Não existe criar sem dialogar, segundo Marcelo Tas. Conheça o seu roteiro de inovação #AmchamSPARK

publicado 29/11/2017 17h17, última modificação 30/11/2017 09h13
São Paulo – O apresentador e jornalista pontuou as chaves e desafios para a adaptação ao mundo digital

A capacidade de imaginar e criar do ser humano levou-nos, literalmente, à lua. Enquanto a equipe norte-americana da Nasa pisava no satélite natural pela primeira vez em julho de 1969, boa parte da população observava uma única imagem: a dos astronautas na superfície do globo prata, que antes parecia tão distante. O que parecia impossível, de repente, era tão real que estava sendo registrado, filmado e televisionado.

Acompanhar esse marco histórico só foi possível graças a aqueles que sonhavam mesmo antes do desenvolvimento de técnicas que viabilizassem seus desejos. A imaginação de Arthur Clarke, escritor de ficção científica, previu a existência de satélites muito antes que qualquer cientista pensar nesse conceito. Em um artigo publicado na revista Wireless World, em 1945, ele cogitava a hipótese de mandar estações para o espaço a fim de estabelecer uma rede de comunicação global em rádio e televisão. Anos mais tarde, Clarke viu sua ideia virar realidade. Foi o funcionamento de satélites artificiais que permitiu com que aproximadamente um bilhão de pessoas – um quarto da população na época - pisassem na lua junto com Neil Armstrong e Buzz Aldrin. Hoje, mais de três mil satélites orbitam a terra permitem o funcionamento de operações de telefonia, navegação por GPS e internet – serviços indispensáveis para a sociedade.

Esses episódios foram narrados e analisados por Marcelo Tas, jornalista e apresentador, durante o #AmchamSpark no dia 28/11. Para ele, a transmissão do homem na lua foi o nascimento do “tempo real”. Desde então, a noção que temos do tempo tem acelerado de uma maneira inédita e intensa. Entender como esses processos transformaram as pessoas, seus desejos e relações é a chave para as empresas entrarem no mundo digital de forma criativa, segundo o jornalista.

 

Trajetória em transformação

Foi dentro de um curso de engenharia que Marcelo Tas viu sua a paixão por comunicação acender. Sua trajetória coincidiu com diversas transformações desse campo – portanto, a necessidade de entender e se adaptar às disrupções esteve presente em sua carreira. Nos anos 80, quando abriu uma empresa de vídeo com as novas câmeras portáteis, tinha o problema de divulgação daqueles materiais. Até então, o único meio de veicular era através das grandes emissoras de televisão – algo que hoje não faz sentido, em meio a tantas plataformas de streaming e distribuição. 

Já dentro de emissoras de televisão, em 2009, o então apresentador do CQC resolveu usar o digital como uma grande oportunidade para escutar seus clientes – no caso, os telespectadores do programa da TV Bandeirantes. Ao acompanhar o que eles diziam sobre o show, Tas entendeu que grande parte deles se interessava quando o CQC abordava assuntos jornalísticos de forma mais leve, bem humorada, diferente. A decisão de então investir mais em coberturas mantendo o estilo do programa levou à explosão da audiência e se transformou em um case de sucesso que nem mesmo os criadores do programa previam. 

Apesar de a internet já ter despontado nessa época, a televisão ainda era resistente e apegada a antigos modelos. Ao reverter a situação, Tas mostrou a importância do contato com o telespectador. O poder de ouvir de fato os clientes é algo que as empresas devem sempre buscar, segundo o jornalista. E, com a aceleração da comunicação, existem cada vez mais ferramentas para estabelecer essa conexão e manter serviços e produtos atraentes. Esse é o conceito de human centered design – a capacidade de buscar entender cada vez mais nós mesmos, nossos pares e consumidores.

Temos que ter a consciência de que a televisão não pode ser surda – e quando falo televisão, falo de qualquer outro empreendimento. É o mundo que a gente vive, que a gente pode ouvir. E as formas de ouvir ficam cada vez mais sofisticadas”, aponta.

O crescimento do mundo digital, para Tas, também significa aprender a viver em uma realidade em que temos muito menos controle. “Nós estávamos habituados com o controle do nosso cliente, filho, negócio. No caso da televisão, ela controlava o telespectador: ditava o horário de ver novela, jornal, outra novela. Ainda estamos habituados com esse mundo”, pontua.

Um exemplo simbólico para o jornalista é o do presidente Vladimir Putin. Em um protesto contra a homofobia, os manifestantes usaram uma ilustração manipulada do presidente da Rússia em que ele aparece maquiado. A Justiça do país declarou que a imagem estava proibida de ser usada. Quase que instantaneamente, a ilustração percorreu as telas de computadores e celulares em diversos países e também incentivou a criação de memes e outras imagens de sátira com a imagem presidente.

 

Entender a tecnologia

Compreender as mudanças de mindset dos consumidores e o impacto do digital em seus desejos e jornada de consumo é o início do processo de transformação. Além disso, o comunicador destacou a importância de entender de fato o funcionamento da tecnologia - não de uma maneira detalhada, mas para captar o conceito e detectar oportunidades ou falhas. Um exemplo são os algoritmos. Esses códigos podem ajudar na aproximação com o público-alvo, por armazenarem de forma automatizada diversas informações, mas também podem impedir que os empreendedores saiam das bolhas com as quais já estão acostumados. Ao focar em uma determinada parcela de clientes que julga conhecer, uma companhia pode perder de vista outros nichos de mercado se não prestar atenção às tendências que ainda não estão materializadas em dados.

O blockchain também foi apontado por ele como uma disrupção que pode ser usada em qualquer negócio. Muito usada no mundo financeiro, a ferramenta consiste em uma corrente de blocos de dados descentralizada que valida transações de maneira transparente, segura, barata e veloz. Tas aponta que cerca de 200 novas moedas foram criadas nesse modelo digital. “Isso não vale só para dinheiro, podemos pensar que uma eleição pode ser organizada em blockchain”, acredita.