Cresce no Brasil senso de urgência em inovação para enfrentamento de países concorrentes

por daniela publicado 19/05/2011 18h04, última modificação 19/05/2011 18h04
Daniela Rocha
São Paulo - Empresariado, governo e meio acadêmico discutiram soluções para tornar os negócios mais competitivos e sustentáveis no País durante seminário da Amcham em parceria com a Fundação Dom Cabral, em São Paulo.
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O Brasil vive uma fase em que estão mais aguçadas as percepções de iniciativa privada, governo e meio acadêmico de que é preciso avançar em inovação com urgência para enfrentar em melhores condições países concorrentes, em especial a China.

São imensas as potencialidades a serem exploradas perante a ascensão de classes no País, as descobertas do pré-sal, a atuação de vanguarda na área dos biocombustíveis e os eventos esportivos da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016, entre outras. Porém, o País tem o desafio de construir rapidamente uma plataforma mais eficiente para transformar ideias em fins produtivos para não colocar em risco essa fase promissora.

Essa visão foi compartilhada pelos especialistas que participaram nesta quinta-feira (19/05) da  terceira edição do Seminário Rumos da Inovação no Contexto Empresarial Brasileiro, promovido pela Amcham em parceria com a Fundação Dom Cabral na Amcham-São Paulo. O evento reuniu um público de mais de 300 executivos.

“O Brasil está vivendo um momento ‘doce’ de sua história. Não é mais o País do futuro porque o futuro é agora, são muitas as oportunidades. O problema é que outros países também estão em uma fase ‘doce’ e atuando de forma rápida e agressiva no que diz respeito à inovação. Por isso, é preciso discutir no Brasil uma plataforma ampla de inovação”, afirmou Soumitra Dutta, cofundador e diretor acadêmico do eLab, centro de excelência em geração de valor da Insead, escola de negócios com campi na França, em Singapura e Abu Dhabi, além de um centro de pesquisas em Israel.

“A inovação é um tema que ganha maior ênfase no País, uma questão de sobrevivência da nossa capacidade industrial e de serviços. É um grande desafio para as empresas que operam no Brasil lidar com os chineses, que agora chegam com produtos de altíssima qualidade. A concorrência, principalmente os asiáticos, tem atuado com muita eficiência e inovação”, completou Carlos Arruda, professor da Fundação Dom Cabral.

Arruda lembrou que o Brasil retrocedeu em 2010 seis posições em relação ao ano anterior no ranking de competitividade elaborado pelo Instituto Internacional para o Desenvolvimento da Administração (IMD), com sede na Suíça, passando a ocupar a 44ª posição entre 59 nações analisadas. O País só não perdeu mais posições do que a Grécia e a África do Sul. “Estamos perdendo participação em produção de maior valor agregado”, destacou.


Apesar dessa situação, o professor reconhece que atualmente há esforços das companhias, universidades, centros de pesquisa e do governo Dilma Rousseff, com trabalho desenvolvido pelos ministérios e agentes de fomento, para ampliarem a cooperação e tornarem o ambiente mais favorável à inovação.

Brasil X Bric

Ao estudar a inovação nos quatro países do Bric - Brasil, Rússia, Índia e China -, Soumitra Dutta afirmou que a China hoje está em posição de destaque porque o governo tem sido o grande líder da transformação, impulsionando setores promissores.

“O governo dissemina a ambição de que a China se tornará a primeira grande potência global, superando os Estados Unidos. Ele seleciona os setores-chave com grande potencial para conceder incentivos”, afirmou. Entre esses segmentos, o professor destacou os trens de alta velocidade chineses, que são os mais rápidos do mundo, utilizando trilhos tradicionais. O país tem ocupado grande espaço na Europa e nos Estados Unidos com as exportações desses veículos.

Já na Índia, na análise de Dutta, a inovação é encabeçada pela iniciativa privada e a atuação do governo é tímida e ineficaz. Há uma onda de jovens empreendedores, que tomam como exemplo bilionários do milênio”, disse ele, referindo-se sobretudo aos empreendedores de sucesso na área de tecnologia da informação.


Para Dutta, o Brasil teria muito a ganhar se fizesse a conjugação das fórmulas da China e da Índia, ou seja, trabalhar no aprimoramento das políticas públicas e, ao mesmo tempo, a liberdade empreendedora.
Quanto à Rússia, Soumitra afirmou que, dentre os Brics, é onde a inovação é menos focada e a economia está muito centrada em commodities.

Conexões

Eduardo Wanick, presidente e CEO da DuPont para América Latina e presidente do Conselho de Administração da Amcham, ressaltou que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro representa 3% da economia mundial, mas o País detém somente 0,1% das patentes globalmente. Já os Estados Unidos, líderes em inovação, são responsáveis por 20% da economia mundial e 19% das patentes totais.

Para Wanick, o descompasso no Brasil não é essencialmente resultado de deficiência de ações de governo, mas da própria comunidade de negócios, que não se apropria como deveria do conhecimento produzido. O Brasil conta com 2,8% dos papers científicos globais, mas um pequeno índice se transforma em patentes. “Lembro que, nos EUA, 90% das patentes são emitidas por corporações. Aqui, as companhias ainda têm de saber fazer uso da contribuição científica, fazer a conexão com as necessidades da sociedade”, frisou.

Wanick disse que políticas públicas podem, contudo, ajudar no engajamento das companhias com questões prioritárias do País; na maior ligação das empresas com o meio acadêmico visando aperfeiçoamento da educação e de pesquisas; e no suporte financeiro aos projetos de pesquisa de produtos e serviços, em estágios iniciais ainda de incerteza, quando é mais difícil fazer captações de recursos.

“É necessário criar uma cultura de inovação consistente. O Brasil tem DNA (condições) para se tornar uma das economias mais fortes do mundo”, também enfatizou João Geraldo Ferreira, presidente e CEO da General Electric do Brasil. As empresas precisam ter a consciência de que devem buscar cooperação e parcerias com seus stakeholders na busca de novas soluções. Os processos de inovação não devem ser somente internos, disse Ferreira.

“Um ambiente encorajador para inovar se faz com comunicação. É preciso interagir, compartilhar os conhecimentos internos e externos”, ponderou Pedro Suarez, presidente da Dow América Latina.

Esse conceito de inovação aberta também foi defendido pelo diretor de Pesquisa e Inovação do Grupo O Boticário, Israel Feferman, e pelo professor Soumitra Dutta, que avaliaram que ainda não é devidamente apropriado pelas companhias no Pais.

“Antigamente, havia os inovadores que eram cientistas, PhDs com seus jalecos brancos nos laboratórios. Hoje, a inovação é popular, qualquer indivíduo pode dar a sua contribuição”, comentou Dutta.


Os participantes do seminário da Amcham reconheceram que ainda vigora em grande parte das empresas o desconhecimento sobre as linhas de incentivos governamentais que são oferecidas e a falta de adaptação de processos organizacionais para melhor aproveitá-los. O Grupo Fleury, de análises clínicas e exames laboratoriais, reestruturou toda a sua área de P&D visando aproveitar benefícios fiscais existentes, um exemplo da importância de se reverter esse quadro.

“As companhias reclamam que não existem políticas de incentivo à inovação por parte do governo. No Fleury, desde o momento em que reestruturamos nossa área de P&D de acordo com os requisitos da Finep, conseguimos aumentar nossa captação via Lei do Bem”, disse Rendrik Franco, diretor de inovação do Fleury.

 Ações de governo

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) pretende anunciar até o final de maio a Política de Desenvolvimento da Competitividade (PDC), que substituirá a até então chamada Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP), destacou Mauro Borges, presidente da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industria (ABDI), autarquia ligada ao ministério.

De acordo com ele, a ideia é que, com a PDC, a abordagem em relação ao pipeline (processo) da inovação seja alterada, com adapção da legislação de incentivo baseada nas necessidades atuais das organizações. “As políticas de inovação terão as empresas como atores centrais e não os cientistas”, disse.

Para elaborar a PDC, o MDIC realizou sondagens e verificou que, das 1400 companhias genuinamente inovadoras, apenas 400 tinham acesso aos incentivos diretos do governo. Ao preencher as carências no suporte dessas empresas líderes, o governo espera puxar as demais, que fazem parte de suas cadeias produtivas.

Outra iniciativa do governo em curso é mudar o status da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) de órgão para banco público, afirmou Ada Cristina Vianna Gonçalves, secretária técnica da Finep. Segundo ela, a mudança será feita em um período de três anos a partir de uma articulação com o Banco Central, com o objetivo de ampliar a capitalização, ou seja o crédito aos projetos de inovação e a instituições de pesquisa.

 

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