Trabalho chato? Abandone a “muleta” do comodismo e pense diferente, defende Jéssica Paula

publicado 10/12/2018 14h56, última modificação 10/12/2018 15h25
São Paulo – Com paralisia na perna, jornalista viajou mais de 80 mil km e conheceu 26 países
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A jornalista e empreendedora Jéssica Paula é deficiente física desde os 6 anos de idade. Mas como ela mesma comprova, sua limitação para andar não a impediu de viajar sozinha a 26 países e percorrer mais de 83 mil quilômetros fotografando e conhecendo outras realidades. O que ela fez foi seguir em frente adaptando-se aos recursos disponíveis e abandonando as “muletas” da zona de conforto.

“Qual é a sua muleta? Qual é a desculpa que você usa para não fazer aquilo que gostaria, para não seguir algum objetivo ou sonho?”, provoca, no Be Inspired da Amcham-São Paulo na quarta-feira (5/12). As “muletas” a que Paula se refere são as justificativas para não fazer algo. “Quando a gente se prende a desculpas, cai no perigo da zona de conforto. É nesse lugar que olhamos para o que não temos, ao invés do contrário”, explica.

Não há “muleta” que impeça as pessoas de realizar sonhos, atesta. “Há muitas reclamações nas empresas. Não é porque você não recebe o salário que acredita que merece, que não vai fazer o seu melhor. Ou porque não tem o melhor equipamento, que você não vai se superar. Lute para melhorar as condições. É disso que se trata a resiliência, a adaptação.”

Paula teve que se adaptar a uma realidade limitante muito cedo. Para voltar a andar de bicicleta, o que fazia antes de sofrer a paralisia, teve que refletir sobre como fazer. Foi então que pediu à mãe que colocasse as rodinhas de volta para compensar o equilíbrio perdido.

“Beleza, mas como vou impulsionar o pedal? Pedi para ela pegar um tênis, amarrar o cadarço no meu pé enrolando no pedal e, com um braço, impulsionava a perna. O outro usava para direcionar o guidão”, relata.

Esse foi um dos primeiros casos de adaptação que a jornalista realizou. E mostrou a ela que podia fazer coisas usando outros recursos. “Quando você muda a pergunta, muda o direcionamento. Começa a questionar mais. E quando questionamos, começamos a entender e pensar de forma diferente”, comenta.

De acordo com ela, um novo jeito de fazer as coisas é parar de reclamar por não ter algo que gostaria, e pensar nos recursos que se tem para a tarefa. “Preciso inovar todos os dias para fazer algo que as pessoas fazem normalmente, sem pensar.”

Superando limites

Quando criança, Paula teve uma febre seguida da perda de movimento nas pernas. A causa era uma infecção de garganta que migrou para a medula e afetou permanentemente a sua locomoção. Foi assim que se tornou deficiente física.

Mesmo vencendo inúmeros desafios ao longo da vida, Paula confessa ter medo de muitas situações e ainda sofre com o bullying das pessoas. Uma das formas de superar o medo foi conhecer realidades e culturas diferentes, inclusive em países de alto risco para turistas.

Foi o caso do Sudão, flagelado por conflitos militares e terrorismo. De lá, Paula foi até à região do Nilo Azul, onde estrangeiros são terminantemente proibidos. “É um estado onde a ONU, os Médicos Sem Fronteiras e a Cruz Vermelha têm dificuldade de entrar”, explica.

Contornando dificuldades, conseguiu se hospedar por um dia na região e fotografou cenas da vida cotidiana antes de ser expulsa pelas autoridades. Provavelmente são os primeiros registros conhecidos do Nilo Azul, segundo a jornalista.

As imagens foram publicadas em um livro e fazem parte do projeto de Paula de relatar e dar visibilidade a comunidades atingidas pela miséria e conflitos. “Contar histórias é um bom caminho de mudar vidas. Acredito que é possível mudar o mundo. Se não puder, conto sobre isso.”