Só com um megafone, na selva amazônica, diante de 1.500 operários em greve

publicado 27/09/2013 11h02, última modificação 27/09/2013 11h02
Brasília – Foi assim que o CEO Marcelo Miranda teve uma aula intensiva de negociação antes de assumir a Precon Engenharia
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“A gente tem que descobrir um caminho para a realização pessoal e para contribuir para a empresa, para a sociedade e para o planeta”. Foi com essa idéia na cabeça que Marcelo Miranda, CEO da Precon Engenharia, largou uma carreira bem sucedida no mercado financeiro e partiu para um projeto completamente diferente: estudar empreendedorismo em Stanford no Vale do Silício, com mulher, e sem um centavo no bolso. Depois para a Amazônia e agora para uma construtora campeã em sustentabilidade.

Miranda dividiu sua experiência com os participantes do CEO Fórum de Brasília, realizado pela Amcham em 24/9. “Mas a gente gosta docê”, lembra ele, com sotaque mineiro da argumentação da antiga empresa para tentar dissuadi-lo. Marcelo preferiu seguir o caminho do coração. Na Califórnia, pegou um empréstimo a longo prazo, foi para a residência universitária e deixou o filho aos cuidados das famílias dos outros estudantes internacionais que lá estavam. Recebeu muitas lições de empreendedorismo, de gente que seguiu suas ideias e concretizou sonhos.

Quando voltou para o Brasil teve 14 propostas de emprego. Algumas financeiramente muito atrativas. Mas voltou a escolher algo que lhe parecia mais desafiador. Se aliar a um pedreiro, que mal sabia fazer contas e criou uma construtora de casas em módulos, o que torna o processo mais rápido, barato e sustentável.

Foi essa empresa que o levou para Amazônia e para a capa da revista Você S/A como CEO revelação. O método dos módulos ganhou a licitação para construção das casas dos 1.500 operários que trabalhariam numa  das usinas hidrelétricas do Rio Madeira, em Rondônia. E para lá que Marcelo Miranda foi. E aprendeu o que significa a sigla TBC, como explicou para tirar gargalhadas da plateia do Fórum (TBC= tirar a bunda da cadeira).

 Negociação dramática

Marcelo contou que o local da construção ficava a 180 quilômetros de Porto Velho e era floresta fechada quando ele chegou. Os operários ficavam 90 dias sem sair do canteiro de obras e o ambiente era tenso. Não era raro o dia de ocorrer mortes por causa de brigas entre os trabalhadores.

Com a construção das residências adiantadas,  numa manhã quente como era de costume, a direção da obra se reuniu no barracão que abrigava o escritório central. Uma pedra quebrou a vidraça e por pouco não atingiu o jovem CEO, que tinha 30 anos na época. Depois mais uma pedra e engenheiros e diretores resolveram sair para ver o que estava acontecendo.

Mil e quinhentos operários de braços cruzados, muitos com facões, reunidos no pátio em frente ao escritório pediam 100 por cento de aumento salarial. O primeiro impulso de Marcelo foi ligar para Porto Velho e chamar a polícia, algo que já tinha acontecido outras vezes por incidentes menores.

A polícia mandou 12 carros com homens fortemente armados. Em poucos minutos estavam estacionados na porta principal da obra, esperando um pedido para entrar em ação. Marcelo pensou: “se mandar esses caras entrarem vai ser um massacre”. E resolveu sair do escritório com dois seguranças, uma megafone e um telefone na mão, para negociar com a multidão.

Subiu na pá de uma escavadeira e logo os seguranças desapareceram de seu lado. No alto, virava um alvo fácil para quem quisesse atingi-lo. Mas começou o diálogo pelo megafone. “Se a polícia entrasse seria pior para todos, ele incluído”, argumentou. Ouviu as reivindicações, conversou com a Delegacia do Trabalho pelo  telefone. “Foram os momentos mais tensos da minha vida e onde tiver que aprender muito rápido como negociar”, recordou.

Como resultado, levou uma representação de 15 homens para a Delegacia Regional do Trabalho para negociar um acordo. No fim das contas, a empresa deu 2% de aumento. “Os operários ficaram tão satisfeitos que virei a figura mais popular do canteiro de obras, todo mundo me dava tapinha nas costas”, contou.

Precon e sustentabilidade

Depois de uma batismo de fogo e floresta como este, o próximo desafio de Marcelo foi na construção civil urbana. Como ele contou, o setor é reponsável por 12% do PIB mas produz 40% do lixo das cidades. Uma construção produz em média 150 kilos de lixo por metro quadrado construído no Brasil.

A Precon ganhou vários prêmios de sustentabilidade. Entre eles o Prêmio Eco, da Amcham, porque conseguiu reduzir para 28 quilos, a média de lixo por metro quadrado construído e sua meta é chegar a 15 quilos em curto prazo. “A gente tem que fazer algo pelo país,  por este planeta” comentou no CEO Fórum. E mostrou uma fila imaginária de caçambas carregadas de lixo da construção do programa Minha Casa Minha Vida. “Elas iriam de São Paulo até o Canadá”, surpreendeu-se. Um exemplo claro do prejuízo ao meio ambiente pela construção civil no país.

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