Desafio da logística reversa é integrar fabricantes e varejistas ao consumidor

por marcel_gugoni — publicado 19/06/2012 18h41, última modificação 19/06/2012 18h41
Marcel Gugoni
São Paulo – Especialistas consideram que lixo e resíduos descartados pelas empresas oferecem enormes oportunidades de negócios
martinez195.jpg

O lixo e os resíduos descartados pelas empresas oferecem enormes oportunidades de negócios. Para tanto, as práticas do descarte correto devem integrar cada vez mais fabricantes e varejistas ao consumidor.

Veja aqui quais são as vantagens de ser sócio da Amcham

A cadeia de logística reversa é um dos principais tópicos da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), que obriga as empresas a destinarem aos lugares certos quaisquer resíduos utilizados desde a produção até o consumo. A medida, criada em 2010 e aprovada no Senado Federal em agosto do ano passado, deve ser regulamentada até 2014, mas ainda depende de acordos setoriais para ser operacionalizada, como a definição de metas e legislações municipais.

Na mão dos empresários, está a tarefa de colocar em prática os planos para operacionalizar a logística reversa e conscientizar a respeito do tema tanto os distribuidores de seus produtos como quem os vende e quem os compra. É o que diz Luís Fernando Martinez, diretor executivo da Reversa, braço do grupo TPC, empresa especializada em soluções logísticas.

Quer participar dos eventos da Amcham? Saiba como se associar aqui

“Um grande desafio é quebrar o mito de que a logística reversa se associa a altos custos. Vejo mais como um exemplo de oportunidade geradora de eficiência”, afirma Martinez, que participou do comitê aberto de Logística da Amcham-São Paulo nesta terça-feira (19/06).

Para ele, a logística reversa é o grande instrumento para assegurar uma destinação correta de resíduos porque cria mecanismos atraentes para o descarte de produtos e de embalagens que chegaram ao seu fim de sua vida útil para que não sejam deixados onde não se deve.

Leia mais: Principal desafio das empresas é identificar e explorar oportunidades de mercado, segundo consultor da McKinsey

“Como nós, brasileiros, só fazemos as coisas quando temos uma penalidade ou uma vantagem, a PNRS vem para disciplinar”, ressalta. “Ninguém tem dúvida de que o cinto de segurança é um item que salva vidas, mas só passamos a usar quando virou lei; Também ninguém coloca em questão que é preciso exigir notas fiscais para que o governo arrecade os impostos, mas só as exigimos a partir do momento em que o governo começou a dar o benefício aqui em São Paulo.”

Empresas

Um dos objetivos da PNRS é definir claramente os agentes responsáveis pelo lixo jogado no meio ambiente. “Ela ainda está fresca e precisa amadurecer mais. É necessário ter um envolvimento maior dos setores que serão os responsabilizados no futuro”, avalia Martinez.

A ideia é inverter a ordem da cadeia para inserir o consumidor em um ciclo de responsabilidade. As indústrias fazem sua parte ao criar meios de reutilizar seus insumos durante outras etapas de produção, e o varejo entra com a tarefa de entregar o produto novo e buscar o velho.

Veja também: Política Nacional de Resíduos Sólidos trará mudanças para o processo produtivo no Brasil, avalia especialista

Martinez destaca que essas tarefas não devem ser exclusivas de um ou de outro, mas de todos. “Há uma responsabilidade compartilhada.” Ou seja, uma loja pode criar um processo de reuso para o fornecedor tanto quanto uma fábrica deve pensar em métodos de transporte dos itens descartados.

Cassio Lopes, gerente de Operações de Logística Reversa e Reciclagem da HP, aponta que as medidas previstas pela PNRS são uma forma de sempre devolver ao produtor seus próprios itens.

“O que vai mudar é o ente final da cadeia. Há casos em que o fabricante ou importador vende só ao varejista, e é este que vai revender ao usuário final. Em outros casos, distribuidores e intermediários vão repassar a lojas menores. O fabricante, evidentemente, não tem a visibilidade desse varejista menor”, detalha.

Veja também: Regras claras para reaproveitamento de resíduos tornam mercado de reciclagem promissor

“O que vai caber a este lojista final que está efetuando a venda é a responsabilidade de receber o equipamento quando o cliente quiser descartar. E ele tem a responsabilidade de entrar em contato com o fabricante para verificar a melhor forma de descarte.”

Reciclagem

A HP é uma das empresas que encontraram uma saída para os plásticos (componentes de seus produtos) que iam para o lixo. Lopes afirma que, de todo o material usado na fabricação dos cartuchos de tinta de impressora, 70% são reutilizados. “Conseguimos criar um ecossistema que absorve essa matéria-prima dentro do nosso processo produtivo. Com processos simples, temos capacidade instalada para desmontar os toners descartados.”

Os pontos de coleta são disponibilizados junto aos vendedores do produto. Cada agente tem seu papel: o consumidor devolve o cartucho usado na hora de comprar um novo, a loja armazena o item descartado e entrega tudo à fábrica, que vai reutilizar o plástico na cadeia.

Veja também: Brasil precisa desburocratizar licenciamentos ambientais e melhor definir competência para fiscalizar

A iniciativa resultou em um centro de reciclagem capaz de receber mais de 1,2 milhão de cartuchos por ano e responsável por recolocar no mercado 1 milhão de novos produtos do tipo.

Lopes diz que isso envolve uma ampla cadeia de logística reversa, mas requer mais trabalho de conscientização e de mobilização de pessoas do que o próprio transporte e reuso dos insumos. “Vai desde gestão e capacitação, até a implementação de práticas ambientais e a adaptação à infraestrutura.”

Isso até porque a gama de produtos da empresa requer processos distintos para cada item. “Temos desde mídias e pendrives até equipamentos de grande porte para datacenter. Cada um tem sua particularidade e necessidade específica. Mesmo impressoras, temos de industrial, para gráficas até as caseiras. E, obviamente, os métodos utilizados para se reciclar um produto ou descartá-lo corretamente vai se diferenciar em virtude da complexidade ou necessidade de materiais.”

Reuso

Mudar a cultura é uma necessidade unânime na opinião dos especialistas da área. “É preciso haver um trabalho de conscientização ensinando a descartar adequadamente um resíduo primário, o papelão e o plástico, por exemplo”, diz Lopes. “Optar por uma empresa que seja ecologicamente correta ou que tenha programas ambientais adequados deve se tornar um fator decisório da compra.”

Veja mais: Inovação e criatividade ajudam a superar qualquer tipo de crise, diz economista

Para Martinez, falta conscientização, principalmente do consumidor. O brasileiro não costuma comprar coisas e pensar em como vai jogá-las fora depois. Uma das saídas para minimizar esse descarte de itens com pouco uso ou sem desgastes é, justamente, o reuso.

“Identificamos que, de tudo o que se consome no e-commerce, 7% das mercadorias são devolvidas”, diz. Segundo números da consultoria especializada em comércio eletrônico e-bit, este é um mercado que gerou 53,7 milhões de pedidos em 2011, mexeu com 31,9 milhões e consumidores e registrou um faturamento de R$ 18,7 bilhões às empresas.

Destas devoluções, a maior parte é de mercadorias de consumidores que se arrependeram da compra (19%) ou que não tiveram suas expectativas atendidas (51%). “Ou seja, de produtos somente com a caixa aberta e com plena funcionalidade”, afirmou. Outros 24% são devolvidos por motivos de defeito.

A Reversa criou um meio de reutilizar estes itens. O site O Avestruz revende produtos eletrônicos, de informática, telefonia e linha branca “com preços entre 50% e 70% mais baixos do que os da loja”, conta.

São itens chamados open box, que foram tirados da caixa, mas não foram usados, ou com pequenas avarias – de geladeiras e micro-ondas com riscos e pequenos amassados a televisores com a tela danificada.

“Os descontos variam de acordo com a avaria, com o estado do produto”, diz. “Quem não se importar em ter uma geladeira com uma lateral riscada porque vai colocar dentro de um armário embutido, pode economizar 70% frente ao preço do novo. É um mercado de nicho de e-consumidores que buscam oportunidade de preço.”

Oportunidades

Não é só a logística reversa que pode se beneficiar do PNRS, mas toda a cadeia produtiva. “Uma empresa americana tem nos procurado para fazer justamente a manufatura reversa”, diz Martinez. “Uma companhia sueca quer fazer o recondicionamento de baterias de telefone celular, e o mercado de autopeças também tem oportunidades gigantes.”

“Há um ciclo infinito nessa área, porque ela engloba desde produtos até matéria-prima”, revela.

Apesar disso, ainda há outros tópicos sem definição no que diz respeito às empresas. “Um dos grandes desafios é lidar com produtos órfãos, sem marca e sem dono”, pondera Lopes. “Existe a possibilidade de o governo atrelar metas um pouco mais altas para que os fabricantes recolham o que estiver na frente [mesmo não sendo produtos seus] para alcançá-las.”

Nesse caso, corre-se o risco de criar um mercado paralelo de eletrônicos piratas descartados – o que derrubaria o controle sustentável da cadeia. “Essa é uma situação que tememos porque pode ocorrer o que houve com o mercado de pneus, em que começou a existir um mercado paralelo [remoldado] de venda com valorização desse material, o que onera todo o setor.”

registrado em: