Protestos por melhorias devem continuar, mas precisam de “pavio”, prevê cientista político

publicado 13/09/2013 08h47, última modificação 13/09/2013 08h47
São Paulo – Governo vem combatendo a corrupção e aumentando os investimentos em educação
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“O fantasma dos protestos paira sobre o Brasil de agora até a Copa do Mundo. Mas isto, em si, não é suficiente para prever se de fato vai acontecer. Tem que ter um pavio”, disse Alberto Carlos Almeida, sócio do Instituto Análise, no comitê estratégico de Finanças da Amcham-São Paulo realizado na quinta-feira (12/9).

Almeida exemplificou que o “pavio” das mobilizações de junho foi a violenta resposta policial dada aos manifestantes. “Havia um sentimento generalizado na população de que ela era explorada pelos políticos. Quando a reclamação sobre o aumento das tarifas de ônibus foi duramente reprimida pela polícia, ninguém agüentou mais”, comenta.

De acordo com o cientista político, foram quatro elementos que culminaram nas manifestações de junho. O primeiro foi a existência de movimentos que já protestavam sistematicamente contra o aumento das passagens em várias capitais, como São Paulo, Santa Catarina e Rio de Janeiro.

O segundo fator, a dura repressão policial, foi o divisor de águas e causador direto do terceiro elemento: a mudança no foco de cobertura dos meios de comunicação. A mídia vinha cobrindo as manifestações como sendo de grupos baderneiros, até o momento em que alguns jornalistas foram gravemente feridos pelas balas de borracha disparadas pela tropa de choque da polícia.

“A linha editorial dos principais veículos mudou radicalmente e passou a ser de defesa das pessoas que lutavam por seus direitos”, acrescenta Almeida. O quarto elemento foi a internet, cuja mobilização popular foi potencializada pelo compartilhamento de posts sobre as manifestações nas redes sociais.

Boa parte da pressão popular veio das camadas jovens da nova classe média. Mais instruídos que seus pais, eles carregam uma grande expectativa de ascensão social e estão fazendo com que a sociedade brasileira se torne mais igualitária, na opinião de Almeida. “Muitas reformas pedidas pela população em junho já estavam em andamento. O investimento em escolaridade está acontecendo, por exemplo. E gente estudada tem visão mais igualitária.”

A motivação popular não tem a ver com conscientização política, mas qualidade de vida. Não havia, por exemplo, uma agenda principal de manifestações. “Eles não brigaram por nenhuma lei específica a ser aprovada, a exemplo das Diretas Já (1984). É mais um conjunto de iniciativas cujo resultado virá em médio e longo prazos e que tem a ver com transporte, saúde e bons serviços públicos.”

Para ele, a sociedade brasileira está mudando, “ficando burguesa”, enquanto a classe política ainda se revela “aristocrática” e incapaz de abrir mão de privilégios. O choque será inevitável.

No ano que vem, quando a Copa do Mundo e as eleições presidenciais tomarão forma, a perspectiva é de continuidade. Dilma deve ser reeleita devido à folgada margem de aprovação (58% em agosto, de acordo com a última pesquisa da CNT), segundo Almeida.

As mudanças invisíveis

 O combate à corrupção, bandeira bastante defendida nas manifestações, está sendo realizado pelo governo. A CGU (Controladoria Geral da União) tem demitido servidores públicos corruptos e afastando empresas suspeitas das licitações públicas.

E a atuação do TCU (Tribunal de Contas da União) tem mostrado bons resultados em estados onde são mais atuantes. “Onde ele é mais ativo, a conta de Restos a Pagar (onde normalmente se esconde a corrupção) cai. Não sei se o volume de demissões é muito ou pouco, mas o governo vem combatendo irregularidades”, disse Almeida.

O eleitorado, por sua vez, pune os corruptos nas urnas. “Veja os exemplos do (Orestes) Quércia e (Paulo) Maluf, que tinham capital político para se elegerem presidentes e não o foram, por causa da alta rejeição popular.”

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