FHC prevê que reforma política não será ampla, e sim centrada em avanços pontuais

por daniela publicado 27/05/2011 12h57, última modificação 27/05/2011 12h57
André Inohara e Daniela Rocha
São Paulo - Segundo ex-presidente da República, a sociedade está descontente com o sistema atual.
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O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso (FHC) avalia que a sociedade está descontente com o sistema político atual, mas não acredita que uma reforma ocorra de uma só vez, de forma ampla, ainda neste ano.

O mais provável é que sejam aprovados avanços institucionais pontuais, como o fim da coligação proporcional – sistema que permite a eleição de um candidato com um número menor de votos, puxado pelo sufrágio expressivo de outro candidato de um partido coligado.

FHC participou nesta sexta-feira (27/05) do comitê estratégico de Economia da Amcham-São Paulo. Após a reunião, ele concedeu uma entrevista ao site da Amcham, e ressaltou que progressos pontuais também deveriam ser buscados na relação Brasil-EUA, citando a questão do etanol.  Acompanhe:

Amcham: O Brasil precisa da reforma política? Qual a chance de ela sair este ano?
Fernando Henrique Cardoso:
A sociedade está descontente com o sistema político, mas ainda não sabe muito bem para onde quer ir. Provavelmente, haverá alguns avanços institucionais, o que não é mal.
Acho difícil que ocorra uma grande reforma, é difícil pensar que se mudará tudo. Mas sou otimista, porque é preciso que haja alguns avanços, sobretudo acabar com a coligação proporcional, porque não dá para votar em uma pessoa e eleger outra.

Amcham: Como o sr. vê o governo trabalhando a questão da reforma política, considerada a mãe de todas as reformas?
Fernando Henrique Cardoso:
Todos falam isso porque é um modo de dizer. A reforma política é muito difícil de ser feita, e não vejo o governo realmente empenhado nisso. Não estou criticando, porque também não a fiz. Achei que, se começasse pela reforma política, não faria as outras. Ficaríamos discutindo e patinando no mesmo lugar. Agora, sua realização está mais madura, mas, se o governo não coordenar uma convergência em torno dela, não acontecerá. E, se apoiar a decisão de um partido (o PT), também não ocorrerá porque os outros não deixarão. É preciso um consenso que ainda não chegou, mas que está se formando.

Amcham: A sociedade tem que debater mais esse assunto?
Fernando Henrique Cardoso:
Muito mais e forçar mais.

Amcham: Sobre competitividade e relação Brasil-EUA. Há um clima mais favorável para estreitar relações comerciais entre Brasil e EUA?
Fernando Henrique Cardoso:
Creio que sim. Jantei com a Hillary Clinton (secretária de Estado dos Estados Unidos) há dez dias e esse assunto foi mencionado. Disse que está no momento de os EUA fazerem um gesto. Como expliquei aqui (na Amcham), não acredito em grandes reformas globais salvadoras. Os EUA poderiam fazer um gesto efetivo, digamos, na questão do etanol, para resolver e dar sinais claros de que pretendem avançar na discussão. Ou então apoiar fortemente a transferência tecnológica na área espacial ou qualquer outra área como a nuclear.
Mas teriam que ser coisas concretas. Esse é um bom momento, porque tanto lá (nos EUA) como cá (Brasil) estamos precisando de renovação.

Amcham: Como o sr. avalia a visita recente do presidente dos EUA, Barack Obama, ao Brasil?
Fernando Henrique Cardoso:
Em uma visita presidencial, não se pode esperar mais do que um gesto. Ele (Obama) fez um ao vir aqui antes da presidente Dilma Rousseff ir até os Estados Unidos. Obama também não foi a todos os países da América do Sul. Foi um gesto positivo.

 

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