Remuneração de médicos é ponto mais frágil da cadeia de saúde, afirmam especialistas

por marcel_gugoni — publicado 24/07/2012 16h28, última modificação 24/07/2012 16h28
São Paulo - Avanços do setor passam pela melhoria do relacionamento de médicos com planos de saúde, hospitais, indústrias farmacêuticas e fabricantes de produtos médico-hospitalares.
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A cadeia de saúde é um painel de extremos: planos de saúde particulares que cobram caro dos clientes por serviços e pelo atendimento em hospitais e consultórios se contrapõem a uma rede pública que é conhecida por filas e no geral mau acompanhamento dos pacientes. De ambos os lados, sofrem os médicos com baixa remuneração e falta de segurança da carreira, afirmam especialistas do setor.

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O tema foi debatido durante o comitê aberto de Saúde da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (24/07). O resumo do encontro é que avanços do setor como um todo passam pela melhoria da própria associação e da parceria estratégica dos médicos com planos de saúde, hospitais, indústrias farmacêuticas e fabricantes de produtos médico-hospitalares, entre outros.

Para Florisval Meinão, presidente da Associação Paulista de Medicina (APM), a remuneração é o ponto fraco do setor, atualmente. “Os planos de saúde cobram caro de seus associados, mas, ao mesmo tempo, remuneram mal seus médicos”, afirma.“Há especialistas que deixam de atender e correr o risco de realizar certas cirurgias pelo baixo valor que as empresas repassam a esses profissionais.”

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Ele exemplifica o caso dizendo que uma operação de otorrinolaringologia – que envolve especialidade de ouvido, nariz, faringe, laringe, cabeça e pescoço – pode render a um cirurgião da área algo em torno de R$ 90, enquanto o atendimento clínico paga R$ 60. “Há muitos que preferem atender dois pacientes a realizar uma cirurgia”, explica. Segundo ele, o reflexo é que “muita gente fugiu do SUS [Sistema Único de Saúde] por causa das filas e agora há planos privados com o mesmo problema”.

Meinão rebate os argumentos de que faltam médicos na rede pública. “São Paulo tem 1,9 médico para cada 1.000 habitantes. Claro que há países em que esse número é maior, mas o que nos falta é uma segurança para a carreira que espalhe esses médicos para áreas com alta demanda e pouca oferta.”

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O médico cita a criação de planos de carreira equivalentes aos da área jurídica, em cuja lógica um médico em início de atividade clinica e opera em hospitais de cidades menores do interior do País antes de atuar em grandes cidades. “Hoje, o que se vê é que as periferias das capitais ficam vazias porque os profissionais preferem trabalhar em áreas centrais, mais seguras e com maior oferta de vagas.”

Rede de atendimento

Ruy Geraldo Bevilacqua, diretor médico corporativo da Rede D’Or, afirma que o próprio papel do médico é agora diferente do que era no passado. A figura do médico de família, com autonomia e poder de decidir o melhor para cada um de seus pacientes, deu lugar à imagem de um profissional que depende de autorizações e modos de conduta dos convênios para aprovar cirurgias e receitar medicamentos.

“Há uma complexa rede com um equilíbrio instável em que um depende do outro. Não temos mais só médicos, mas enfermeiros, farmacêuticos, terapeutas e até o administrador do hospital, por exemplo, determinando a qualidade daquele atendimento”, conta. Para ele, a profissão precisa acabar com essa total autonomia para integrar mais as equipes e as empresas.

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Segundo ele, o setor precisa prezar o foco no paciente, mas sem perder a noção de como funciona a economia da saúde. “O médico que atrasa uma cirurgia não só complica o doente como ocupa uma sala do hospital e está desgastando esse recurso”, reforça. “Mas não dá para deixar de lado a lógica da assistência, que é dar toda a atenção ao paciente.”

Durante a palestra, Meinão e Bevilacqua concordaram que integrar processos e sistemas de atendimento na cadeia de saúde pode ser uma saída para elevar a qualidade do atendimento e dos serviços prestados – independentemente de a rede ser pública ou privada.

Código de conduta

Uma forma de enfrentar esse sistema vem não dos hospitais, mas da indústria farmacêutica. A Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), que congrega 43 empresas que detêm mais de 60% do mercado, reuniu equipes jurídicas à sua área de administração e seu corpo médico para desenvolver um código de conduta.

Ronaldo Pires, diretor jurídico da Interfarma, explica que o debate começou em 2006 a partir da necessidade de agregar modelos de auditoria e compliance à indústria farmacêutica. O objetivo era trazer transparência e ética às relações entre a rede de saúde e as fabricantes e pesquisadoras de insumos, matérias primas, medicamentos e correlatos.

Citando que a indústria farmacêutica sofre de uma desconfiança semelhante à vista contra companhias do setor de armas e de cigarros, ele afirma que o essencial era “investir na imagem de que as nossas empresas estão lá para ajudar a cadeia de saúde e contribuir com a melhora no relacionamento entre médicos e pacientes”.

O código de conduta foi lançado em 2008 e revisado anualmente desde então, para poder abarcar as transformações deste segmento tão dinâmico da economia. “O código é rigoroso e se pauta pela definição de cuidados éticos, obrigações e proibições”, explica.

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Entre as medidas reguladas estão, por exemplo, a proibição de pagamento de comissão para que médicos indiquem certos produtos em detrimento de outros ou o veto ao patrocínio de congressos médicos por indústrias farmacêuticas, entre outros temas espalhados em 18 seções de regras e procedimentos. “A mensagem é de que há disposição para fazer direito e cumprir regras”.

Para os médicos, há o reconhecimento de que a definição de procedimentos éticos ajuda a melhorar o setor. Segundo ele, há casos de médicos que complementam renda com comissão de certos fornecedores de insumos. “Isso é preocupante, mas é resultado da remuneração baixa”, conclui Bevilacqua.

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