Brasil tem três Belo Monte adormecidas nos canaviais, diz presidente da Unica

por marcel_gugoni — publicado 29/02/2012 17h55, última modificação 29/02/2012 17h55
São Paulo – Marcos Jank afirma que País já tem matriz energética limpa e é o maior do mundo em produção de cana, mas precisa melhorar a competitividade
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O Brasil tem um dos maiores potenciais do mundo em produção de energia renovável. Considerando uma retomada forte da produção de etanol e o desenvolvimento de novas tecnologias para aproveitar quase a totalidade da cana para a produção de combustível, o País tem uma capacidade energética equivalente a três usinas hidrelétricas como a Belo Monte, no rio Xingu (Pará).

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A estimativa é do engenheiro agrônomo Marcos Jank, presidente da Unica (União da Indústria da Cana-de-Açúcar), que participou nesta quarta-feira (29/02) do comitê estratégico de Energia da Amcham-São Paulo. A reunião debateu o mercado de etanol. Para ele, “o Brasil tem três Belo Monte adormecidas nos canaviais”. 

Na maior parte do ano, a hidrelétrica que está sendo construída no Pará gerará 4,4 mil MW - 40% da capacidade instalada de 11 mil MW. A usina binacional Itaipu (no Paraná) produz, em média, 8,6 mil MW de seus 14 mil MW de capacidade instalada. Até 2020, a Unica aposta que a cana tenha um potencial de geração de 13,15 MW. 

“A biomassa é complementar à hidrelétrica na geração de eletricidade”, afirma Jank. “O bagaço e palha, juntos, representam 2/3 da energia da cana. É onde está o grande potencial de geração de eletricidade. Esse é o futuro.” 

A maior parte do que é desperdiçado no processamento da cana pode passar a ser utilizada na produção do chamado etanol celulósico. Se hoje só o caldo é aproveitado para a produção de açúcar e álcool, novas tecnologias podem dar outros destinos ao bagaço e à palha além da queima pura e simples – elas podem gerar eletricidade ou ser processadas para virar aditivos em outros combustíveis como o diesel, em detergentes e solventes na indústria química, em lubrificantes industriais, em bioplásticos e até em cosméticos e alimentos. 

Para a safra de 2011/2012, a Unica projeta uma capacidade de geração de 4,15 MW de bioeletricidade, dos quais somente 1 MW vai ser efetivamente realizado. Para 2015/2016, a previsão é de capacidade instalada de 8,15 MW. “Há potencial até para a venda do excedente”, diz. 

Matriz limpa 

Jank afirmou que o Brasil é, hoje, o maior produtor de açúcar do mundo, responsável por metade das exportações do produto, e o segundo maior fabricante de etanol, com 20% das exportações – só perdendo para os Estados Unidos. Brasil e EUA, juntos, têm 90% da produção de biocombustíveis do globo. 

“Nossa matriz energética é limpa e não há razão para o Brasil importar etanol quando temos as melhores condições de produção do mundo”, analisa. 

Ele estima que haja um déficit de 120 usinas no País – para se somarem às 430 unidades produtoras já existentes. “Sem contar que passamos vários anos com pouco investimento em canavial”, avalia. 

Os dados da Unica mostram que só 2,6% das terras aráveis estão plantadas com cana-de-açúcar – o equivalente a 8,7 milhões de hectares em um universo de 338 milhões de hectares. As pastagens, por exemplo, ocupam 172 milhões de hectares (55%) e a agricultura, 55 milhões de hectares (16%). A plantação destinada a etanol tem 1,4% destas terras. 

“O que falta é organização. Nosso maior desafio é produzir mais cana e retomar os investimentos. O Brasil hoje é exportador de petróleo, mas tem que importar os principais derivados, como diesel e gasolina. O risco disso é sujar a matriz brasileira e limpar a dos outros. Isso não faz sentido.” 

Estagnação e expansão 

Jank afirma que, de 2000 a 2008, o setor conseguiu manter um ritmo de expansão na casa dos 10% ao ano. A crise financeira de 2009 e problemas climáticos que vêm afetando a safra desde então comprometeram a competitividade do etanol e novos investimentos. 

“Empresas que tinham feito grandes investimentos em 2005 e 2006 ficaram sem liquidez, e quem entrou depois do início da crise comprou quem estava em dificuldade, então não fez novos investimentos”, afirma. “Os problemas climáticos causaram uma perda de 20% do etanol total na última safra.” 

A competitividade está ligada a fatores estruturais: os preços da gasolina estão no mesmo patamar há seis anos enquanto os custos do álcool subiram e deixaram muitas usinas operando no vermelho. “Muita gente nesse período foi para o açúcar para segurar o preço”, afirma. 

“A incerteza e a falta de previsibilidade afastam os investimentos na produção de etanol”, diz Jank. Ele defende que “a expansão da produção depende do restabelecimento da competitividade do etanol hidratado carburante no mercado doméstico”. 

Novas tecnologias

Entre as saídas apontadas está a ampliação do uso do etanol celulósico, que hoje ainda tem uma produção cara e não é comercialmente viável. “Temos também que tirar o açúcar dos caminhões e colocar nos trens, como já estamos fazendo”, afirma.

Como os principais polos produtores de açúcar estão no Nordeste e no Sudeste, é mais fácil transportar esse tipo de carga por trilhos – “em três anos, queremos que até 90% do açúcar vão para os trens”, diz Jank. 

O presidente da Unica diz que a competitividade do álcool, por sua vez, depende da instalação de etanoldutos que mandem a produção do Centro-Oeste para os principais portos. “São importantes saídas para baratear.” 

E as empresas do setor ainda precisam buscar formas de otimizar as tecnologias já existentes. “Temos falado muito de etanol celulósico, mas ele ainda vai devagar porque a tecnologia é cara, então dependemos mais da produção de sacarose”, conta. “Mais importante do que criar a terceira geração de energia de cana é melhorar a eficiência da primeira.” 

“Temos grande potencial de demanda e de inovação, por isso essa estagnação por fatores estruturais e conjunturais pode ser vencida.” 

Impostos 

Por parte do poder público, Jank aponta que vale um esforço para baratear a produção. Um dos argumentos a favor de menores impostos é o fato de o etanol ter menor poder calorífico do que a gasolina e outros combustíveis no uso veicular. Ele gera em torno de 70% da energia do derivado de petróleo, por exemplo. 

Entram na conta readequações da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), que já foi de 14% do preço na bomba mas agora está perto de 2% para o etanol, e desonerações do ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) e do Pis/Cofins ao etanol. “Uma alternativa energética que polui menos deveria ter menos imposto”, avalia. 

Até 2020, a Unica estima que as exportações saltem do atual patamar de US$ 15 bilhões para US$ 26 bilhões. A produção de etanol deve ir de 27,4 bilhões de litros para 70 bilhões de litros. O açúcar passará de 38 milhões de toneladas para 51,1 milhões de toneladas. Com isso, o PIB (Produto Interno Bruto) do setor deverá dobrar – de US$ 48 bilhões para R$ 90 bilhões. “Mas isso só vai ocorrer se apostarmos na nossa competitividade”, conclui.

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