Três "mitos" dificultam abertura de capital na bolsa, segundo executiva da B3

publicado 22/05/2017 14h39, última modificação 22/05/2017 15h22
São Paulo – Edna Holanda contesta ideia que IPO é caro, tira poder do dono e revela dados estratégicos
Edna Holanda

Edna Holanda(B3): acessar o mercado de capitais tem que ser feito gradualmente

O motivo de as empresas brasileiras não abrirem capital na bolsa, mesmo reunindo condições, é porque acham a operação cara, terão que dividir o comando com os investidores e abrir dados estratégicos para o mercado. Os três fatores citados por Edna Holanda, superintendente de prospecção de empresas da B3, são “mitos” que ela tenta derrubar sempre que visita as empresas para convencê-las das vantagens de captar dinheiro por meio da bolsa de valores. A B3 é a empresa resultante da fusão entre BM&FBovespa e Cetip, ocorrida em 30/3.

“Um grande mito é o de que acessar a bolsa é caro, mas ninguém sabe o quanto realmente custa. Outro é a divisão de poder, onde o dono quer tomar as decisões sozinho e sem contestações. Quanto a abrir informações para os concorrentes, eles já sabem”, argumenta Holanda, no comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham – São Paulo na quarta-feira (3/5).

Veja abaixo o que Holanda comentou sobre os mitos da bolsa:

1. Custo

Quando os empresários reclamam que os custos de ir a mercado são altos, Holanda explica que muitos deles nem fazem parte do IPO (sigla em inglês para oferta pública inicial de ações). “Eles imputam custos de auditoria em uma abertura. Mas eles não são inerentes a essa etapa, e sim ao processo de crescimento.”

Os custos de abertura de capital para empresas de médio porte são o de listagem, anuidade paga à B3 e do próprio IPO. Para ofertas abaixo de 500 milhões de reais, o custo médio é de 5,5% do total. Acima desse valor, a taxa média cai para 4,1%. “É claro que por trás de um IPO há várias decisões, mas a taxa da oferta não é um custo inibitivo”, opina Holanda.

Outros custos, como a taxa da CVM (Comissão de Valores Mobiliários), é de 11 mil reais para empresas com faturamento até 141 milhões de reais. “Também não é um custo inibitivo”, segundo a executiva. No segmento Bovespa Mais, onde são listadas as empresas de médio porte na bolsa de valores, a listagem é isenta.

2. Controle

No Brasil, a cultura empresarial é de empresas de controle fechado e concentrado nas mãos dos fundadores. “Aqui, ninguém quer ter sócio. O dono quer passar o negócio para o filho, que pode não estar preparado ou interessado na sucessão”, detalha Holanda. Ela explica que o controlador pode negociar 49% da sociedade e ficar com os 51% restantes, concentrando ainda o poder de decisão.

A resistência aumenta quando o controlador é idoso. “Nada contra a idade, mas um empresário de 70 anos decide tudo sozinho. Ele criou a empresa e não consegue desapegar”, acrescenta a superintendente. Quando a segunda geração está no comando, o diálogo flui melhor. “Ele sabe que é preciso considerar questões mercadológicas e concorrenciais, então a conversa é diferente.”

3. Transparência

A obrigatoriedade das companhias abertas de divulgar informações não é bem recebida por alguns empresários, que preferem manter o sigilo. Mas Holanda rebate a crença, dizendo que o mercado troca informações entre si. “Todos sabem, independente de a informação ser pública ou não. Se eu sei quem são meus concorrentes, quanto eles faturam e qual a margem, você acha que eles também não sabem como a minha empresa trabalha?”, indaga.

Além disso, adotar práticas como auditoria de demonstrações financeiras trazem benefícios. “Um balanço auditado aumenta a nota de crédito, o que torna uma operação de financiamento mais barata. E geralmente custa menos do que os juros de empréstimos bancários”, argumenta.

Outra vantagem de compartilhar informações com públicos estratégicos é o engajamento ao negócio. “Donos que não revelam os números da empresa aos funcionários, com medo de eles pedirem aumento, estão perdendo oportunidade de mostrar a eles como ganhar dinheiro para o negócio”, segundo Holanda.

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