Prisão de Eduardo Cunha cria "ansiedade na classe política", diz professor da UnB

publicado 20/10/2016 15h07, última modificação 20/10/2016 15h07
São Paulo – Para David Fleischer, alguns ministros podem ser atingidos por investigações da Lava Jato
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A prisão do ex-deputado federal e ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na quarta-feira (19/10) vai gerar mais "ansiedade na classe política", afirma o cientista político David Fleischer, professor emérito da Universidade de Brasília (UnB). “A incerteza sobre o alcance da Lava Jato e o próximo a ser pego está criando muita ansiedade na classe política. Estão começando a aparecer delações premiadas envolvendo ainda mais o PMDB (partido do governo) e PSDB (aliado)”, conforme o especialista, na segunda reunião do comitê estratégico de CEOs & Chairpersons da Amcham – São Paulo na quinta-feira (20/10). “E o ministério de Temer tem pelo menos 12 ministros vulneráveis a investigações.”

Cunha se tornou réu na Operação Lava Jato por conta de acusações de recebimento de propinas em contas na Suíça e envolvimento em esquema de corrupção na Petrobras. A prisão preventiva decretada na quarta-feira pelo juiz Sérgio Moro, que encabeça os processos da Lava Jato, sob a alegação de que o ex-deputado tem poder para obstruir investigações e intimidar testemunhas.

Um dos alvos da investigação é Wellington Moreira Franco, secretário do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), ressalta o cientista. O ministro foi acusado por um ex-executivo da empreiteira Odebrecht de ter recebido dinheiro para defender interesses da companhia, mas negou envolvimento. “Moreira Franco é um desses alvos e deve haver mais”, segundo Fleischer.

A chance de Cunha negociar uma delação premiada é grande, segundo Fleischer. Se isto acontecer, a cúpula do governo vai ficar exposta às revelações do ex-parlamentar, que chegou a ser uma das principais lideranças do PMDB e teve acesso à cúpula partidária. “Não sabemos quantos do núcleo duro de Temer serão atingidos pela Lava Jato. Há também as consequências da delação de executivos da Odebrecht e de dados de contas bancárias suspeitas enviadas pela Suíça”, detalha Fleischer.

Apesar do aumento da incerteza política, o governo Temer tem conseguido aprovar medidas importantes para reconquistar a confiança dos investidores, avalia o professor. Entre elas, a nova lei do pré-sal, que tira a exclusividade da Petrobras de exploração dos blocos de produção da região marítima, além da limitação dos gastos públicos prevista na PEC 241, aprovada na primeira quinzena de outubro. A medida estabelece que as despesas do governo federal serão congeladas por 20 anos, sendo corrigidas anualmente pela inflação medida pelo IPCA.

Para Fleischer, a reforma trabalhista é a que mais ajudaria a reconquistar a confiança dos investidores no curto prazo. Isso inclui a eliminação ou redução de encargos sociais, férias proporcionais ao tempo de serviço e flexibilização da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas). “A oportunidade para pressionar os políticos a votar a reforma é agora, com o argumento de que ela pode contribuir para combater a recessão. Depois que o país sair da crise, vai ser difícil convencer os políticos a fazer mudanças radicais”, concluiu o especialista.

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