Minorias ainda enfrentam bloqueios para ingressar nas empresas, avalia professora do Insper

publicado 21/06/2016 12h18, última modificação 21/06/2016 12h18
São Paulo - Afirmar que empresas são meritocráticas é desconsiderar falta de diversidade que existe no mundo corporativo
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"Se dissermos que as empresas são meritocráticas, estamos dizendo que as mulheres, os negros e outras diversidades não chegam aos cargos altos porque não são competentes", afirmou Regina Madalozzo, professora do Insper e especialista em Economia do Gênero, durante a primeira reunião do comitê de diversidade da Amcham - São Paulo, realizada na segunda-feira (20). Para a especialista, há um bloqueio que ainda impede a inclusão de minorias dentro das empresas, principalmente nos cargos de liderança.

Regina acredita que a base da inclusão é contratar pessoas que são competentes e não simplesmente estabelecer cotas para os grupos sem considerar o desempenho individual. "Não é para substituir pessoas competentes por pessoas incompetentes. Temos que olhar para a diversidade como pessoas que eu não estava contratando e que deveriam ter sido contratadas porque são mais competentes", afirma.

Para Adriana da Costa Ferreira, líder de Diversidade & Inclusão da IBM Brasil, o maior desafio é de fato consolidar a diversidade dentro das empresas. Na avaliação da especialista, muitas empresas tem o discurso de valorizar a diversidade, mas apenas o aplicam na contratação e não pensam no plano de carreira dessas pessoas. "As pessoas às vezes se enganam porque uma empresa levanta uma bandeira de inclusão de PDC (Pessoas com Deficiência) mas, na prática, isso não acontece. A empresa não está acessível ou até tem a acessibilidade física básica obrigatória, mas não conta a inclusão do dia a dia", explica. A IBM, por exemplo, contrata tetraplégicos que trabalham em home office, já que muitas vezes eles encontram dificuldades para ir até a empresa ou para conciliar tratamentos médicos com horários mais restritos de trabalho.

Para ela, entender o que é essencial para cada grupo (mulheres, negros, LGBTs, PCDs e outras minorias) e escolher interlocutores para esses grupos são chaves para começar a, de fato, implementar a diversidade no mundo corporativo. Outra dica dada pela especialista é prestar atenção no código de conduta da empresa e analisar se há a inclusão de todas as minorias. "Não tem como falar sobre gênero, mas não falar sobre orientação sexual. Isso é um risco, porque gênero é só um dos fatores de diversidade.", alertou.

O valor da diversidade nas empresas tem relação direta com a lucratividade, segundo Regina. A professora lembrou que mulheres e negros correspondem, respectivamente, a 51% e 53% da população e que esses grupos têm poder de compra e podem não optar por uma marca ao não se sentirem representados por ela. Por outro lado, há também a questão da contratação: por uma questão de discriminação, às vezes uma companhia pode dispensar um candidato mais talentoso e que agregaria mais valor à equipe. A especialista trouxe exemplos de pesquisas recentes quem prova que empresas com mais diversidade são menos voláteis, tem menos riscos e endividamento e investem mais em inovação.

Avanço lento na diversidade

Os números de diversidade nas empresas estão melhorando mas o avanço ainda é muito lento, para Regina. Uma pesquisa realizada pela Ethos com as 500 maiores empresas no Brasil mostrou que as mulheres ocupavam 14% dos cargos executivos em 2010 e 22% nas gerências. Em questão de diversidade de raça, os números eram ainda mais alarmantes: em 2010, apenas 5% dos negros ocupavam cargos executivos nas empresas, e 13% na gerência. Além da falta de representatividade, Regina trouxe dados da Pnad que comprovam que mulheres e negros ganham menos, mesmo ocupando os mesmos cargos que homens ou pessoas brancas. "Ainda temos um caminho muito grande para afirmar que há igualdade dentro das empresas", lamenta.

O avanço na questão só acontecerá a partir do momento que as pessoas perceberem que a diversidade tem importância, segundo a professora. "Palestras, divulgação de artigos, números divulgados falando sobre o tema são formas de sensibilizar as pessoas para o tema. As empresas têm grande possibilidade de afetar o mercado via sua própria cadeia de fornecedores, seus trabalhadores, com eventos, discutindo o tema o tempo inteiro", afirma.


 


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