Nestlé reduz custos e aumenta padrão de operações com centro de serviços compartilhados

publicado 25/07/2014 11h58, última modificação 25/07/2014 11h58
São Paulo – Unidade de negócios transacionais permite à empresa focar no core business, diz Deloitte
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Em quatro anos, a Nestlé (https://www.nestle.com.br/site/home.aspx) reduziu em 11,8% seus custos com operações transacionais, na América Latina. O resultado foi conquistado pelo centro de serviços compartilhados (CSC) que funciona em Ribeirão Preto-SP, atendendo às unidades da multinacional em toda a América Latina.

Além do custo, o CSC permitiu aumentar a padronização dos processos, do México à Argentina. “O custo do CSC dentro do custo total da empresa é pequeno, mas o CSC viabiliza um modelo de compliance para todos, com escala em governança, o que evita problemas futuros”, afirma Flavio Lício, gerente financeiro do Nestlé Business Services (NBS Ribeirão Preto).

Ele relatou a experiência durante o comitê aberto de Finanças da Amcham – São Paulo na terça-feira (15/07). Ulisses de Viveiros, sócio da Deloitte (http://www2.deloitte.com/br/pt.html) especializado em CSC, e Alexandre Siciliano Borges, advogado tributarista do escritório Lobo & Rizzo Advogados, também participaram.

O NBS de Ribeirão Preto emprega 450 profissionais em vários turnos, para atender os fusos horários das unidades no restante da América Latina. Entre as atividades concentradas no centro, há os programas de excelência da companhia, RH, mídias sociais, gerência de projetos, controladoria, auditoria e compliance.

Lício diz que a padronização e a otimização dos processos administrativos se deu graças a um programa desenvolvido pela SAP para a Nestlé. O segredo, cita o executivo, é o alinhamento com TI. “Tudo é muito monitorado para ter mais qualidade e menos custo, o tempo todo. A tecnologia permite aumentar a qualidade sem expandir custos”, declara.

Foco na estratégia

Como o CSC visa à melhoria contínua dos processos da instituição, o restante da empresa direciona seus recursos estratégicos para o core business, ressalta Ulisses de Viveiros. Há ainda racionalização no uso dos ativos (imóveis, máquinas e tecnologia) e maior transparência, uma vez que existe a centralização de informações.

O executivo da Deloitte define os CSCs como centros de negócios que prestam serviços para outras unidades ou departamentos da corporação. Eles trabalham com a visão cliente-fornecedor, indicadores de desempenho e acordos de níveis de serviço (SLA, ou Service Level Agreement, em que há um acordo formal entre as partes, deixando claro o serviço, responsabilidades e metas).

Segundo pesquisa da Deloitte com clientes mundiais, 48% dos CSCs ficam sob a responsabilidade do CFO porque geralmente começam com operações financeiras.

E como reúnem atividades padronizadas, podem ser feitas num único local para atender unidades de vários países. “O Brasil continua sendo o destino preferido na América latina para 60% das empresas”, cita.

Os pontos-chaves para definir a localização geográfica do CSC são a disponibilidade, o custo e a qualidade da mão de obra, pontua. “Com boa estrutura tecnológica, se consegue transmitir dados para qualquer lugar”, conclui.

A tendência, comenta Viveiros, é de que as companhias utilizem modelos híbridos, com CSCs próprios e terceirizados.

Tributação

Mas se oferece vantagem de redução de custo, o CSC pode representar risco tributário que, no futuro, pode anular os ganhos financeiros, adverte o advogado tributarista Alexandre Siciliano Borges. O perigo pode estar no modelo fiscal em que o centro está enquadrado: como prestação de serviços ou como rateio de despesas. O primeiro implica em tributação de PIS, Cofins, ISS, entre outros.

“Ao longo do tempo, as empresas queriam o segundo modelo, mas o fisco insistia no primeiro, até pela nomenclatura, que é ‘centro de serviços’”, explica.

A boa notícia é que, em 2013, após vários pedidos de consultas à Receita, cada um com um tipo de resposta sobre o qual modelo usar, a Coordenação do Sistema Tributário (Cosit) emitiu as balizas para adequação dos CSCs.

Para fazer rateio dos serviços, as empresas devem ser de um mesmo grupo ou ter um interesse claro e comum. “Como as lojas de um shopping center que dividem custos com ar condicionado”, exemplifica.

Apenas a atividade meio pode ser rateada e a cobrança final não pode incluir lucro. “Se o gasto foi de R$ 1 mil, tem de ratear os R$ 1 mil”, cita.

O mais importante, segundo Siciliano, é a existência de um contrato que especifique os critérios pelos quais os custos serão rateados. Como o documento vai servir de guia para o fiscal, ele deverá conter essa fórmula.

“Há um critério de rateio mais adequado para cada tipo de despesa. Por exemplo: os gastos de RH podem ser calculados por número de empregados, assim como os de TI podem considerar os usuários”, comenta.

O especialista aconselha revisitar e atualizar o contrato anualmente, para evitar brechas. “São alguns cuidados fáceis para deixar de atrair um risco fiscal muito grande. Isso pode eliminar uma contingência oculta que não está sendo observada”, avalia.

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