Decisão colegiada e funções segregadas são exemplos de governança alemã que funcionariam no Brasil

publicado 02/09/2015 16h01, última modificação 02/09/2015 16h01
São Paulo – Na Alemanha, CEO não decide sozinho e executivos não podem acumular cargo no conselho
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Para Richard Doern, diretor corporativo do Grupo Mater e membro do IBGC (Instituto Brasileiro de Governança Corporativa), o Brasil poderia copiar duas práticas de governança corporativa da Alemanha: as decisões colegiadas na alta gestão e a segregação das funções de conselheiro e administrador nas empresas de capital aberto.

“A pessoa que fiscaliza não pode ser a mesma que será fiscalizada”, disse, referindo-se ao conflito de interesses causado pelo costume recorrente das empresas brasileiras de nomear diretores executivos para o conselho. A principal função de um conselho administrativo é manter o direcionamento estratégico do negócio e supervisionar os atos da diretoria executiva. Que, por sua vez, cuida da gestão diária das atividades da empresa de acordo com o plano estratégico.

Doern participou do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham – São Paulo na quarta-feira (2/9), junto com Luiz Marcatti, conselheiro do Grupo Flytour, Telmo Schoeler, da consultoria Strategos, e Roberto Faldini, co-fundador do IBGC e conselheiro da Vulcabrás. Na Amcham – SP, Faldini é o vice-presidente do comitê estratégico de Governança Corporativa.

Os debatedores abordaram alguns aspectos da visita promovida pelo IBGC à Alemanha, no final de junho. Eles fizeram parte da delegação de conselheiros que foram conhecer as melhores práticas de governança corporativa adotadas pelas companhias de capital aberto da principal economia da Europa. Lá, há cerca de 14 mil empresas de sociedade anônima (têm mais de dois sócios), dos quais 700 são de capital aberto (e captam recursos no mercado de capitais).

Cultura de coletividade

A grande virtude alemã, de acordo com Doern, é a cultura de coletividade. “O voto do CEO tem o mesmo peso dos demais diretores, ao contrário do que acontece nas empresas americanas”, compara. “As decisões empresariais são tomadas em conjunto com todos os diretores, seja o comercial, de marketing, industrial etc.”

Outra diferença marcante assinalada pelo conselheiro é a grande participação dos sindicatos de trabalhadores no conselho de administração. “Os conselheiros indicados pelos trabalhadores têm o mesmo peso e remuneração dos demais. O detalhe é que 95% do dinheiro é destinado ao sindicato, para formação de novos conselheiros”, conta Doern.

Para ilustrar o coletivismo alemão, Telmo Schoeler, da Strategos, disse que há três milhões de empresas na Alemanha, das quais 2,3 milhões são de médio e pequeno porte. “A grande maioria dessas empresas pertence a acionistas da própria família, motivo para a tomada conjunta das decisões”, disse.

Isso explica a gestão “bicameral” de uma empresa alemã, separada entre o conselho de administração e a direção executiva. “A lógica alemã é coletiva e feita no interesse de todos. O acionista é apenas um deles, mas também é preciso abrigar os interesses dos fornecedores, clientes e outros participantes”, segundo Schoeler.

Luiz Marcatti, do Flytour, disse que o modelo alemão privilegia o entendimento e esvazia o conflito entre patrões e empregados. O que não significa que todas as empresas funcionem dessa forma. “De modo geral, a postura é de diálogo, o que deixa a relação menos bélica”.

A lei alemã permite que suas empresas se constituam em outros modelos de negócios, acrescenta Marcatti. “Há empresas onde os presidentes decidem tudo sozinho, mesmo dentro de uma estrutura familiar.”

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