Inovação não é só a boa ideia, mas a abertura de espaço para que as soluções de negócios apareçam

por marcel_gugoni — publicado 09/11/2012 17h50, última modificação 09/11/2012 17h50
São Paulo – Conheça seis tópicos que as empresas devem trabalhar para criar o ambiente de inovação ideal.
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Inovação não é somente a boa ideia. A empresa que inova de verdade é aquela que consegue abrir espaço para a busca de soluções e de melhorias que digam respeito a qualquer ponto do ambiente de trabalho ou do negócio, e que seja também capaz de aplicar essas sugestões.

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O tema da inovação está na ordem do dia das empresas, como a qualidade já esteve na década passada. Mas uma grande parte das companhias relacionam a inovação obrigatoriamente à criatividade e a ideias revolucionárias. “Inovar não depende de ser criativo, mas de unir um conhecimento aplicado de forma que traga retorno”, afirma o consultor Bruno Moreira, diretor executivo da Inventta.

Ele participou nesta sexta-feira (08/11) do comitê aberto de Inovação da Amcham-São Paulo, onde debateu como promover e estimular a criatividade e a inovação no ambiente corporativo. A resposta está longe de ser uma receita de sucesso de inovação garantida. Antes, ajuda a abrir os olhos das empresas para os aspectos mais importantes a fim de criar um solo fértil a mentes frutíferas. “A essência do ambiente de inovação é criar um ambiente propício às pessoas serem inovadoras.”

Segundo ele, há seis aspectos que devem ser olhados – e cuidados – quando o assunto é inovação.

1. Criatividade x Inovação. Inovação não é sinônimo de inventividade nem de criatividade, mas de uma somatória de esforços transformados em um conceito que será aplicado em uma empresa e que pode melhorar um processo de produção, um produto que será vendido, uma forma de atendimento ou qualquer outro aspecto. Esse é o primeiro mito que deve ser quebrado para inserir inovação na estratégia da empresa.

Para Mariana Yazbeck, responsável pelo programa de inovação da área de Engenharia em Powertrain da Fiat, a inovação surge sempre do incômodo com algo. A solução a esse incômodo é a ideia que deve ser tratada para, depois, trazer algum retorno à empresa. “A inovação tem quer ser hábito”, diz ela, defendendo que as empresas que querem inovar aprendam a criar o terreno de boas práticas.

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Um bom exemplo é personagem Professor Pardal, dos desenhos de Walt Disney. “Ele é um grande inventor, mas não é inovador porque nunca vimos o Tio Patinhas ou o Pato Donald usando as criações dele”, ilustra a executiva.

2. Pessoas. O principal componente da inovação é o cérebro humano. Para criar algo positivo e de sucesso para a empresa, basta ser gente, brincam os especialistas. “Tudo o que usamos hoje já foi uma inovação um dia. E por trás de cada coisa tem a figura do inovador”, relata Moreira. Quatro aspectos devem ser levados em conta quando se insere o componente humano na inovação: tempo, competência, motivação e liderança.

O tempo é o bem mais escasso dos trabalhadores hoje, diz ele. É por isso que um ambiente propício deve criar espaço para que esse tempo seja bem aproveitado. Isso só vai ocorrer se a empresa conseguir encontrar a habilidade certa que busca para promover sua inovação. “Se não houver competência, é difícil tocar o projeto”, afirma.

Como as boas ideias podem vir de qualquer lugar, Mariana diz que reuniões de brainstorm ajudam a otimizar o tempo e permitir que cada um dê suas ideias conforme seu conhecimento. Ela defende que do operário até o executivo devem participar porque podem oferecer soluções satisfatórias. “O olhar de fora faz diferença”, aponta.

Na Fiat, em uma dessas reuniões, mais de 80 pessoas de duas equipes, uma de Engenharia de Produtos e uma de manufatura, fizeram reuniões de ideias. Em poucas horas, mais de 600 sugestões de melhorias foram dadas pelos participantes.

3. Gestão. O passo seguinte é propiciar a aplicação do que foi debatido. “É preciso incorporar essa inovação à estratégia”, reforça a executiva. É da gestão o papel de motivar e reconhecer as boas práticas. O feedback é apontado como uma forma interessante de manter os profissionais engajados e interessados em continuar sugerindo mudanças e, também, em explicar o motivo do não aproveitamento de parte das ideias.

“A inovação pode ser gerenciada como qualquer coisa dentro de uma empresa”, defende o consultor da Inventta. “O ponto da liderança aqui é que, muitas vezes, a inovação, apesar de importante, é vista como não urgente. Qualquer ação sem a devida atenção da liderança não vai acontecer de maneira adequada.”

Reconhecer significa também oferecer processos de avaliação e bonificação alinhados com os esforços de inovação. E é essencial comunicar a toda a equipe qual o objetivo da empresa em desenvolver programas do tipo. “Normalmente, os problemas são fazer as pessoas se reconhecerem como inovadoras e as lideranças terem essa prática como importante”, diz Mariana.

A gestão da inovação envolve as dimensões do uso do recurso financeiro, do aproveitamento da infraestrutura e da criação de processos para que se torne algo que atinja a empresa como um todo. E os dois especialistas reconhecem: não dá para a companhia manter sua postura de inovadora só no discurso – e deixar que o ambiente do dia a dia sufoque a inovação.

4. Ambiente. Trabalhar o ambiente é permitir que o processo de inovação ocorra. Essa questão envolve desde a disponibilização de espaços adequados à criatividade até a destinação de recursos financeiros suficientes. “Mas vai muito além do tangível”, defende Moreira.

Se a empresa é burocrática ou se a cultura da empresa é de pressão excessiva e competição acirrada, fica mais difícil o funcionário ter o olhar afiado para as melhorias. Isso porque o foco dele será sempre emperrar em problemas ou estar preocupado com o que o colega está fazendo de diferente para superá-lo.

5. Cultura. A cultura da empresa influencia em todo o processo inovativo. Apple e Google são as duas maiores inovadoras da atualidade, mas, enquanto uma está pautada por uma cultura de esforço árduo e até um pouco de gritaria do chefe, a outra deixa os funcionários mais livres e permite que eles criem à vontade.

“Para promover inovação é ideal que a empresa tenha diversidade, colaboração, reconhecimento do esforço que as pessoas fazem, direcionamento da estratégia, algum nível de tolerância ao erro e apetite a risco”, detalha o consultor. No fim das contas, inovar é gerenciar sucessos e fracassos em alguma medida.

Para Mariana, manter uma cultura de inovação é reconhecer que nem todos são inovadores natos ou criadores compulsivos. “Sempre haverá tanta gente focada no trabalho que ficará difícil parar para pensar em inovação. Não é preciso ter um time só de inovadores, mas um ambiente que abra espaço para que estes se manifestem.”

Cooperação e comunicação são as palavras-chave usadas por ela para definir uma cultura aberta ao novo.

6. Prática. E o mais importante de tudo isso é colocar em prática, conforme recomenda Moreira. “O ambiente para inovação tem uma série de elementos que fica difícil isolar um somente. E como não há um jeito único de fazer isso, a empresa tem que começar”, diz.

“Todas as teorias são lindas e maravilhosas, todos os aprendizados dos outros são bons. Mas só se aprende fazendo. É como aprender a andar de bicicleta. Não é na sala de aula que se aprende, mas fazendo. Vai haver tombo, queda. Levante-se e continue.”

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