Jeremy Rifkin: Brasil deve ser um dos protagonistas na transição para era pós-carbono

por giovanna publicado 19/11/2010 18h12, última modificação 19/11/2010 18h12
São Paulo – País reúne condições naturais para avançar em energias renováveis e pode ser referência mundial, afirma economista.
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O Brasil tem tudo para exercer um grande papel de liderança na passagem para a era pós-carbono, que significará o fim da dependência dos combustíveis fósseis. Para ocupar essa posição, o País necessitará de planejamento estratégico para explorar mais fortemente as potencialidades em energias renováveis de que dispõe. Quem diz é Jeremy Rifkin, economista, mentor da Terceira Revolução Industrial e autor de 17 bestsellers, boa parte deles ligada ao tema da sustentabilidade. Ele foi o convidado de honra da cerimônia do Prêmio ECO 2010 nesta sexta-feira (19/11) na Amcham-São Paulo.

“O Brasil é o país mais rico em fontes de energias renováveis e será importante nesse processo. Para isso, precisará ser criativo, aprofundar o debate na sociedade e ter rapidez nas escolhas de investimentos inteligentes que levam a esse caminho. O Brasil pode se tornar o líder na América do Sul e um grande exemplo para o mundo nessa revolução”, destacou Rifkin a um publico de mais de 350 pessoas, entre representantes de grandes empresas, governo, entidades do terceiro setor e a imprensa.

Entre os atributos do Brasil apontados por Rifkin como chave para exercer esse papel de protagonismo, estão o sol, o vento, a capacidade hídrica e a riqueza do solo que produz a cana de açúcar, matéria prima do etanol, além de residuos de outros produtos agrícolas que podem ser usados como fonte de geração energética. “O Brasil ainda é abençoado por ter encontrado reservas do pré-sal e pode reverter esses ganhos no desenvolvimento de novas fontes energéticas.”

Na avaliação do especialista, quando o barril de petróleo atingiu o pico de US$ 174 em meados de 2008, ficou claro que o sistema econômico global baseado em combustíveis fósseis está chegando ao fim. Apesar das recentes descobertas de reservas dessa commodity, o crescimento da população global segue em ritmo mais acelerado, o que significa um descompasso, que é ainda mais agravado pela entrada de uma grande massa de novos consumidores oriundos dos países emergentes.

Rifkin salientou que a cotação elevada do petróleo impacta negativamente esse cenário, elevando os preços em toda a cadeia de abastecimento, aprofudando a miséria e causando fortes desequilíbrios no mercado financeiro. Outro aspecto negativo levantado por ele é a característica altamente poluente desse combustível, o que acentua o problema das mudanças climáticas no planeta. “Precisamos de uma nova visão econômica que seja prática, segura e justa tanto para os países em desenvolvimento quanto para desenvolvidos”, comentou.

Descarbonização da sociedade

Rifkin, que atua como consultor da União Europeia, elencou alguns pilares para nortear o processo de mudança amparada nas energias renováveis, o que ele define como Terceira Revolução Industrial ou capitalismo distributivo. Os europeus, segundo o economista, como já deram início a essas transformações, podem ser um modelo para outras nações no caminho da sustentabilidade.

O trabalho começa pelo estabelecimento de metas para a redução das emissões de carbono (CO2) – uma diminuição na casa dos 20% até 2020, no caso da Europa. O segundo passo é desenvolver novas maneiras de coletar energia – como solar, eólica e das marés – e implementar construções inteligentes, capazes se autoabastecer a partir dessas fontes.

Outra tarefa é desenvolver formas de armazenagem da energia que possam suprir o abastecimento em períodos de indisponibilidade das fontes (em caso de problemas sazonais,  como secas e inverno). Por último, a recomendação de Rifkin é criar uma rede de distribuição interligada, tal qual a Internet.

O prêmio

Na cerimônia do Prêmio ECO, Eduardo Wanick, vice-presidente do Conselho de Administração da Amcham e CEO da DuPont na América Latina, ressaltou que o conceito da sustentabilidade, cada vez mais, permeia a rotina da sociedade. “Até pouco anos, o conceito era muito teórico e distante, diferente de hoje, mais simples e presente, até porque ficou claro que, no sistema em vigor até então, a demanda adicional de consumidores dos emergentes não cabe no meio ambiente.”

Gabriel Rico, CEO da Amcham, destacou o papel da entidade de atuar como disseminadora de práticas sustentáveis nas corporações. “Esperamos que os trabalhos reconhecidos pelo ECO sirvam como referência de iniciativas a serem incorporadas por outras empresas.”

Presente ao evento, a senadora Marina Silva (PV-AC) concordou com o ponto de vista de Jeremy Rifkin, destacando a necessidade do Brasil de se debruçar sobre a agenda das energias renováveis. “Sempre digo que o Brasil reúne as melhores condições para fazer essa mudança e é preciso ter estratégia e não nos perdermos numa visão puramente gerencial, administrando o dia a dia, enquanto muitos países já estão se preparando para a terceira revolução industrial”, disse.

A senadora elogiou os projetos vencedores nesta edição do prêmio. “É um momento de celebrar os ganhos alcançados nas empresas nessa questão da sustentabilidade. Esta agenda vai muito além dos governos e cada um deve fazer a sua parte”, concluiu.

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