Internacionalização de empresas brasileiras cria desafio de enviar e integrar executivos nacionais a culturas estrangeiras

por andre_inohara — publicado 06/09/2012 16h50, última modificação 06/09/2012 16h50
São Paulo – Multinacionais brasileiras promovem treinamentos e comunidades interculturais para minimizar o estranhamento inicial dos profissionais.
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O modelo brasileiro de negócios está ficando mais conhecido no mundo, graças à crescente internacionalização das empresas nacionais. Os executivos destacados para atuar no exterior têm que dar continuidade ao modelo bem-sucedido, mas sem desrespeitar as culturas locais.

Gestores de RH que participaram do comitê estratégico de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo nesta quinta-feira (06/09) contaram o que estão fazendo para facilitar a integração dos executivos que estão sendo enviados ao exterior.

“O que as empresas têm em comum são a dificuldade de integrar culturalmente o jeito brasileiro respeitando as práticas locais”, disse Pérsio Pinheiro, diretor de Desenvolvimento Organizacional e RH Internacional da Brasil Foods (BRF).

“Temos que entender melhor a dinâmica dos países em que estamos para conhecer as necessidades de integração, sem fazer imposições imperialistas”, destaca Pinheiro. Dentre os mais de 119 mil funcionários da empresa, a BRF mantém 4 mil atuando no exterior, divididos entre os nativos da localidade e os expatriados brasileiros.

A estrutura da BRF no exterior é composta por sete unidades industriais na Argentina, Europa e Oriente Médio, além de dezenove escritórios comerciais na América do Sul, Europa, África e Ásia. A presença internacional é crucial para o crescimento da empresa, segundo Pinheiro.

“Nosso desafio de crescer lá fora será através de joint ventures, aquisições e expansão de marca. Como nossa presença já está consolidada no Brasil, temos planos de ir ao exterior, onde temos espaço para crescer.”

Cultura e negócio diferentes

Quando a Suzano Papel e Celulose adquiriu em 2010 a israelense FuturaGene, se deparou com a necessidade de se adaptar rapidamente a um negócio diferente do setor de celulose. “Além de integrar uma empresa com cultura e língua diferentes, tivemos que estender o processo até o negócio, que é diferente”, conta Carlos Alberto Griner, diretor executivo de RH da Suzano Papel e Celulose.

Entre colaboradores próprios e terceiros, a Suzano conta com 21,5 mil pessoas e exporta celulose para as Américas, Europa e Ásia. Além do Brasil, a empresa possui mais dois centros de pesquisas na China e em Israel.

A FuturaGene é uma empresa israelense de biotecnologia agrícola, onde 42% dos funcionários possuem PhD e mestrado. “A Suzano tem tradição em manufatura, e a FuturaGene é muito envolvida em inovação. Temos que manter a chama do empreendedorismo acesa”, afirma.

Na FuturaGene, as políticas de integração envolvem meritocracia, possibilidade de carreira técnica, trabalho com equipes multiculturais e remuneração baseada nas legislações locais. “Tratamos a integração com todos esses cuidados, respeito e humildade, pois nosso desafio não é só cultural, mas de negócio”, comenta.

Formato de integração

Na Votorantim Cimentos, os principais desafios da internacionalização se referem ao formato de integração tanto administrativo (modelo organizacional e práticas de gestão) como cultural (perfil e mentalidade das pessoas), conforme apresentação do diretor de Desenvolvimento Humano Organizacional da Votorantim Cimentos, Guilherme Rhinow.

Uma das divisões industriais do Grupo Votorantim, a Votorantim Cimentos possui 15,7 mil funcionários e começou sua internacionalização em 2001, comprando fábricas na América do Norte. Em junho, a empresa comprou participação na similar portuguesa Cimpor, o que ampliou a atuação da divisão na Europa, África, Ásia, e América Latina.

Estudo sobre internacionalização

De forma geral, as empresas brasileiras têm respeitado as culturas locais, o que contribui para uma assimilação maior dos executivos, avalia Sherban Cretoiu, professor coordenador do Núcleo de Negócios Internacionais da Fundação Dom Cabral (FDC).

“À medida que a empresa vai se expandindo, tem que aprender práticas de gestão em outros mercados. As companhias brasileiras estão fazendo isso de forma muito competente e com a humildade e respeito necessários à atuação em outros países”, comenta ele.

No comitê, Cretoiu apresentou o estudo ‘O desafio multinacional e a contribuição estratégica de recursos humano’, que apontou vários desafios ao processo de internacionalização de empresas brasileiras. Entre eles estão o de preparar a próxima geração para assumir funções globais na empresa.

Conforme pesquisa, o ciclo de expatriação exige definições em várias etapas, que vão desde a adaptação até a volta. Tanto o pacote de benefícios e o envolvimento da família do executivo devem ser resolvidos, mas também a melhor forma de equilibrar a adaptação local e a preservação das políticas corporativas.

Uma vez expatriado, o executivo precisa de tempo para assimilar uma nova cultura, de acordo com dados da pesquisa. Quando a missão do executivo acaba ou ele tem que voltar por outros motivos, é preciso pensar na sua repatriação e consequente readaptação ao Brasil.

Em longo prazo, as empresas têm que pensar no desenvolvimento de líderes locais nos países estrangeiros, assim como a retenção de líderes globais.

Práticas de desenvolvimento adotadas

De acordo com o estudo, as práticas mais usuais de adaptação consistem em treinamento, criação de ambientes de integração e estágios em áreas diversas.

Além do treinamento intercultural, algumas empresas praticam a impatriação – movimento inverso de trazer os líderes globais de outras unidades da empresa para conhecer a cultura brasileira e as políticas da matriz. Programas de educação executiva voltados para o desenvolvimento de habilidades interculturais também estão sendo incluídos.

Em relação aos ambientes virtuais, o estudo cita as ‘comunidades de práticas’, que são os fóruns de compartilhamento de experiências. Para ganhar experiência e confiança, as empresas também promovem o job rotation tanto em destinos como funções e estágios internacionais.

  

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