Carência de infraestrutura tecnológica no Brasil impede criação de registro eletrônico nacional de pacientes

por andre_inohara — publicado 28/02/2013 08h25, última modificação 28/02/2013 08h25
São Paulo – Deficiência a ser solucionada abre espaço para negócios bilionários, aponta consultor.
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Apesar das ilhas de excelência, a cadeia de saúde brasileira se ressente da falta de infraestrutura tecnológica. As principais carências são de sistemas de conectividade, armazenamento e troca de informações, que permitiriam a criação de um registro nacional eletrônico de pacientes e saber se um indivíduo é alérgico a determinado medicamento ou se tem predisposição genética para alguma enfermidade.

A lacuna de infraestrutura tecnológica a ser preenchida no setor abre espaço para negócios bilionários, principalmente no setor público. No comitê de TIC (Tecnologia da Informação e Comunicação) da Amcham-São Paulo realizado nesta quarta-feira (27/02), executivos do setor privado debateram sobre a oferta de produtos e serviços especializados de TIC para o segmento de saúde.

Na rede pública, o principal a fazer é dotar os hospitais e unidades de saúde de infraestrutura de tecnologia, opina Antonio Paulo Azevedo, Client Senior Director da consultoria Accenture. “Essas áreas precisam de sistema e conectividade para fazer registro eletrônico, o que também demandaria um Data Center que o Brasil não tem. Os investimentos seriam de bilhões”, argumenta o consultor.

A informatização é o primeiro passo para coletar o perfil dos usuários da cadeia e informações de atendimento médico, servindo de base para gerar intercâmbio de informações. Nesse contexto, as três esferas de governo – União, estados e municípios – demonstram intenção de adotar um sistema unificado de controle médico. “O caminho para criar infraestrutura é longo, mas há uma sinalização clara de se fazer gestão baseada em indicadores de produtividade”, conforme Azevedo.

Pesquisa Accenture

No final do ano passado, a Accenture divulgou uma pesquisa global sobre a indústria de saúde chamada de ‘Conexão para resultados’, para entender a percepção e o estado atual dos atores dessa cadeia. Os pesquisadores estudaram oito países da Europa, América do Norte e Ásia.

Alguns casos apresentados mostraram como a tecnologia pode melhorar a eficiência do sistema de saúde. No Reino Unido, 17,4 milhões de usuários consomem serviços de gestão digital de radiologia. São pessoas que podem consultar, por exemplo, resultados de exames radiológicos.

Em Singapura, cidade-estado com 5 milhões de habitantes, toda a população possui registro médico. “A comunidade médica tem acesso ao histórico clínico de cada habitante. Se a pessoa é atendida no norte ou sul, o médico terá acesso ao prontuário e poderá direcionar o atendimento”, comenta Azevedo.

A Espanha é um dos países que mais se destacam em atendimento médico, devido à massa considerável de registros históricos. “A região central de Madri tem 26 mil acessos mensais sobre registros de pacientes”, destaca o consultor.

Fleury

No Grupo Fleury, de medicina diagnóstica, toda a operação é informatizada, desde o pré-atendimento ao pós. Pela internet ou contact center, o cliente é direcionado a várias unidades para consulta e exames.

Depois da consulta, os resultados ficam disponíveis online, descreve Claudio Laudeauzer, diretor corporativo de TI do Grupo Fleury. “Todos os macro processos estão baseados em TI, e usamos um sistema centralizado para fortalecer o controle e disponibilização da informação”, descreve ele.

Para Laudeauzer, a automatização é um diferencial competitivo. “Pela característica do serviço, nosso cliente já chega receoso. Ele quer que o sistema fique disponível e a informação chegue de forma rápida”, acrescenta o executivo.

Axismed

A informática é um processo importante para a AxisMed, prestadora de serviços para pacientes com doenças crônicas (diabetes, cardiopatia) do Grupo Telefonica. “O paciente crônico necessita de suporte maior e constante ao que ele faz, e nosso trabalho é apoiá-lo para que ele se mantenha estável”, explica Fabio de Souza Abreu, diretor executivo da Axismed.

Os vários profissionais da AxisMed são ligados à área médica, psicológica e social, e prestam assistência ininterrupta à base de clientes. Com a estrutura da Telefonica, a Axismed quer oferecer mais serviços informatizados.

“Junto com a Telefonica, estamos trazendo um serviço de atendimento médico via telefone. A pessoa entra em contato com a central reclamando de dor de cabeça, e o sistema, baseado em cálculos com algoritmos, avalia os riscos que o paciente pode ter, e que vai orientar o trabalho de médicos e enfermeiros”, adianta o executivo.

A empresa também estuda oferecer atendimento baseado em dispositivos médicos (para medir pressão ou glicose) instalados na casa do paciente crônico interligados via tablet ou celular, e que podem enviar informações em tempo real para a central de monitoramento. “Estamos trazendo para o Brasil agora. O grande problema não é tanto a tecnologia, mas a logística. Temos pacientes no Brasil inteiro”, comenta ele.

Intel

O sistema de saúde brasileiro poderia ser um grande usuário de tecnologia, segundo José Luis Bruzadin, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Saúde Digital da Intel. Para ele, a tecnologia pode ser usada para replicar treinamento de pessoal.

“A TI pode entrar com o tablet ou celular dos agentes de saúde, que podem replicar treinamentos sobre procedimentos médicos no interior do Brasil”, disse ele. Bruzadin conta que, em uma de suas visitas à Amazônia, soube que, dos quatro mil médicos do estado, três mil estavam concentrados na capital Manaus.

“O acesso à saúde é menor no interior. Toda vez que um agente de saúde tem que treinar novo procedimento, necessita buscar pessoas em cada domicílio para treinar e replicar”, comenta. 

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