Lições de empreendedorismo: inovar, dedicar-se integralmente e escolher bem o sócio

publicado 03/06/2015 12h01, última modificação 03/06/2015 12h01
São Paulo – Empresários de sucesso compartilham experiências no Encontro de Empreendedores da Amcham
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Desenvolver produtos e serviços inovadores para poder se lançar ao mercado, se dedicar integralmente ao negócio abrindo mão de conforto e segurança, e escolher o sócio que complemente a capacidade da empresa e seus objetivos são algumas das lições de empreendedorismo compartilhadas no VIII Encontro de Empreendedores da Amcham – São Paulo, terça-feira (02/06).

Um time de empresários de setores variados contou suas experiências: Cristiana Arcangeli, CEO da Beauty’in; Ulisses Sabará, presidente da Beraca; Jorge Sukarie, presidente da Brasoftware; Pedro Figoli, presidente da Geofusion; Sergio Zimerman, presidente da Petz; e Valério Paz Dornelles, presidente da Tecno Logys. O encontro foi mediado por Cynthia Serva, coordenadora do Centro de Empreendedorismo do Insper.

Confira algumas lições:

Inove para poder competir

Não se lance no mercado sem ser inovador. Fazer mais do mesmo vai coloca-lo em competição direta com os grandes já estabelecidos, alerta Cristiana Arcangeli, CEO da Beauty’in que, para ela, é seu empreendimento mais inovador. “Ela tem o conceito de beleza de dentro para fora, é a mais inovadora que já fiz porque é uma nova categoria de consumo”, diz.

Inovação deve ser o ingrediente principal de um novo negócio, afirma a empresária. “A inovação ocorre quando você consegue antecipar alguma tendência, ver para qual caminho se está indo, que necessidade seu público vai ter”, ensina.

Para Valério Dornelles, inovar parte de um pensamento questionador. “Veja a necessidade que o potencial cliente tem e não sabe. Tenha o pensamento voltado à solução dos problemas”, indica o empreendedor, que há 17 anos saiu da construtora onde trabalhava e fundou a Tecno Logys. Sua empresa atende outras construtoras, oferecendo um método construtivo mais eficiente. Ele criou uma parede feita a partir de blocos semelhante aos de Lego e agora possui uma spin off que fornece equipamentos tecnológicos para construção.

Tenha o foco na necessidade do cliente, instrui Pedro Figoli. “A gente ajuda o cliente a olhar de outra perspectiva”, exemplifica o presidente da Geofusion, que fornece plataforma de geomarketing.

Inovar nem sempre é oferecer algo novo, mas fazer o mesmo de um jeito diferente, comenta Sérgio Zimerman. “E não deixe de se reinventar quando estiver tudo bem para ter melhores opções diante das dificuldades,” pontua o presidente da Petz, o antigo Pet Center Marginal. A mudança de nome é estratégica para a expansão em outros estados. “Em outros locais, marginal é associado a bandido. Numa pesquisa, chegaram a perguntar se tratava-se de um cão com arma na mão”, brinca.

Faça o que gosta e com o que se identifica

Uma viagem ao Amazonas quando ainda era jovem acendeu em Ulisses Sabará o encantamento pela flora local e a vontade de trabalhar com esses ativos. Décadas mais tarde, quando a empresa da família entrou na cadeia da indústria cosmética, o empresário viu oportunidade de concretizar o sonho. A Beraca adquiriu uma startup paraense e começou a produzir os insumos, hoje vendidos a companhias como Natura, L’Occitane e Kiehl’s.

Não era tão simples entrar na Amazônia e convencer os clientes a comprar insumos de nomes tão diferentes quanto murumuru e ucuuba. “Ainda mais quando é uma venda demorada, com até quatro ou cinco anos para ocorrer os lançamentos”, cita o presidente da Beraca.

“Investimos em muita pesquisa e sustentabilidade porque temos paixão de trabalhar com a natureza, trazendo para o mercado produtos de vários biomas brasileiros”, conta.

Abra mão da estabilidade

Valério, da Tecno Logys, e Pedro, da Geofusion, deixaram seus antigos empregos com salário mensal para abrirem seus próprios negócios. Abrir mão da estabilidade não é opção, mas condição para quem quer empreender, dizem os convidados do encontro.

“Se você procura segurança – e não há mal nenhum nisso -, fique na empresa onde está. É muito perigoso alguém que queira empreender procurar segurança e resultado rápido”, vaticina Cristiana, da Beauty’in. “Empreender é correr risco, tem de ter perfil para isso. Não dá para você ficar com o bolo quando tem que abrir mão dele pelo bem da própria empresa”, complementa.

Sérgio, da Petz, diz que a ideia de que ao empreender o profissional ganhará mais faz parte de uma lista básica de três grandes engodos. O primeiro é o da natureza remuneratória. “Primeiro você tem uma baixa na remuneração, mais para frente ela melhora”, conta. Os outros são quanto à carga horária trabalhada e a se livrar de uma chefia. “Se você antes trabalhava 44 horas semanais, agora vai a 60. Se livrou de um chefe e ganhou 500”, declara.

A chave da questão é disciplina, afirma Jorge Sukarie, que ainda na década de 80, quando microcomputadores eram caros e comprados apenas por empresas, viu a oportunidade de abrir uma revendedora que reunisse, em um só local, todos os tipos de software. Até então eles eram vendidos separadamente. “Meu salário sempre foi o último a ser pago e só depois de 15 anos empreendendo fui pensar em meu patrimônio”, relata o presidente da Brasoftware.

“Com disciplina é possível dedicar-se à gestão e não dar o passo maior que a perna”, ensina Jorge.

Busque competência financeira

Não adianta ser cheio de vontade e possuir ótimo feeling para o negócio. Empreender requer capacidade financeira para não quebrar sua boa ideia, ressalta Sérgio, da Petz, que antes de abrir o pet center viu falir sua distribuidora de produtos para bares, com cerca de 300 funcionários. “Em três meses, vi o faturamento da distribuidora cair de R$ 15 milhões para R$ 2 milhões. Aprendi mais nesse período que em dez anos empreendendo”, conta.

Depois da queda, decidiu estudar administração. Graduou-se e fez duas pós. “Fui para o espelho ver onde falhei. Faltava base técnica melhor”, conclui.

O conhecimento técnico é especialmente importante quando se lembra do alto índice de mortalidade de novos negócios. “Tem de saber administrar os recursos. Você vê muito dinheiro entrando e acha que está rico, compra carro. Mas quando o mercado vira, de repente você percebe que não tem estoque e está com dívida”, exemplifica o presidente da Petz, numa lição adjacente de que fracassar faz parte do processo.

Sociedade e casamento

A escolha do sócio tem de ser tão calculada quanto um casamento, pregam os convidados. É necessário que ambos tenham cultura e objetivos em comum, destaca Cristiana.

“Já ouvi gente falar que ganha o mesmo tanto de dinheiro em meia hora”, narra a empresária. “Não está errado, mas é diferente do meu objetivo, que é a longo prazo. Quanto mais próxima for a cultura do sócio, mais fácil”, define.

Ulisses já foi procurado por fundos com propostas de altos recursos financeiros. “Mas não queria capital, e sim tecnologia”, assegura. Ele não fechou com esses fundos, mas com um parceiro tecnológico do segmento em que atua.

Quando a cultura difere, mesmo quando o sócio é um fundo de investimentos, é preciso saber lidar com os conflitos para preservar o negócio, diz Pedro. “A maturidade é essencial para lidar com todos. Isso também passa para os funcionários”, adverte.

A sociedade deve ocorrer com alguém que complemente suas habilidades. Sério diz que a entrada de um fundo de investimentos lhe trouxe exemplos de melhores práticas de gestão.

Uma delas foi por meio de benchmarking com uma empresa da Inglaterra. A partir da experiência, sua empresa passou a contratar apenas apaixonados por pets e a fornecer treinamento de comportamento e técnico. “Há identificação entre o profissional e o cliente, quando o primeiro é um pet lover. Ele também precisa fornecer informações mais precisas e amplas do que as que o consumidor já tem disponíveis na internet”, expõe.

Lide com os medos

Sim, há medos envolvidos em qualquer empreendimento. Eles são naturais. Mas é preciso fazer algo para que eles não paralisem o projeto. “O medo vai mudando com o tempo. No começo, você tem só mulher e filho envolvidos, mas depois, há muitas pessoas atreladas e a ideia de que ‘eu não posso errar’,” revela Pedro.

“Mas você vai se munindo de pessoas que te complementam, as responsabilidades são compartilhadas e você cria valor”, declara.

 

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