Estagnação da economia e agenda tensa em Brasília devem marcar 2015

publicado 22/01/2015 14h53, última modificação 22/01/2015 14h53
São Paulo – Análises são de Rui Nogueira, da Patri Políticas Públicas, e José Francisco Gonçalves, do Banco Fator
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A estagnação da economia e um consequente ajuste fiscal “doloroso”, aliado a uma agenda de tensão em Brasília, sobretudo no Congresso, devem dominar o debate publico em 2015, definem José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator, e Rui Nogueira, sócio-diretor da Patri Políticas Públicas.

Eles abriram as apresentações do Seminário Perspectivas Comerciais, Econômicas e Políticas para 2015, na Amcham – São Paulo, quinta-feira (22/01). O evento discutiu ainda as oportunidades comerciais nesse cenário (leia mais aqui) e como o setor produtivo está se preparando (clique aqui para ler o texto).

“A situação é mais simples de entender, mas mais difícil de vivenciar do que nos anos recentes”, avalia o economista-chefe do Banco Fator.

Gonçalves ressalta que o país está sujeito a fatores mundiais, além do que é manejável, na política econômica. Globalmente, há “uma situação muito ruim para os emergentes e alguns desenvolvidos”, declara.

Jogo contra

Como fatores internacionais, ele elenca a trajetória dos preços das commodities, um viés deflacionário que está se instalando na economia mundial, a desaceleração do crescimento da economia global, a mudança de políticas monetárias no mundo todo (as moedas estão buscando se ajustar à deflação e às mudanças previstas na política econômica dos EUA).

Para combinar, a economia brasileira está em trajetória contracionista, destaca Gonçalves. Para ele, o que caracterizou a política econômica até outro dia teve, como efeitos, o aprofundamento do déficit em conta corrente; a incerteza nas perspectivas para infraestrutura, em particular para energia, Petrobras e concessões; e a exaustão do ciclo de consumo de bens duráveis.

Não menos importantes, outros efeitos foram a queda dos investimentos, o esgotamento do mercado de trabalho e a consequente desaceleração de consumo, que então se configura em estagnação ou recessão - o que, por sua vez, piora a situação fiscal.

“A gente não pode se esquecer de duas coisas: o mundo está feio e, com economia em estagnação, piora a situação fiscal, que piora a situação de atividade econômica”, resume.

Medidas e resultados

Gonçalves diz que apenas por volta de setembro será possível avaliar o resultado das medidas recentemente anunciadas pela equipe econômica do governo (atenção à dívida bruta, elevação de juros, preço administrado, redução de subsídio e de intervenção no câmbio). E também enxergar a verdadeira dimensão da retomada da economia dos Estados Unidos.

Ele explica que os efeitos a curto e a médio prazos são aceleração da inflação, queda de renda disponível, estagnação ou contração do mercado de trabalho e desaceleração do consumo. “Tudo leva à estagnação e recessão, o que leva ao ajuste fiscal doloroso”, pontua.

“É um ciclo vicioso que só se interrompe com alguma novidade, que ainda não se enxerga a curto prazo, por isso todo mundo está zerando as projeções para esse ano, se não adotando contração do PIB para esse ano, com efeito importante para o ano que vem”, afirma. O aumento dos investimentos, o economista acrescenta, seria uma das novidades possíveis e desejáveis.

Agenda política

Já no âmbito político, a previsão é de tensão principalmente nas relações do Congresso com a presidência da República e até com o STF (Supremo Tribunal Federal), que deverá julgar ações sobre terceirização de mão-de-obra, tema de dois projetos paralisados no legislativo, e a respeito de financiamento de campanha.

O problema maior deve ficar mesmo nas mãos do governo, que terá de negociar, pelo menos por enquanto, com sete partidos (os ex-presidentes Lula e FHC tinham de lidar com cinco e três, respectivamente). “O número de partidos aumentou e os maiores perderam cadeiras. O Congresso está mais fragmentado”, diz Rui Nogueira, da Patri Políticas Públicas.

A presidente Dilma Rousseff terá de negociar com deputados e senadores temas mais difíceis, como MPs, cortes no orçamento e o caso de corrupção na Petrobras. “Haverá desgaste brutal para fazer essa interlocução, mais esforço de coalização”, avalia.

Se até o ano passado havia 22 partidos atuando no Congresso, agora são 28. Houve baixa renovação dos congressistas, na última eleição: na Câmara, por exemplo, de 513 eleitos, 56% foram reeleitos, mas apenas 16% são realmente novos, sem serem herdeiros de tradicionais políticos. “O retrato não permite ilusão quanto ao Congresso”, cita Nogueira.

Esse grande número de partidos disputando poder em Brasília é reflexo da não-existência da cláusula de desempenho. “Carecemos de uma profunda reforma eleitoral. Para se ter ideia, o gasto médio declarado para a eleição de um deputado federal foi de R$ 144 mil. Quem acredita que uma eleição para deputado custa isso?”, comenta, em referência ao financiamento de campanha, outro item de discussão sobre a reforma eleitoral.

“O Congresso vem numa caminhada que mostra que ele precisa de um turn point, mas a gente ainda não sabe o que vai acontecer”, expõe.

Somado a isso, o governo também deve dispensar energia ainda este ano visando às eleições municipais, em 2016. “A diferença de votos entre PT e PSDB foi muito pequena, na última eleição, o que se tornou a grande preocupação do partido”, explica.

Confira cobertura da Agência Estado

Confira matéria publicada pelo jornal DCI, em 23/01 

 

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