Aos 70 e prestes a lançar mais uma startup, Ivan Moura avisa: inovação não é conversa de prateleira

publicado 24/10/2013 15h36, última modificação 24/10/2013 15h36
Belo Horizonte – Professor da UFMG já fundou startups de sucesso, compradas por Google e UOL
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O barato do mineiro Ivan Moura Campos é inovar. Não que ele se concentre apenas em achar a pólvora, para usar um antigo ditado do interior. A inovação, para ele, é estudar com inquietação toda a cadeia que pode envolver aquilo em que é especialista.

A história dele mostra essa expertise. PhD em Ciência da Computação pela Universidade da Califórnia (EUA), Moura foi chefe do departamento da mesma área, na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), da qual também foi pró-reitor para pós-graduação.

Também trabalhou em esferas governamentais, em cargos como Secretário de Política de Informática do Ministério da Ciência e Tecnologia, entre outros. Em 1999, fundou a Miner Technology, uma comparadora de preços vendida em seguida para o UOL. Depois, com mais cinco sócios, fez a Akwan, que virou a base tecnológica do Google no Brasil, após sua venda, em 2005.

Agora, prestes a completar 70 anos, Moura prepara o lançamento de mais uma startup, a Zahpee, que faz data mining em tempo real a partir de mídias sociais. Ele falou com o portal da Amcham antes de se apresentar no comitê de Inovação da regional de Belo Horizonte, quarta-feira (16/10), ao lado de jovens empreendedores do San Pedro Valley, região da capital mineira que concentra startups. No encontro, eles abordaram por que o ecossistema colaborativo pode favorecer a inovação.

Inédita

“Essa nova empresa vai fazer mais sucesso que as outras. É outro nível, a gente é mais experiente e a ferramenta é mais adulta, tecnologicamente. É big data para cliente grande, como Vale e InBev”, revela.

Segundo Moura, a Zahpee usa algoritmos originais, capazes de leituras quantitativas e qualitativas e de até apresentar análises subjetivas. Algo que não tem no mundo, diz ele.

O professor é fundador com mais oito sócios, sete deles com menos de 26 anos. “Os pais de dois desses ‘meninos’ foram meus alunos”, conta.

Os rapazes o procuraram há três anos, numa festa. “Nós queríamos ter uma reunião com ‘ocê’”, relata, no melhor estilo mineirês. Os jovens queriam aprender a empreender. Moura conversou com eles durante toda uma tarde. Um mês depois, surgiu a ideia da Zapeeh com outra sócia, Rachel Horta, 40 anos, que já atuava na área, e se tornou a CEO da empresa. O grupo conseguiu investimento da FIR Capital, fundo baseado em Belo Horizonte.

Fora da prateleira

O barato de Moura é inovar, confirma o professor. “É uma cachaça, sabe?”, cita. Não é por dinheiro, apesar de ele existir como consequência.

Mas antes de explicar o porquê de seu interesse, faz ressalvas quanto ao hype que se formou em torno da palavra “inovação”. “Até o Ministério de Ciência e Tecnologia botou o Inovação no nome, o que é uma bobagem. Inovação por inovação é conversa de pesquisa de prateleira”, comenta.

Inovação, segundo Moura, é consequência de um trabalho científico ou tecnológico de qualidade, não é nem deve ser um objetivo em si. “É raro ter uma inovação disruptiva, como o Google. Normalmente inovação é cumulativa, acontece com o próprio processo e é importante que seja assim. Se você cria algo de valor, normalmente há inovação envolvida”, define.

Diz que houve certa sorte, no seu caso, pelo desenvolvimento global do mercado de TI, em que o marketplace é a web. “O padrão de medida é um só: ou você é bom, de classe mundial, ou não é. É o cérebro que manda”, destaca.

O pulo do gato é a aplicação, defende. O exemplo é o dele mesmo: o que ele gosta de fazer é lidar com tecnologia, sua especialidade. “Tenho estudado muito, a vida inteira. E, principalmente nos últimos dez anos, [estudei] cadeias produtivas. É impossível encontrar algo que faça diferença sem estudar a cadeia em que está inserido”, comenta.

O fundamental é não ficar apenas no conhecimento básico, mas estudar tudo o que se refere a ele. “Tem de mergulhar para entender a cadeia. Estudar, fazer, errar e corrigir”, finaliza.

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