Real valorizado “roubou” quase meio trilhão da economia brasileira, segundo Delfim Netto

publicado 10/03/2016 15h59, última modificação 10/03/2016 15h59
São Paulo – Ajuste fiscal é essencial para retomar credibilidade e investimento, acrescenta ex-ministro
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O câmbio foi o causador da queda da indústria e do PIB brasileiros, nos últimos 20 anos, afirma Delfim Netto. Neste período, o efeito cambial roubou da indústria nacional US$ 470 bilhões, diz o ex-ministro da Fazenda, que analisou os atuais problemas econômicos do país durante a cerimônia de posse de novos conselheiros da Amcham, em São Paulo, quinta-feira (10/03).

Delfim diz que não há nada substancialmente errado com a economia brasileira, que nos últimos 60 anos cresceu a uma média de 4,7% ao ano, desde que se entendam os equívocos cometidos com o câmbio.

Desde o plano real, “uma pequena joia”, segundo o ex-ministro, o que puxou o PIB para baixo foi o crescimento da indústria. O que motivou a queda da produção industrial, de acordo com Delfim, foi a valorização cambial, que tirou a capacidade de exportação do setor.

“A partir de 1986 usa-se o câmbio para controlar a inflação, esse é o desastre. Tem efeitos que ninguém é capaz de prever”, afirmou. “O efeito do câmbio é tão poderoso que ele domina os estímulos dados à indústria. No nosso caso, a demanda da indústria não aumentou porque o câmbio puxou (para cima) a importação”, explica.

O ex-ministro mostrou, para fins de comparação, que a participação do Brasil nas exportações mundiais era de 1,3% em 1984-86, quando as da Índia, Coréia do Sul e China eram, respectivamente, de 0,5%, 1,6% e 1,4%. Nos anos seguintes, o share brasileiro no comércio mundial caiu, enquanto os demais cresceram. Em 2012-14, o nível das exportações brasileiras voltou ao patamar que de 30 anos antes (1,3%), mas o indiano, o coreano e o chinês foram a 1,6%, 3% e 11,7%.

“Usando o mecanismo errado, entregamos o mercado internacional aos concorrentes”, cita.

Delfim ressalta que o crescimento só ocorre por meio de investimento público e exportação. “A única alavanca para crescimento, hoje, é exportação. Não adianta queimar reservas cambiais, porque precisamos de reais, e não de dólares. E assim se derruba o crescimento duplamente, porque desestimula a exportação e parte vai para o próprio governo, que vai investir mal”, complementa.

Os erros recentes, diz o ex-ministro, ocorreram principalmente a partir da reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, quando ela aplicou, segundo o professor, todos os recursos para se manter no poder, com alterações significativas no câmbio e nos juros. “Houve uma desconstrução de tudo o que estava em equilíbrio para Dilma continuar no governo. A relação dívida/PIB cresceu drasticamente”, relata. Para ele, essa relação, que foi de 66,2% em 2015, deve fechar 2016 em 74%.

“Em três anos, a relação dívida/PIB cresceu 21%”, compara. “Você tira a confiabilidade dos processos e a cobra começa a morder o rabo”, compara.

Condições para o crescimento

Para interromper esse ciclo e o país voltar a exportar, o que pode impulsionar o crescimento econômico, o governo precisa efetuar ajustes fiscais, defende Delfim. Ele lista a reforma da previdência social com idade mínima, o enfrentamento do problema das vinculações de gasto, as indexações ao salário mínimo e resolver a questão da livre negociação entre trabalhadores e empresários, sob controle dos sindicatos.

Outros pontos defendidos pelo ex-ministro para estancar a queda de confiança são a reforma do ICMS, a simplificação do PIS/Cofins e orçamento de base zero, além de preservar programas de inclusão social “bem focados e com condicionalidades adequadas”.

“Crescimento e credibilidade são dois lados da mesma moeda”, destaca Delfim, que também enfatiza a necessidade de recuperar o investimento em infraestrutura e logística em leilões bem feitos e de promover a abertura comercial, com apoio às exportações.

 

 

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