Integração é fator decisivo para crescimento sustentável da América Latina, e Brasil tem posição de destaque no processo

por andre_inohara — publicado 06/12/2012 17h31, última modificação 06/12/2012 17h31
São Paulo – Crescimento médio da região deve ficar acima de 3% nos próximos anos, e dependerá da melhoria das relações com parceiros americanos, asiáticos e europeus, afirma Ingo Plögger.
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Uma maior integração comercial, logística e energética entre os países da América Latina aumentaria a competitividade da região, tornando seus membros mais preparados para enfrentar a concorrência vinda da Ásia, América do Norte e Europa no comércio mundial.

“A integração da América Latina é um fator decisivo para que o continente mantenha o crescimento sustentável dos últimos anos”, destaca Ingo Plögger, presidente do Conselho Empresarial da América Latina - CEAL. O Brasil tem papel fundamental nesse processo, comenta o executivo, diante do peso econômico e do bom relacionamento com os países vizinhos.

“Vemos uma tradição de integração energética entre Brasil, Argentina e Paraguai com a usina de Itaipu, um acordo que celebra quase 50 anos de parceria. Há outras surgindo, como a integração com a Bolívia e Venezuela, e podemos ter muito mais”, exemplificou o executivo, em entrevista depois de ter participado do comitê de Business Affairs LATAM da Amcham-São Paulo, nesta quinta-feira (6/12).

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A criação de uma estrutura logística interligada no setor energético pode até ser explorada comercialmente. “Também podemos ser exportadores de energia para América Central e Caribe, a exemplo do que ocorre com a bioenergia e todo o sistema de etanol”, argumenta o executivo.

No aspecto comercial, é preciso que os governos trabalhem em conjunto para desobstruir divergências tributárias e de mercado.

“Temos que aumentar os acordos de bitributação e livre mercado dentro do continente, o que fortaleceria o intercâmbio de comércio e investimento. Hoje, há pouco estímulo para que as multinacionais latinas aumentem sua participação no continente”, destaca Plöger.

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No panorama da região, México ganhará influência

Em meio a um cenário internacional turbulento, a América Latina tem se destacado pela conquista de estabilidade democrática e econômica e atraído muitos investimentos das regiões mais desenvolvidas do globo.

O Brasil deve crescer [estimativa do boletim Focus do Banco Central indica que será de 3,7% a expansão em 2013], mas a economia de alguns países tende a crescer bem acima dessa média. “Esperamos crescimento acima de 3% na América Latina nos próximos anos, sendo que México e Brasil vão fazer a diferença positiva, ao lado de Colômbia, Peru e Chile”, estima Plöger.

Para o executivo, o México terá um papel crescente na região, devido à sua proximidade com os Estados Unidos e à intenção do novo governo de estreitar o comércio com o Brasil. Atualmente, o acordo bilateral Brasil-México está restrito a 900 produtos, de uma pauta de mais de 9 mil.

“O México precisa buscar maior abertura de exportações para a América Latina, e o novo governo manifestou interesse de ampliar acordos com o Brasil. Há um mês, a equipe de transição do presidente eleito Enrique Peña Nieto [que assumiu em 01/12] mencionou várias vezes o interesse na ampliação desses acordos”, comenta o executivo.

O intercâmbio comercial com o México traria muitas contribuições, especialmente no setor de serviços. “Os mexicanos são muito preparados na área de turismo, que é altamente profissionalizada. Tanto o Brasil como o restante do continente poderiam aprender muito com eles”, argumenta Plöger.

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Futuro das relações com a China

No futuro, a participação chinesa no comércio latino-americano tende a crescer e acentuar o desequilíbrio da balança comercial entre as duas partes. A exportação da América Latina para a China se concentra em commodities. Isso representa 90% da pauta, e a região importa quase 90% em bens de conteúdo tecnológico, descreve Plöger.

“Essa parceria com a China precisa ser reequilibrada, com o país importando produtos de maior valor agregado da América Latina”, observa. Para ele, o continente pode vender aviões, softwares, máquinas e equipamentos e produtos de mais valor agregado, e negociações nesse sentido precisam ser muito convincentes.

“Isso está bem ligado a questões de política comercial chinesa, para a abertura de mercado para nós”, afirmou o executivo. Nesse assunto, o Brasil seria um interlocutor de peso, pois é um dos poucos países que têm superávit com a China – ao contrário do cenário da América Latina.

O reequilíbrio no comércio com a China é estratégico para o Brasil, ressalta Plögger. “A pressão [para negociar] via balança comercial não é tão alta, mas pela desindustrialização brasileira. Estamos perdendo para a China indústrias inteiras de matérias básicas, um quadro que pode se tornar irreversível se não ficarmos atentos”, alerta o consultor.

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Aproximação com os Estados Unidos

A influência chinesa e o fortalecimento de economias latino-americanas não passarão despercebidos pelos Estados Unidos, e há a expectativa na América Latina de que a nova administração americana coloque a região mais fortemente em suas estratégias.

“Os EUA perderam quase 15% de exportações na região para a China e outros asiáticos [Índia e Malásia], então creio que essa aproximação pode ser rejuvenescida”, afirma Plöger. Para ele, a proximidade será favorecida por afinidades entre os presidentes Dilma Rousseff (Brasil), Barack Obama (EUA), Enrique Peña Neto (México) e Juan Manuel Santos (Colômbia).

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