Negros não são minoria. São 56% da população que não estão em lugar nenhum, afirma reitor da Zumbi dos Palmares

publicado 04/10/2018 08h51, última modificação 04/10/2018 13h38
São Paulo – Para José Vicente, não há CEOs negros nem em empresas socialmente responsáveis

A população negra é maioria no Brasil, mas não tem a mesma representatividade nas empresas e sociedade, atesta José Vicente, fundador e reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares (FAZP). A falta de inclusão é provocada por um racismo pior que o da África do Sul e dos Estados Unidos, dispara o reitor.

“A questão do negro no Brasil é de interesse nacional. Não estamos falando de uma minoria, mas de 56% da população que não está em lugar nenhum”, afirma, no Fórum de Diversidade da Amcham-São Paulo em 27/9.

Para comparar, Vicente disse que não há nenhum alto executivo negro nas empresas brasileiras. “Você pode ver todo esse ambiente e puxar pela memoria. Ninguém aqui conhece um presidente ou vice-presidente negro em qualquer das empresas que se declaram socialmente responsáveis. E nenhuma das empresas que diz praticar sustentabilidade e diversidade tem negros, de A a Z.”

Vicente debateu a diversidade nas empresas com Victor Queiroz, diretor de Recursos Humanos do Bradesco, Caio Magri, diretor-presidente do Instituto Ethos, e Katielle Haffner, gerente sênior de sustentabilidade e categoria da Coca-Cola. Reinaldo Bulgarelli, fundador da Txai Consultoria, moderou o painel.

Apartheid e segregacionismo

É uma situação sem paralelos. “Nem no auge do apartheid sul-africano e (segregacionismo) americano, os números eram tão ruins”, critica. Para comparar, o reitor disse que, mesmo no antigo regime sul-africano, ainda havia iniciativas de inclusão.

“O (Nelson) Mandela se informou e desenvolveu suas atividades em uma África do Sul de apartheid. Aqui, precisamos de um programa para formar dez advogados negros para entrar nos escritórios. Porque lá não tem nenhum negro.”

Até no auge da segregação racial nos Estados Unidos (década de 1960) havia políticas sociais, comenta. “Tinha uma lei lá que dizia ‘Separados, Mas Iguais’: aqui está a sua universidade, sua igreja e o seu lote de terra. No Brasil, temos um estado de direito que diz que todos são iguais. Mas aqui os iguais são diferentes.”

Iniciativas de inclusão

Até agora, nenhum programa governamental ou empresarial aumentou a inclusão dos negros, comenta o reitor. “Quando significou, é para entrar no estágio, no jovem aprendiz e pronto, acabou. Não tem desenvolvimento, não vai para lugar algum e você não sai desse número de 1% a 2% de negro no mercado de trabalho ou dentro da empresa.”

A inclusão passa por representatividade e diálogo aberto. E mesmo não tendo resolvido completamente a questão racial, os Estados Unidos são exemplo de diversidade para o reitor. “Aqui você não tem o ambiente para tratar disso. Mas fui aos EUA e tive o prazer de estar na Coca-Cola de Atlanta. Lá o vice-presidente é negro, o diretor é negro. Isso é regularidade, é normalidade”, compara.

Para resolver a questão, Vicente disse que a sociedade precisa ser honesta. “Somos racistas, sim. E se quisermos produzir solução para esse problema, temos que fazer uma intervenção com os negros. Sob pena de a gente continuar patinando e os nossos indicadores não saírem do lugar.”

Convivência é a receita no Bradesco

No Bradesco, a convivência entre profissionais diversos é estimulada para criar boas relações. Muitos começam jovens e se aposentam no banco, conta Queiroz. “70% do aprendizado se dá no dia a dia, com a convivência. Isso permite às pessoas aprender umas com as outras. Tanto para os jovens como para os mais velhos, é uma forma de se abrir para o diferente”, disse.

Entre as ações de inclusão do Bradesco, está a parceria com a FAZP. Desde 2005, o banco recrutou 400 alunos da instituição para um programa de estágio de dois anos. O índice de contratação está em torno de 70%, detalha Queiroz. Alguns dos profissionais das primeiras turmas ocupam cargos de coordenação e consultoria, segundo o executivo.

Representatividade na Coca-Cola

No Brasil, a Coca-Cola trabalha com profissionais de diversidade e procura levar em conta as particularidades de cada grupo dentro de diretrizes mais abrangentes. “Nosso desafio esse ano tem sido olhar o tema de forma mais ampliada e ver o que faz sentido nos grupos de diversidade. E também dar representatividade a grupos diversos”, argumenta Haffner.

Dentro da abrangência das políticas, a empresa tem avaliado a questão com olhar interseccional – conceito da Sociologia que leva em conta que, em um grupo de pessoas, se entrecruzam características diversas. Entre elas, raça, classe social, gênero e idade. “Temos falado muito de interseccionalidade na Coca-Cola. Para nós, é uma jornada de aprendizado”, destaca Haffner.

Poder diverso

Para Magri, do Ethos, as eleições podem ser decisivas para a continuidade dos programas corporativos de Diversidade. As políticas de diversidade foram criadas por pressão popular e correm risco de retrocesso, caso o novo presidente seja contrário à inclusão.

Cabe às empresas e à sociedade continuar a pressão por igualdade, comenta. “Políticas públicas serão afetadas de maneira profunda, se não continuarmos construindo a afirmação de políticas democráticas, inclusão e redução das desigualdades. Temos que construir um poder diverso, com a sociedade civil sustentando a estabilidade democrática.”

Assista à íntegra: