Gestão sustentável precisa se estender ao modelo de negócios

por andre_inohara — publicado 26/09/2011 14h19, última modificação 26/09/2011 14h19
São Paulo – Empresas necessitam criar formas de agregar economicamente às comunidades onde atuam, analisa pesquisadora da Fundação Dom Cabral

Embora as práticas de sustentabilidade tenham avançado em muitas empresas e façam parte de processos produtivos, ainda é preciso caminhar mais. Os conceitos de sustentabilidade têm de ser incorporados ao modelo de negócio, segundo a segundo a pesquisadora do Núcleo de Sustentabilidade da Fundação Dom Cabral (FDC) Roberta Paro.

A pesquisadora, que conversou com o site da Amcham em junho, quando participou de almoço de planejamento do Prêmio ECO, e voltou a ser consultada em 26/09, acredita que as empresas se depararão cada vez mais com o desafio de refletir sobre a incorporação de conceitos de sustentabilidade na própria gestão, e não apenas nos produtos que fabricam.

“Existe uma expectativa sobre o que elas assimilaram (em termos de sustentabilidade) e também o quanto isso foi transformado em novos modelos de negócios e relacionamento com parceiros e fornecedores”, afirmou Roberta.

O que se espera delas é um pouco mais de mudanças e adequação ao discurso da sustentabilidade. Ou seja, essa incorporação implica em reformulação do modelo de negócios, processo que ainda não está ocorrendo de forma acentuada, de acordo com a pesquisadora.

“Essa é uma etapa de mudança de paradigmas difícil de acontecer. Temos detectado algumas transformações graduais, mas é necessário algo mais qualitativo e que saia do patamar de pequenos incrementos pontuais”, assinalou.

Envolvimento da comunidade local

Em um modelo de negócios onde se prioriza o desenvolvimento sustentável, a inclusão e a formação de parceiros locais é uma forma de estender os benefícios da exploração econômica racional à comunidade.

“É preciso repensar em como uma empresa pode incluir fornecedores que normalmente não o seriam, e modificar a relação de negócios para incluir grupos”, defendeu Roberta.

Como exemplo, ela cita que uma companhia de agronegócio pode chegar em determinada região para produzir, escolhendo uma área e comprando as terras que julga necessárias à sua operação, de forma a adquirir escala de produção e uma relação custo-benefício interessante.

“E se, em vez de fazer tudo isso, ela considerar que há vários produtores pequenos e médios na região? Como a empresa poderia incluí-los em sua cadeia, levando em conta uma eventual dificuldade de logística de eles conseguirem entregar os produtos no padrão desejado?”, questionou.

Uma solução para integrar esses produtores seria a formação de parcerias com entidades públicas e privadas. “É possível negociar com uma instituição financeira para que ela conceda crédito ao pequeno empreendedor”, exemplificou Roberta.

Outra parceria possível seria com órgãos de assistência técnica local, como uma agência pública, para fornecer capacitação gratuitamente, acrescentou.

No modelo tradicional do agrobusiness, as grandes empresas costumam praticar agricultura extensiva, o que é objeto de muitas críticas, como o êxodo rural. Trata-se de um padrão que exclui os pequenos produtores, que vendem suas terras para as grandes redes e vão para as cidades à procura de empregos de baixa remuneração, avalia Roberta.

“Uma empresa poderia pensar em um modelo mais inclusivo quando conhece os impactos do seu negócio na comunidade. Isso sem falar nas questões ambientais, que ela tem que olhar também”, afirmou.

Prêmio ECO

Para Roberta, o Prêmio ECO, da Amcham em parceria com o Valor Econômico, pode ajudar a disseminar o exemplo de boas práticas em gestão sustentável. “Chegou o momento de exigir um pouco mais das empresas em termos de incorporação do modelo de negócios pensado na sustentabilidade”, defendeu.

A inovação do modelo tem de ser abrangente e desafiante. “Elas não podem pensar somente em questões periféricas, como linhas sustentáveis de produtos. Isso já é natural para a empresa”, disse.

Na edição deste ano, o Prêmio ECO tem duas modalidades: "Estratégia, Liderança e Inovação para a Sustentabilidade" (Elis), que se relaciona a modelos de negócios e estratégias mais amplas da empresa que incorporam o tema; e "Práticas de Sustentabilidade", subdividida nas categorias "Sustentabilidade em Produtos e ou Serviços" e "Sustentabilidade em Processos". A cerimônia de premiação está prevista para dezembro.

 

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