Planejar é bom, mas é preciso colocar a empresa para funcionar antes e então ter um plano de negócios consistente

por marcel_gugoni — publicado 27/01/2012 18h06, última modificação 27/01/2012 18h06
Marcel Gugoni
São Paulo – Especialistas concordam que ter um projeto do tipo ou não depende de cada caso.
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Abrir uma empresa é um passo que requer muito suor e trabalho duro além de um plano detalhado de como ela vai funcionar, quantos funcionários vai ter e de que forma vai obter lucro. Há um consenso entre especialistas de que planejar é sempre bom para evitar os “achismos”, mas montar um plano de negócios consistente para sua empresa exigirá tempo de vida e entendimento da complexidade do negócio.

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Em primeiro lugar, é preciso fazer a empresa andar com as próprias pernas, aconselham especialistas. O assunto foi tema do comitê BiG (Business in Growth) da Amcham-São Paulo realizado nesta sexta-feira (27/01) com o tema “Plano de negócio: fazer ou não fazer?”.

Na avaliação de Marcelo Lima, sócio da Tarpon Investimentos, ter ou não um plano de investimentos é uma decisão que varia em cada caso. “Se bem implementado, é uma importante ferramenta de melhoria e crescimento da empresa”, afirma ele. Para aquelas que optam por ter, “o segredo é a capacidade de planejar, checar como o negócio está evoluindo, atualizar o plano e mudar o que for preciso.”

Expansão da Arezzo

Durante o evento, Lima apresentou dois casos em que o plano de investimentos foi bem aproveitado e um em que, mesmo com o plano, não houve sucesso no negócio.

Um dos casos que deu certo é o da rede Arezzo. Ele diz que a empresa já caminhava bem, mas não tinha uma ideia clara de qual seria o próximo passo. “Quando começamos, não havia um plano detalhado”, conta.

Ele diz que o plano de negócios foi montado para cinco anos, e depois refinado em planos detalhados para cada ano. “Isso se desdobrou em seguida para cada pessoa e área estratégica”, afirma. “O planejamento tem um componente de engajamento para sair do papel ao plano concreto de cada área, de como elas ajudarão na realização do plano. Temos que ter bem claramente o caminho para onde queremos ir. E é melhor saber disso antes do que depois.”

Segundo Lima, o plano da Arezzo foi feito mais no sentido de acelerar a ampliação da rede porque ela já estava indo para onde queria. “O papel do plano foi o de dar mais velocidade”, afirma.

Mudança de ares para a Hering

Ele contou também o caso exitoso da Hering, que precisou de um plano para reestruturar sua imagem. “Era uma empresa centenária que desde os anos 1980 passava por dificuldades por conta da importação e da maior concorrência com a China”, lembra. “Nossa ideia foi identificar como transformar a cultura industrial da companhia e adaptar a sua marca para o largo varejo.”

Lima mostrou que o plano de negócios focou em uma mudança de cultura. “A marca já era muito conhecida, então aproveitamos para facilitar o trabalho”, conta. “Ela passou a vender a própria história para se renovar. De menos de cem lojas, hoje caminha para as 600. É uma grande transformação que sem um bom plano não sairia do papel.”

Recursos para a Agrenco

Por outro lado, a experiência da Brenco, da área de produção de biocombustíveis, foi de pesados investimentos que dependiam de capital estrangeiro. “Contratamos um ex-presidente da Petrobras e fizemos captação de recursos com mais de 20 parceiros de fundos internacionais”, afirma. “A empresa comprava fazendas e montava as usinas, mas não tinha começado a produzir ainda.”

Lima conta que já havia conseguido US$ 200 milhões para começar o negócio e ainda precisava de US$ 800 milhões, dos quais uma parte viria do BNDES [Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social]. “Mas aí veio a crise de 2008 e secou o crédito. Só dependíamos da aprovação desses créditos [dos fundos estrangeiros] e o plano de negócios estava muito bem feito, mas ninguém previa aquela crise.”

Começo do negócio

É por esse motivo que Alexandre Cruz, sócio-fundador da Neo Intelligence, diz que não dá para já ter um plano de negócios detalhadíssimo antes mesmo de a empresa produzir. “No começo da companhia, planejar em excesso pode ser prejudicial”, afirma.

Mas ele faz uma ressalva: “Planejar nunca é ruim, mas não podemos gastar tanto tempo em planejamento e pouco em ganhar dinheiro. Temos sempre que tomar cuidado para não ficar só planejando e esquecer de levantar e vender o produto.”

“No começo, o ideal é gerar demanda e fazer seu negócio se estruturar”, explica. “Depois as duas coisas se complementam. Quanto mais nova é sua empresa, mais importante é executar em vez de planejar. Conforme ela vai ficando madura, planejar se torna tão importante quanto produzir devido à complexidade e à ampliação das áreas.”

Segundo Cruz, o empreendedor que acredita do negócio é capaz de abrir sua empresa planejando muito pouco.  “O excesso de planejamento pode quebrar uma empresa. Mas o excesso de cliente não”, compara.

Lima concorda. “Primeiro, toda empresa tem uma única tarefa: gerar caixa. Dependendo do estágio de maturidade da empresa, é preciso executar mais e planejar menos.”

Planejar, planejamento e plano

Marcelo Nakagawa, coordenador do Centro de Empreendedorismo do Insper e vice-presidente do comitê da Amcham, comentou sobre a diferença entre planejar, planejamento e plano. Segundo ele, os termos enganam porque parecem sinônimos, mas carregam significados bem diferentes entre si que podem significar o sucesso ou o fracasso da empresa.

“Todos os empreendedores planejam. Planejar é levar o futuro em consideração”, explica. “Quando se sai de casa e vai a um lugar, imagina-se o trajeto que vai fazer para chegar lá. Querendo ou não, 100% dos empreendedores planejam.”

Mas ter um planejamento é um passo além. “É uma forma sistematizada de planejar. É como seguir uma receita de como você planeja e conseguir replicar isso em outros casos, conseguir explicar o modo que o levou àquele objetivo.”

“Já o plano é o resultado do planejamento em um pedaço de papel”, aponta. “São raros os casos [de empresários] que escrevem o plano. Todo mundo planeja, alguns fazem um planejamento e poucos escrevem o plano.”

Só alguns empreendedores fazem planejamentos e planos, diz ele. E esse é o ponto essencial. “O perigo de só planejar e não fazer o planejamento é cair no ‘achismo’”, pondera.

“Se você vai viajar e tiver um método de planejar a viagem, a segunda vai ser melhor do que a primeira, a terceira será melhor que a segunda. Se para cada vez que você faz uma viagem de férias você segue uma lógica diferente, sempre haverá tropeços que, se você tivesse seguido o aprendizado anterior, não teriam ocorrido. O planejamento é importante para ter uma lógica, que pode ser melhorada e adaptada depois.”

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