Proximidade do jovem é segredo para empresa atrair e reter profissionais da geração Y

por marcel_gugoni — publicado 18/12/2012 12h35, última modificação 18/12/2012 12h35
Marcel Gugoni
São Paulo – Erro das companhias é que, durante processo de seleção, estão mais preocupadas em vender-se do que falar sobre demandas da vaga e possibilidades de carreira.
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Em um mercado de trabalho com mais oportunidades de emprego do que mão-de-obra qualificada disponível, atrair e reter talentos é essencial para manter a competitividade das empresas. No caso da geração Y, a proximidade com os jovens profissionais é principal segredo para as que as companhias consigam mantê-los em seus quadros. É o que ensinam especialistas em gestão de pessoas e recursos humanos.

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Sofia Esteves, presidente da empresa de seleção e recrutamento Cia de Talentos, afirma que a lição parece óbvia, mas muitas empresas não retêm os jovens como deveriam. “O panorama que vimos em 2012 é de um forte crescimento no número de companhias oferecendo posições para jovens e, ao mesmo tempo, um aumento de desistência nos processos seletivos em todas as fases”, diz.

Isso ocorre não só porque os jovens se inscrevem em vários programas ao mesmo tempo (e acabam agarrando uma vaga em detrimento das outras) como também porque as empresas muitas vezes não estão conseguem alinhar a característica vendida pela área de RH para determinada vaga com as reais demandas da posição.

Ismael Rocha Jr., diretor acadêmico da ESPM, afirma que a principal crítica dos jovens é de que as empresas, durante o processo de seleção, estão mais preocupadas em se vender do que falar sobre as demandas da vaga e as possibilidades de carreira. “O jovem vê que as duas coisas não conversam”, aponta. “E, se ele não enxerga o horizonte, se desmotiva.”

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Os dois especialistas participaram do comitê aberto de Gestão de Pessoas da Amcham-São Paulo na última sexta-feira (14/12). O encontro tratou do tema “Os jovens e o mundo corporativo”.

Transparência

Uma pesquisa realizada pela Cia de Talentos e pela ESPM ao longo de 2011 e 2012 mostra que a crítica é mútua. Empresas reclamam do comportamento dos jovens, classificando-os como descomprometidos, arrogantes e com poucos vínculos. Os jovens, por sua vez, se mostram insatisfeitos em relação aos programas oferecidos e cobram clareza das tarefas a serem cumpridas, entre outros aspectos.

Sofia diz que o mercado de trabalho acaba sendo pressionado pela demanda de velocidade e competitividade das empresas. “O mundo está tão corrido que as pessoas não têm tempo para nada, embora se saiba da importância de estar próximo e acompanhar os jovens. Precisamos de gestores de pessoas que saibam ouvir o jovem.”

Pesquisas internacionais que buscaram ouvir as prioridades dos jovens apontaram que o emprego é somente o terceiro da lista, com estudo e família aparecendo à frente. “O estudo é prioridade. Muitos pedem demissão [do estágio ou do trainee] porque não conseguem conciliar carreira e estudo e uma parte nem está procurando estágio”, comenta a executiva.

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A transparência na relação é o diferencial para acabar com o descasamento de valores e de objetivos entre empresas e profissionais. Rocha defende que haja feedback claro para que a organização consiga manter o jovem alinhado à suas necessidades. “É preciso ter processos claros”, reforça.

Isso significa que, mesmo que um programa de trainee demore meses para dar os resultados finais, o jovem espera que a empresa dê ao menos um retorno dizendo que o jovem foi selecionado ou não e por quê. O que acontece é que muitos profissionais em início de carreira enfrentam um sem número de etapas - e acabam sem saber onde erraram ou em que foram bem.

Ambiente

Monica Santos, head de RH para América Latina do Google, afirma que, se uma empresa oferece 30 vagas e há 30 mil inscritos, isso denota algum problema de comunicação na seleção porque muitos perfis nem deveriam fazer parte do processo. “Neste caso, a comunicação está ampla demais”, aponta.

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Para Monica, as empresas devem ser autênticas. O Google é conhecido por ter um ambiente de trabalho descontraído em suas unidades (com mesas de jogos, poltronas de relaxamento e games para os funcionários), mas cobra metas como todas as outras. “Se divertir e trabalhar duro são coisas compatíveis para o Google”, afirma ela.

Os funcionários têm 15% de sua carga horária diária disponível para projetos próprios. Monica pontua que, além de abrir espaço para a inovação, a empresa ainda permite que cada um consiga desenvolver sua própria carreira e empreender – sem sair do Google. Cada inovação é testada e, se for viável, acaba sendo monetizada e lançada no mercado.

A executiva diz que o ambiente divertido tem que ser permissivo. “Não adianta ter mesa de ping-pong na empresa se o chefe passa e julga o funcionário ou se a equipe julga o colega”, ressalta. Mas ela reconhece que isso não serve para todos.

“A geração Y age da mesma maneira que as anteriores, com a mensagem de que as pessoas têm que amar o que fazem e buscar seus sonhos”, reflete. “A diferença hoje é que a tecnologia criou um sentido de urgência e o jovem acaba achando que fazer o operacional é chato. Mas isso faz parte.”

Universidade

O desalinhamento entre a empresa e o jovem também resulta da formação que as escolas oferecem atualmente. Rocha, da ESPM, defende que escola e empresa atuem de forma mais integrada, visando ao benefício do estudante.

Ele cita algumas sugestões, para as companhias ajudarem a escola, como o desenvolvimento de programas de aconselhamento de carreira para que os estudantes tomem decisões coerentes com seus objetivos de vida e a criação de projetos com metodologias de caso que ofereçam aos alunos possibilidade de trabalhar com situações reais do mundo corporativo.

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Por outro lado, a universidade pode apoiar as companhias de modo a que haja maior personalização da comunicação dos processos de estágio e trainee para evitar o briefing padronizado e possibilitar desenhos mais definidos do perfil da vaga, em alinhamento com a estratégia e realidade da empresa. “O estágio deve apresentar um ambiente favorável ao processo de aprendizagem”, diz ele, ressaltando a importância da formação de jovens líderes e da autonomia corporativa.

Ana Cristina Piovan, diretora de RH da DuPont, aponta que é ideal que seja facilitado colocar trabalho e estudo andando juntos. “Às vezes a empresa tem carência de talentos, e há muitos alunos competentes nas escolas que poderiam ajudar. O segredo é casar o interesse da empresa com o dos jovens.”

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