona o bom andamento dos outros aspectos? Estamos falando de transparência, processos de decisão, responsabilidades, definição estratégica que respeite limites de aspectos ambientais e sociais e que deixe conflitos de interesses fora dos debates dos rumos da organização. É do conselho a obrigação de tomar as melhores decisões para a empresa como um todo, e não para partes dela ou grupos específicos. O outro ponto, relativo às assembleias, é importante porque é daí que emana o poder dentro das empresas. Devido a isso, é o local onde reside a maior parte dos conflitos. A assembleia é o local do encontro das empresas com seus sócios e acionistas.

Amcham: Quais as perspectivas para o Novo Mercado, que é considerado referência em práticas de governança?

Sandra Guerra: O Novo Mercado, desde que foi fundado, tem um bom histórico de melhorias às empresas. Temos uma participação expressiva de empresas da Bolsa listadas no Novo Mercado. O que se discute é qual o próximo passo. Há, atualmente, a necessidade de se debaterem mais avanços. Estar listado no Novo Mercado representa que há uma criação de valor a partir das práticas de governança das empresas. Estudos mostram que há uma relação positiva entre as boas práticas de governança e resultados mais robustos nos negócios. A preocupação é sempre manter esse valor de empresa “premium” entre as companhias listadas no Novo Mercado.

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Amcham: Qual é a vantagem de ser a primeira mulher na presidência do IBGC?

Sandra Guerra: Em toda a minha história de vida como executiva e conselheira, sempre foi uma vantagem competitiva ser mulher. Em um ambiente tão marcado pela presença masculina como são os cargos de alta gestão executiva, ser mulher é contar com algumas características mais aguçadas. Há vários elementos levantados em pesquisas que apontam essas vantagens, como o costume de tomar menos risco, a capacidade de trabalhar em consenso, a pontualidade e a presença nas reuniões, entre outras contribuições. Essas vantagens trazem o benefício de tornar mais diverso e robusto o processo de decisão no ambiente corporativo.

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