Falta de planejamento afasta capital estrangeiro dos projetos de infraestrutura brasileira

publicado 10/11/2015 15h54, última modificação 10/11/2015 15h54
São Paulo – Brasil ocupa 74ª posição no ranking do Fórum Econômico Mundial sobre infraestrutura
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Sem planejamento logístico de longo prazo, o Brasil não conseguirá o capital privado necessário para modernizar sua infraestrutura de transportes, de acordo com Maurício Endo, sócio líder de Governo & Infraestrutura da KPMG no Brasil.

“Vejo repetidamente cada novo governo montar um plano de infraestrutura muito bonito e depois não mostrar nenhuma ambição para garantir que se contrate pelo menos 80% do objetivo colocado”, afirmou Endo no comitê de Logística da Amcham – São Paulo na terça-feira (10/11), que contou com a participação de Steve Beatty, sócio líder de infraestrutura para as Américas e Índia da KPMG.

Para Maurício, o Programa de Investimento em Logística (PIL) lançado em 2012 pelo governo federal é um exemplo de falta de planejamento de longo prazo. O PIL previa a reforma e construção de rodovias, ferrovias, hidrovias, portos e aeroportos com investimentos em torno de R$ 133 bilhões.

Três anos depois, nem a metade dos projetos previstos foi contratada, avalia Endo. “Em termos de investimento total, talvez tenhamos contratado 40%. Com isso, o governo se dá por satisfeito e diz que foi um sucesso. Mas não foi”, segundo o executivo. Uma segunda fase do PIL foi anunciada em junho, prevendo investimentos de R$ 198,4 bilhões em concessões de transportes. Muitos projetos da versão anterior foram incorporados na nova etapa.

Priorização de projetos

Em um bom planejamento, há projetos estratégicos que precisam ser priorizados, acrescenta Endo. “Se eles não forem identificados e justificados, nenhum governo vai conseguir estrutura-los de forma adequada e leva-los a mercado para que sejam contratados e integrados aos que já existem.”

A falta de objetividade impede que o próprio governo viabilize os investimentos. “Ministérios e agências setoriais não conseguem estruturar os projetos de forma adequada sem direcionamento. Toda obra exige um projeto executivo detalhado de qualidade, para contratar e executar no prazo e orçamento estipulados.”

Embora o risco de interferência política seja constante, Endo argumenta que quando há uma estratégia clara de modernização dos transportes, a ingerência tende a ser menor. “Digamos que em um plano de 20 anos para a infraestrutura haja 200 projetos prioritários no Brasil, é mais fácil ter uma agenda de trabalho de médio e longo prazos e evitar que o 100º projeto saia da lista para o 1º lugar.”

Comparado a países emergentes de grande porte como México e Índia, o Brasil está bastante atrasado e perde investimentos por causa da falta de melhores condições. “Os dois têm programas parrudos de investimento e mais credibilidade. Há capital no mundo e até no Brasil para investir, mas o nosso excesso de burocracia e incerteza regulatória tiram credibilidade perante os investidores”, segundo o consultor.

Pela característica e montante de dinheiro envolvido nos projetos (bilhões de dólares que serão recuperados depois de muitos anos), é preciso apresentar o projeto com alguns anos de antecedência. “No primeiro PIL, o governo brasileiro fez road shows em vários países convidando investidores a participar de leilões que ocorreriam dentro de alguns meses. Os investidores e bancos precisam avaliar a viabilidade econômico-financeira com pelo menos dois anos de antecedência, pois são projetos de bilhões de dólares. É muito dinheiro”, destaca Endo.

O sucesso de México e Índia

Steve Beatty, sócio líder de infraestrutura para as Américas e Índia da KPMG, disse que o formato de road shows que o governo brasileiro faz nos mercados financeiros externos não é o mais adequado para atrair investidores. “É preciso atrair ativamente as empresas que modelam e desenvolvem infraestrutura de outros países para que eles ganhem os projetos e, assim, atrair mais capital”, afirma Beatty.

No México, a quebra do monopólio de exploração e produção de petróleo e gás da Pemex – Petróleos Mexicanos – em 2013 atraiu investidores nacionais e estrangeiros, exemplifica Beatty. Outro caso de sucesso vem da Índia. “Na Índia, o governo mudou as regras de investimento nas áreas Aeronáutica e Militar, o que fez uma grande diferença para os investimentos.”

O bom exemplo do setor de energia

O modelo de contratação de energia brasileiro é um exemplo a ser replicado em outras áreas, defende Endo. “Com os leilões A-3 e A-5, se contrata energia para os próximos três e cinco anos, respectivamente. O planejamento é detalhado e todos conhecem a lista de projetos dos próximos dez anos. É isso que precisamos disseminar de forma mais ampla, para vários setores.”

Usando dados do Fórum Econômico Mundial, Endo disse que a infraestrutura do Brasil está na 74ª posição entre 140 países. Atualmente, o país investe 2% do PIB (Produto Interno Bruto) em melhorias, mas Endo cita que o país precisa aumentar para, pelo menos, 5% ao ano. “A China investe 13% do PIB, enquanto a Índia direciona 4%. Não somos um país competitivo, e a causa disso é a falta de infraestrutura”, compara.

 

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