Gerenciar uma empresa é fácil; difícil é administrar a própria mente, afirma Augusto Cury

por marcel_gugoni — publicado 05/09/2012 14h55, última modificação 05/09/2012 14h55
São Paulo – Mente descuidada é responsável pelos piores erros de executivos e funcionários, pode fazer desmoronar um bom ambiente de trabalho e consiste na maior vilã da qualidade de vida.
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Gerenciar uma empresa é fácil; difícil é administrar o próprio pensamento. A única companhia no mundo que não pode falir – a mente humana – é responsável pelos piores erros de executivos e funcionários, culpada pelo desmoronamento de um bom ambiente de trabalho e configurada na maior vilã da qualidade de vida. O psiquiatra e psicoterapeuta Augusto Cury diz que 80% dos executivos são demitidos exatamente por problemas comportamentais.

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Tais falhas costumam ser decorrentes de decisões tomadas em momentos de grande estresse devido à falta de um choque de gestão adequado ao pensamento. “O estresse brando é uma importante fonte de inspiração que nos faz crescer, mas, em grandes doses, torna-se crônico, abortivo e desgastante.”

Cury participou de encontro especial do comitê aberto de Secretariado Executivo da Amcham-São Paulo, realizado nesta terça-feira (04/09), em comemoração antecipada ao Dia da Secretária (30/09). Falando a uma plateia de mais de 450 profisssionais, ele pediu que levantassem as mãos os que haviam apresentado ao menos um dos sintomas do estresse: fadiga excessiva ao acordar, dores de cabeça, dores musculares, queda de cabelo, irritabilidade, flutuação emocional, sofrimento por antecipação e déficit de concentração.

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Ao verificar que todos se manifestaram em ao menos uma característica, ele complementou: “Quem anda esquecido?” A plateia riu e o médico deu seu veredito: “Somos uma plateia de pessoas esquecidas. Esse esquecimento, longe de ser um problema, é um grito de alerta de 100 bilhões de células neuronais tentando nos avisar que estamos cronicamente estressados, e nosso ‘eu’ não está conseguindo dar o choque de gestão na psique. Isso significa que estamos gastando mais energia do que conseguimos repor.”

Trabalhar a mente

Cury é autor de nove livros, de romances a obras daquilo que ele chama de “psicologia aplicada”, e figura na lista dos maiores best-sellers do País, com mais de 12 milhões de exemplares vendidos em território nacional e títulos traduzidos a outros idiomas, atingindo 60 países. Entre suas obras, estão a série de O Vendedor de Sonhos – O Chamado (Planeta, 2008), O Colecionador de Lágrimas (Planeta, 2012) e Mentes Brilhantes, Mentes Treinadas (Academia, 2010).

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Segundo ele, o choque de gestão surge como necessidade para reorganizar a mente a fim de reagir melhor aos problemas e enfrentar com mais força as frustrações do dia a dia. “A mente humana é a única empresa que não pode falir, mas é a mais difícil de ser explorada e treinada. Quem não aprende a educar o próprio ‘eu’ corre o risco de virar escravo no único lugar em que deveria ser livre: o território da emoção e do pensamento.”

Pesquisador da construção da psique e do processo de pensamento, Cury afirma que a mente realiza inúmeras ações simultaneamente registrando informações e estímulos. É o que ele chama de processo de registro automático de memória, ou RAM. Esses pensamentos formam a estrutura da personalidade, mas as pessoas não estão acostumadas a questionar seus pensamentos e a forma como eles se armazenam.

“Os mesmos fenômenos que estão na base das cadeias de ideias, das imagens mentais e da criatividade formam também armadilhas como a insegurança, a hiperpreocupação com o que os outros falam de nós, o sofrimento por antecipação, o medo de falhar e o medo de correr riscos para realizar nossos sonhos.”

O segredo está em como trabalhar nesse “complexo campo minado” para extrair resultados positivos. “Uma mente solta, sem gestão ou um choque de lucidez, pode desenvolver uma construção de pensamentos a tal ponto que deteriora completamente nossa qualidade de vida.”

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Para Cury, é impossível deletar qualquer pensamento. “Temos que aprender a conversar com nossos fantasmas porque não podemos apagar nossos arquivos. Imaginem se pudéssemos deletar da mente quem nos fez sofrer. Quem vocês gostariam de apagar? O gerente o banco, o chefe, o ex?”, brincou, tirando risos das secretárias.

Duvidar e criticar

O psiquiatra aponta, então, para um caminho de reedição dos pensamentos armazenados, o mencionado choque de gestão da mente. A teoria que ele chama de DCD (Duvidar, Criticar, Determinar) se baseia nos princípios de filosofia, psicologia e gestão de pessoas para reordenar as significações que damos aos estímulos mentais. “Essa ferramenta é fundamental e deveria ser usada por todos: executivos, gerentes, profissionais, adultos, jovens, homens e mulheres”, reforça.

A dúvida surge como etapa inicial do processo de higiene mental, principalmente quando “estamos sob o caos do medo, da angústia, da ansiedade, da irritabilidade”, explica. “Devemos gritar para nós mesmos: ‘duvido que eu não possa sair do meu mau-humor’.”

A crítica aparece como forma de analisar mais a fundo a origem das sensações e tensões. “Devemos criticar cada pensamento perturbador para reciclá-lo”, afirma. O exercício, segundo Cury, é complexo e requer esforço. “Jogar essa luz na mente é fundamental para sair do cárcere da rotina. Isso ajuda a encontrar saídas inusitadas e surpreendentes aos problemas.”

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Em um cenário de velocidade nas relações sociais e nas decisões do dia a dia, a resposta mais eficiente aos desafios nem sempre é a primeira. “A melhor resposta é não dar resposta logo de cara. É preferível parar para ouvir a própria consciência e abrir o leque a mais soluções em vez de escolher algo impensado.”

A lição serve para qualquer situação, diz Cury. Pode-se evitar uma escolha errada na empresa, sair de uma discussão familiar e escapar de cenários ruins de carreira, por exemplo.

A determinação serve como baliza para que as ideias rumem para o objetivo desejado. “Determinar é fundamental para atingirmos nossas metas. O maior erro aqui é não compreender que qualquer escolha implica em perdas”, considera. Para Cury, vivemos em uma era de desejos sem metas claras.

Qualidade de vida

Deixar de refletir, duvidar e criticar as próprias ideias coloca os indivíduos em um sistema mental de circuito fechado da memória. “É isso que nos faz dar respostas erradas quando deveríamos brilhar”, afirma. O excesso de estresse e a sensação de falta de tempo levam à síndrome do pensamento acelerado – e só pioram o fluxo desse circuito.

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“Hoje o ser humano se conecta com o mundo, mas não sabe se conectar consigo mesmo. A internet é boa? Sim, porque socializa o conhecimento. As redes sociais ajudam? Sim, elas melhoram a interação. Mas vivemos em uma sociedade de pessoas que abandonaram a si próprias.”

Números citados durante a palestra mostram que em torno de 80% das pessoas mostram quadros de insegurança e timidez; 50%, de obsessão; e 20% de depressão. “É preciso proteger a emoção e libertar o pensamento” para alcançar maior qualidade de vida, reflete Cury. “Pensar antes de reagir, expor e impor ideias e frustrações, agir com resiliência e tolerância ajudam.”

Escapar dessa síndrome ajuda a dilatar o tempo, “isto é, aprender a fazer muito do pouco, transformar pequenas ações em grandes resultados”. Para Cury, os verdadeiros gênios são aqueles que conseguem usar bem as ferramentas de gestão do pensamento.

“Hoje, o gênio é o ser humano que consegue ver o caos como oportunidade criativa e entende que podemos – e devemos – escrever os capítulos mais importantes da nossa história nos dias mais tristes da nossa vida. É isso que nos dá uma vida mais suave e serena”, concluiu, tirando aplausos demorados de uma plateia que se levantou para reverenciar as lições aprendidas.

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