#DiversidadeAmcham: saiba como você e sua empresa podem enfrentar as 'violências cordiais' do dia a dia

publicado 18/09/2019 19h02, última modificação 20/09/2019 12h09
São Paulo – Caio Carvalho (PwC) e Yasmin Vitória (Salesforce) detalham discriminação por trás de atitudes e comentários “amistosos”
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Da esq. para a dir.: Caio Carvalho (PwC), Liliane Rocha (Gestão Kairós) e Yasmin Vitória (Salesforce)

É o diálogo que ajuda a combater a agressão sutil contra as minorias. Mesmo que sejam inconscientes, as “violências cordiais” ou o “pseudocordialismo” são formas nem sempre veladas de discriminar grupos minoritários, explica Caio Carvalho, gerente de impostos da PwC e portador de baixa visão.

“O que mais presenciei e vivenciei de violência não é a física, mas uma pseudocordialidade. A pessoa acha que deficiência visual é um combo que vem com deficiência auditiva e mental junto. Então ela te trata igual a uma criança. Fala alto: olha, tem uma cadeirinha do seu lado!”, conta o executivo, no nosso Fórum de Diversidade em São Paulo (17/9), que debateu o tema "A Luta Continua: Dialogue, Exista e Resista". 

Caio participou do painel 'Existência' ao lado de Yasmin Vitória, mulher trans e estagiária de Client Success da Salesforce. Para ela, as violências sutis se institucionalizaram a ponto de ninguém questionar o porquê dos grupos minoritários não participarem da maior parte dos espaços de convivência. Liliane Rocha, CEO da consultoria de diversidade e sustentabilidade Gestão Kairós, moderou as discussões.

“Quando falo de micro violência e violência contra transgêneros, algumas delas são até cordiais. Existem pessoas que praticam violências cordiais contra nós achando que não estão sendo LGBTfóbicos ou racistas. Mas, de uma forma cordial, estão sendo as piores pessoas do mundo”, diz Vitória.

A agressão sistemática desestimula as minorias a ocupar espaços. Vitória admite que não se sente segura em frequentar certos lugares. “Pior do que levar um murro é justamente passar por questões psicológicas. Ela é somatizada e se acumula durante a vida. Porque você não fala de uma questão pontual, específica. Você fala de transfobia e racismo durante sete dias da semana e 24 horas por dia.”

As empresas têm papel fundamental na inserção da diversidade criando políticas antidiscriminação e oportunidades de carreira, reforça a profissional. Sem o apoio delas, ela conta que sua trajetória profissional seria ainda mais difícil. “É importante contar com os aliados dentro das empresas. Acredito no poder da colaboração”, destaca.

Escolha as batalhas

Contra o preconceito, é preciso saber lutar as batalhas contra o desconhecimento sobre as minorias, defende Carvalho. “Temos que escolher nossas batalhas e nos responsabilizar por vencer esse desconhecimento.”

O executivo conta um exemplo compartilhado em uma dinâmica de grupo onde todos tinham que contar uma experiência constrangedora de discriminação. Um deles relatou o caso do tio, deficiente físico que usava perna mecânica.

Carvalho conta que no supermercado onde fazia compras, o tio do rapaz dirigiu-se ao caixa preferencial. Como sua limitação não estava visível, a caixa chamou a atenção do cliente. Ele insistiu que era deficiente, mas a atendente não acreditou. Por fim, o cliente se descontrolou e abaixou as calças para mostrar que tinha uma perna mecânica. Ainda irritado, desencaixou a prótese do corpo e a atirou no chão.

Todos da dinâmica aplaudiram a atitude, menos Carvalho. Ele explicou que, quando a moça disse que o caixa era para deficientes, estava defendendo o direito deles.

“O tio do rapaz poderia ter explicado que usava perna mecânica e ter levado conhecimento a ela, porque também é nosso papel vencer esse desconhecimento. Do jeito que a situação ficou constrangedora, aquela moça provavelmente nunca mais vai querer passar por essa situação e vai deixar todo mundo passar no caixa preferencial.”

Os próprios deficientes foram prejudicados com essa atitude. Por mais difícil que seja, é preciso chamar para si a responsabilidade da conscientização, argumenta.

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