Inovação depende da remoção gargalos internos que inibem espírito empreendedor nas empresas

por daniela publicado 15/09/2011 16h14, última modificação 15/09/2011 16h14
Daniela Rocha
São Paulo - Chave está em adequar estratégias, processos e recursos para permitir que colaboradores exerçam criatividade, ressalta Bruno Moreira, sócio diretor da Inventta.
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A inovação, considerada fundamental para a sobrevivência dos negócios no mundo globalizado, depende muito da eliminação de uma série de gargalos dentro das próprias empresas, muitas vezes difíceis de serem identificados. O alerta é de Bruno Moreira, sócio diretor da consultoria Inventta – Inteligência em Inovação.

“O grande desafio está em identificar e colocar em prática aspectos fundamentais para tornar o ambiente propício à inovação. Alguns deles são físicos e mais visíveis, como a infraestrutura, os recursos, os processos e a qualificação das pessoas; porém, existem questões como missão, valores, clima organizacional e algumas regras do jogo não declaradas que devem ser trabalhadas”, afirmou Moreira, que participou nesta quinta-feira (15/09) do comitê de Inovação da Amcham-São Paulo.

Empreendedorismo

As companhias precisam promover a cultura empreendedora, permitindo que os indivíduos exerçam a criatividade e a persistência para fazer a inovação acontecer, orientou Moreira.  Para atingir tal objetivo, diversos obstáculos devem ser removidos. O principal erro é a inovação estar presente no discurso, mas não se refletir na prática pela falta de condução e direcionamento da alta gestão. Nesse sentido, devem existir líderes de inovação permeados na organização.

Nas relações entre as pessoas, os equívocos mais recorrentes são o estímulo à competição, os conflitos e a peer-pressure, uma espécie de pressão velada dos pares ou superiores hierárquicos aos demais, que os inibem de terem atitudes autênticas e apresentarem ideias. Conforme o especialista, a partir de uma observação mais crítica, essas práticas têm de ser analisadas e evitadas.

A área de Recursos Humanos deve ser proativa na captação e retenção de pessoas alinhadas com os valores corporativos e que possuam perfil inovador, garantindo ainda uma política adequada de remuneração, motivação e reconhecimento. “Pouco pode ser feito quando há desalinhamento entre as propostas individuais e a missão da empresa ou quando a equipe não reúne as competências necessárias para inovar.”

Processos e recursos

A rigidez e a burocracia não podem perpassar os processos de inovação. Mesmo assim, persiste uma tendência à formatação. “Quando há engessamento, as pessoas não conseguem fazer as coisas acontecerem. Os processos necessitam de flexibilidade para que não se percam oportunidades que, eventualmente, estão ‘batendo à porta’”, ressaltou.

Outro problema frequente é o constante contingenciamento de recursos à inovação. O consultor enfatizou que é justamente nos períodos de crise que as empresas que apostam em novos projetos e reinvenção ajudam na superação das dificuldades.

Na visão de Moreira, atualmente existem incentivos e mecanismos de financiamentos à inovação em volume considerável no País, mas, apesar disso, ele lembra que as empresas devem direcionar orçamentos próprios. “É preciso ter apetite para investir no que interessa. Não é possível alavancar 100% em recursos de terceiros.”

Inovação tecnológica

A Embraco, fabricante de compressores para refrigeradores, tem destinado à inovação cerca de 3% de seu faturamento líquido ao ano, acima da média do setor. A participação de novos produtos nas vendas foi de 80% nos últimos quatro anos, superior à meta estabelecida de participação de 60%. Os drivers das soluções diferenciadas são eficiência energética, miniaturização e produtos verdes (oil-free).

Para Fabio Klein, diretor de Desenvolvimento Tecnológico da Embraco,  são desafios constantes a atração de talentos e o fortalecimento do quadro de pesquisadores. 

A companhia tem estreitado relacionamento com as universidades para captação de profissionais recém-formados. Visando a retenção e o desenvolvimento, há possibilidade de participações em projetos específicos de maior interesse, oportunidades de trabalho nas unidades do exterior (Estados Unidos, Itália, Eslováquia, China e, em breve, México), oferta de bolsas de estudo, treinamentos e carreira em Y.

“A carreira em Y busca valorizar as qualidades dos pesquisadores, que podem chegar ao mesmo nível de salários e benefícios que os diretores”, disse Klein. Hoje, a rotatividade de profissionais na Embraco é próxima de zero.

Apesar de manter um ambiente adequado à inovação, a Embraco não seria capaz de fazer tudo sozinha. “São importantes as parcerias com outras empresas e a cooperação com universidades e centros de pesquisas”, acrescentou Klein. Assim, foi desenvolvida uma rede de geração de conhecimento com mais de 300 pesquisadores.

Arquitetura

Também presente ao comitê da Amcham, Heloisa Dabus, diretora-presidente da Arquitetura, que desenvolve projetos inovadores de arquitetura corporativos e comerciais, destacou que, cada vez mais, as empresas apostam em ambientes de trabalho com identidades visuais que reflitam suas missões e valores e estimulem a criatividade.

Ao mesmo tempo, mudanças comportamentais e nas relações entre as pessoas impactam nas formatações. Os colaboradores, segundo Heloisa, são considerados peças fundamentais no negócio e o lugar de trabalho passa a ser estruturado respeitando seus anseios. Onde se sentem bem, produzem mais.

“Está caindo o modelo hierarquizado representado pelo tamanho da mesa dos gestores e com equipes posicionadas como em uma escola. Os escritórios são mais abertos, arrojados e coloridos, sem paredes. Há áreas colaborativas e informais com o objetivo de intensificar a socialização e até criação de espaços com redes para descompressão”, explicou.

A arquiteta ressaltou que, nas corporações, a distribuição do espaço, de maneira geral, é de 51% para trabalhos individuais; 10% de salas de reunião; 25% para convivência; e 14% para suporte. Ela lembrou que, no passado, a área para trabalhos individuais representava 91%.

 

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