Classe C é exigente e prefere pagar por qualidade

publicado 27/08/2013 15h20, última modificação 27/08/2013 15h20
São Paulo – 50 milhões de brasileiros ascenderam socialmente nos últimos anos
renato-meirelles-8395.html

Eles movimentam R$ 1 trilhão por ano na economia, são cerca de 50 milhões de pessoas formados em sua maioria por negros, mulheres e jovens, e se revelam consumidores bastante exigentes. Com hábitos e valores próprios, as pessoas da antiga classe C ascenderam para a classe média (B) brasileira nos últimos anos, o que exige das empresas novas abordagens comerciais.

“O grande desafio de vender para a classe C é não acreditar no senso comum, que invariavelmente nos induz ao erro”, disse Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto de pesquisa Data Popular, na reunião do comitê de Marketing da Amcham-São Paulo, realizado na terça-feira (27/8).

Meirelles citou os dados de uma pesquisa feita pelo seu instituto, sobre os hábitos de compra da classe C. Na mesma enquete, foi perguntado às mulheres da classe A como elas achavam que a classe C comprava.

De modo geral, as mulheres da classe A disseram acreditar que a classe C não tinha renda para consumir artigos de beleza e turismo, em função da baixa renda. Quando questionadas, as mulheres da classe C responderam que consomem sapatos e roupas, e não compram artigos de promoção apenas por causa do preço.

De acordo com o diretor, a ideia de que a classe C prefere comprar produtos mais baratos é equivocada: eles valorizam muito a qualidade e estão dispostos a pagar por isso. “As pessoas não querem pagar a metade do preço em um tênis que, ao invés de três anos, vai durar três meses. É um barato que sai caro.”

A ideia de consumir bons produtos está diretamente relacionada à auto-estima, acrescenta Meirelles. Ele contou o caso de uma mulher que comprou uma máquina de lavar roupa à prestação, e sabia que estava pagando juros.

Questionada por Meirelles, ela disse que a aquisição parcelada do bem compensava mesmo assim, pois a livrava da cansativa tarefa de lavar roupa no tanque. “Consumir, para as classes C e D, é esquecer o passado de pobreza.”

Negros, mulheres e jovens

Do consumo anual de R$ 1 trilhão da classe C, a maior parte vem da população negra e justifica a criação de campanhas publicitárias direcionadas a esse público, disse Meirelles. “Colocar negros na comunicação tem a ver com um mercado de R$ 720 bilhões”, afirma ele.

Para o executivo, a publicidade atual não está captando os desejos e aspirações da classe C. “Eles não se identificam com o galã da novela, mas com o vizinho que deu certo”, segundo Meirelles.

Outro grupo importante é o composto pelas mulheres, que cada vez mais chefiam as suas famílias e influenciam cada vez mais as decisões de compra. “A chegada da mulher ao mercado de trabalho revolucionou o consumo no Brasil, porque deu poder a elas como consumidora e chefe de família”, afirma o executivo.

Em relação aos jovens, eles estão mais instruídos que seus pais e contribuem mais para a renda familiar, o que os torna bastante influentes nas decisões. Além disso, são grandes consumidores de aparelhos digitais. “Está surgindo uma nova geração de formadores de opinião mais conectados às tecnologias”, segundo Meirelles.

Diante de números robustos, saber se comunicar com a nova classe média se tornou vital para os negócios. Para o executivo, “ninguém será líder de mercado se não for líder na classe C”.

registrado em: