Superar machismo, idade e o “não dá” são desafios para os líderes

publicado 31/10/2013 16h48, última modificação 31/10/2013 16h48
Campinas - Chieko Aoki (Blue Tree Hotels), Rodrigo Kede (IBM) e Clóvis de Barros falaram para Teatro lotado
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Mais de mil empresários e executivos lotaram o Teatro de Paulínia, na manhã de quarta-feira (30/10), para ouvir os depoimentos de Rodrigo Kede (CEO da IBM) e Chieko Aoki (CEO do Blue Tree Hotels), na 12ª edição do CEO Fórum de Campinas,  que também contou com o filósofo Clóvis de Barros Filho, professor da USP (Universidade de São Paulo) e consultor em Ética da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura).

Chieko ressaltou o desafio de superar os preconceitos da sociedade machista, onde foi criada: “até as roupas das mulheres eram lavadas em locais separadas, as mulheres comiam o que era rejeitado pelos homens”, lembrou.  Rodrigo contou que logo que virou chefe, com poucomais de 20 anos, lhe deram a área mais problemática, mas ele gostou. “Todos estavam prestando atenção e dali que surgiriam os melhores resultados”.

Na terceira palestra, Clóvis de Barros deu um show ao tratar de Ética. Ilustrou e divertiu o auditório contando como a Ética é definida de maneiras diversas ao longo da história. Participar ativamente da construção da Ética de uma sociedade, segundo ele, é uma tarefa essencial para o aperfeiçoamento comum. Algo que depende de cada um de nós. “Meus princípios, anuncio-os com ênfase: exemplo, energia e palavrão”.  E ele usa e abusa de diversos “palavrões”  para conquistar o público para o sério tema da Ética.

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 Liderar é arriscado

A abertura do Fórum ficou a cargo do CEO da IBM no Brasil. Para Rodrigo Kede, liderar implica em tomar decisões arriscadas. Ele conta que uma das primeiras decisões arriscadas que tomou foi trocar a área financeira em que atuava há cinco anos, pelo comando de uma divisão de serviços da própria IBM. “Conforto e crescimento não coexistem. Você não se desenvolve se não sair da zona de conforto e nem aceitar fazer coisas diferentes”, afirma o executivo de 41 anos.

Sua trajetória profissional é marcada pela busca de desafios, como contou no CEO Fórum de Campinas. Quando assumiu sua primeira posição gerencial, Kede conta que era o mais jovem dos executivos recém promovidos de seu departamento, e recebeu a incumbência de comandar uma área deficitária – exatamente a que teria escolhido, se tivesse sido consultado.

“Meu (pensamento) racional é que essa área é a que vai receber a atenção de todos e onde há uma transformação a ser feita”, conta ele. Foi uma decisão que ele próprio considerou arriscada, mas necessária ao seu crescimento profissional. “Para aprender é preciso correr alguns riscos. Quem não fica com frio no estômago não está aprendendo.”

Trabalhando em uma empresa com mais de 20 mil funcionários no Brasil, Kede disse ter aprendido que, para liderar, é preciso convencer e influenciar. “O líder não é aquele que decide pelos outros aquilo que tem que ser feito. Isso pode funcionar em curto prazo, mas com certeza não no futuro e nem em uma organização grande como a IBM. A única forma (de liderar) é influenciar e convencer sobre qual direção a seguir”, comenta ele.

5 tendências para o futuro

Kede também apresentou cinco tendências tecnológicas para o futuro, que “vão mudar a forma como vivemos, interagimos e nos relacionamos com pessoas, empresas e sociedade”. Entre as apontadas – mobilidade, cloud, social business, big data e cognição –, a mais influente tende a ser a última.

A computação cognitiva é formada por sistemas computacionais capazes de aprender sozinho e simular o comportamento do cérebro humano. “Estamos testando um sistema modificado para fazer diagnóstico de câncer e determinar seu tratamento. Ele tem capacidade de ler e entender a fala humana, acessar base de dados, cruzar informações e fazer associações que o cérebro não consegue”, explica Kede.

Nos próximos anos, essa tecnologia será usada para personalizar o atendimento. “Daqui a uns sete anos, o cliente vai ligar para o call center das empresas para reclamar da TV a cabo ou o telefone, e falar com uma maquina. A tecnologia já existe e vai reconhecer o cliente por biometria de voz, para dar a resposta mais precisa”, destaca Kede.

A liderança feminina de Chieko Aoki

Uma das empresárias mais bem sucedidas do Brasil, a filha de japoneses Chieko Aoki, CEO da rede hoteleira Blue Tree, conta que um de seus primeiros desafios foi superar a barreira cultural que diferencia o tratamento entre homens e mulheres. “Na cultura japonesa, a mulher é criada para dar suporte ao homem”, revela.

O primeiro cargo gerencial de Chieko chegou durante uma época onde não era comum ver mulheres no comando, mas com sabedoria e aos poucos, foi se impondo. Hoje, Chieko é considerada uma das executivas mais influentes do Brasil. “Minha liderança foi um histórico de superação de desafios”, afirma.

À medida que derrubava obstáculos culturais e profissionais, tomava gosto pela coisa. Para ela, é importante ter espírito crítico e aberto para as mudanças. Esse estilo de procurar e superar desafios é transmitido às suas equipes. “Gosto de dar desafio difícil. Crescemos 25% em 2012 e queremos mais 30% esse ano. Dar desafio medíocre não faz as pessoas crescerem”, ressalta Chieko.

Para ela, os líderes mais bem sucedidos são os que escutam as equipes e mostram como fazer através do exemplo. Muito parecido com o estilo feminino de comandar, opina ela. “A liderança feminina é mais de compartilhar, ouvir, trazer junto. É difícil, mas é a liderança que hoje é requerida.”

Ética: é preciso participar da combinação

O professor Clóvis de Barros,  da USP (Universidade de São Paulo) encerrou o evento, despertando risos ao mesmo tempo que explicava seu entendimento de Ética:  “A ética é mais uma janela para o futuro, do que um respeito mecânico às decisões do passado. Sua discussão reflete disposição para o novo”, definiu o filósofo Clóvis de Barros, professor da USP (Universidade de São Paulo) e consultor da Unesco.

Como exemplo, Barros cita a proibição do fumo em lugares fechados. “De dez anos para cá, se proibiu o fumo em ambientes internos. Isso foi fruto de reuniões, debates e manifestações que comprovaram que não fumar nesses ambientes seria melhor para todos.” Para ele, “não basta respeitar o que foi combinado, tem que participar da combinação”.

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