Inovação passa em avião supersônico e o Brasil corre atrás com sandália de dedo, diz especialista

publicado 07/06/2016 15h23, última modificação 07/06/2016 15h23
São Paulo – Para Gil Giardelli (ESPM, INEPAD e FIA), inovação é cada vez mais decisiva para geração de riquezas
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“A inovação está passando em um avião supersônico e o Brasil corre atrás dela com sandálias de dedo.” A afirmação de Gil Giardelli, professor de pós-graduação da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), Instituto de Ensino e Pesquisa em Administração (INEPAD) e Fundação Instituto de Administração (FIA), ilustra como o Brasil está ficando para trás no desenvolvimento de inovação e criação de negócios digitais. Por teleconferência dos Estados Unidos, Giardelli apresentou as grandes tendências de negócios criadas pelas tecnologias digitais no comitê estratégico de CEOs & Chairpersons da Amcham – São Paulo na terça-feira (7/6). Se o Brasil não investir em inovação, vai deixar de gerar receitas da ordem de bilhões de dólares. “No mundo todo, 30% dos lucros vem da inovação. Há dez anos era 4%. Nunca a inovação esteve no centro de tudo”, lembra Giardelli.

É o caso da BMW, que Giardelli cita como exemplo de transformação de negócios. Durante a comemoração do seu centenário em março, a montadora alemã lançou um modelo equipado com tecnologia de internet das coisas (produtos com sensores que interagem entre si) e big data (análise de padrões de consumo via sensores ou monitoramento das redes sociais). Na ocasião, também anunciou que estava mudando sua filosofia para os próximos cem anos de indústria automobilística para empresa de conexão urbana. Era um reflexo da concorrência gerada por apps de serviços de transporte e carros confortáveis e econômicos desenvolvidos por empresas de tecnologia.

“Em Berlim, além da opção de comprar o carro, o usuário pode pagar uma taxa mensal e vir para uma reunião de trabalho usando um Mini Cooper. No fim de semana, troca por um modelo X1 (de luxo) para passear com a família e, se estiver de mudança, pega um (utilitário) X5”, comenta Giardelli.

Por sua vez, a concorrente Mercedes-Benz também está lançando o seu modelo tecnológico. “O motorista pode informar o caminho em viva voz e o carro vai até o destino sem que ele tenha que pegar no volante.”

O processo de digitalização das indústrias fez com que setores que sempre foram segmentados, como automobilístico e tecnologia, começassem a concorrer e gerar transformações em um prazo mais curto. “Estamos saindo do foco em produto para inovação radical. Se antes uma inovação de mercado levava trinta anos, agora demora um ano”, segundo Giardelli.

Nem o agronegócio está a salvo de inovações radicais, observa o especialista. No Reino Unido, surge o conceito de agricultura urbana, onde hortaliças são produzidas por tecnologias de iluminação e irrigação artificial dentro das cidades. “Parte da produção de comida britânica é feita em estações de metrô abandonadas.”

Em outro exemplo, empresas de tecnologia estão usando abelhas artificiais com tecnologia de internet das coisas para aumentar a produtividade das colheitas. Isso significa que empresas de tecnologia vão competir com empresas do agronegócio ou se unir a elas.

Ambiente inovador no Brasil

A nova onda tecnológica que está mudando as empresas não chegou ao Brasil por causa de empecilhos regulatórios e falta de ações públicas de incentivo à inovação.

Para contornar o atraso tecnológico, Giardelli sugere que as empresas mantenham comitês de inovação para discutir gestão de mudanças, inovação e liderança. É importante que a iniciativa seja apoiada pela alta liderança, porque “todo mundo quer mudança, mas não na própria área”.

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