Protagonismo sustentável do Brasil, nosso lugar na COP26

publicado 07/10/2021 18h42, última modificação 07/10/2021 18h42
Protagonismo sustentável do Brasil, nosso lugar na COP26

O protagonismo do Brasil como potência mundial nunca foi tão esperado como para a COP26 – 26ª Conferência das Partes da ONU sobre as mudanças climáticas – tanto que diversos líderes de importantes setores da economia nacional e mundial mantém em seus discursos o termo colaboração, ou seja, a união entre governo, iniciativa privada e sociedade civil é chave para assumirmos um lugar que merecemos. Mas afinal, o que o Brasil tem feito para assumir esse papel?

Chega a parecer lugar comum falar da importância de se definir e executar políticas para amenizar as mudanças climáticas, reduzir aquecimento global e promover uma economia mais sustentável. O fato é que estamos sentindo na pele as altas temperaturas em pleno inverno brasileiro, tempestades de areia e diversos outros fenômenos naturais decorrentes do problema que a própria população causou faz com que o evento da ONU em Glasgow, na Escócia, seja tão contemporâneo e necessário.

Quando o mundo passou a se atentar mais às mudanças climáticas?

Um dos marcos para discussão sobre os cuidados com o planeta e a necessidade de metas para amenizar as mudanças climáticas ocorreu em 2015, durante da COP21, onde mais de 190 países assinaram o Acordo de Paris, um tratado mundial que propõe metas para limitar o aumento da temperatura mundial em 1,5ºC, bem como recomendações aos países menos desenvolvidos para fiquem menos vulneráveis a eventos climáticos, estimular o suporte financeiro e tecnológico dos países desenvolvidos para que países em desenvolvimento realizem ações alinhadas ao cumprimento das metas em 2020 e proporcionar a cooperação entre sociedade civil, setor privado, instituições financeiras e comunidades para mitigar o aquecimento global. O comprometimento da iniciativa privada, sociedade civil e instituições financeiras têm acompanhado o cenário mundial na busca por soluções inovadoras e de conscientização da comunidade em geral no âmbito sustentável, havendo diversas iniciativas e debates entre as partes. Uma ação relevante, promovida por nós é o #BrasilPeloMeioAmbiente, que com um investimento previsto de mais R$12,7 bilhões para disponibilizar iniciativas sustentáveis e de preservação do meio ambiente e conta com centenas de iniciativas que já estão sendo conduzidas no Brasil.

Em um encontro entre executivos e autoridades internacionais, o presidente do nosso Conselho de Administração, Luiz Pretti, reforçou que, tanto a pandemia como os acontecimentos climáticos recentes, fizeram com que o mundo direcionasse seus olhos para o clima, uma vez que as mudanças climáticas ameaçam a existência do planeta.

O Líder do Conselho alertou que durante a COP26 diversas questões importantes devem ser debatidas, mas “duas são fundamentais, a primeira: a ambição de compromissos audaciosos para reduzir de maneira efetivas as emissões de carbono e assim mitigar as mudanças climáticas; a segunda questão é a agenda das finanças climáticas. É preciso garantir o fluxo necessário de recursos para viabilizar a transição global, em particular dos países em desenvolvimento, para uma economia verde, circular e neutro em emissões de carbonos até 2050”.

O compromisso da iniciativa privada e sociedade civil pode ser ressaltado ainda com o documento assinado por mais de 100 lideranças empresariais e de entidades do setor. No Empresários pelo Clima, diversas empresas, como as associadas da Amcham, Accenture, AES Brasil, Bain & Company, Banco BV, Cargill Agrícola S.A, Cosan, Chubb Brasil, Embraer S.A., EY, Grupo Bayer Brasil, HP Brasil, IBM, Mastercard, P&G, PwC Brasil, SKY Brasil, Schneider Electric Brasil, Votorantim Cimentos e Votorantim S.A, defendem ações para a redução de carbono, a viabilização de tecnologias e soluções verdes e o desenvolvimento do mercado de carbono.

Soluções sustentáveis: As empresas estão vendo possibilidades de inovação

Tais questões sobre clima e sustentabilidade abrem diversas oportunidades de inovação na maneira com que múltiplos setores da economia fazem uso dos recursos naturais e do solo, uma vez que a superfície do planeta é um dos principais depósitos naturais de carbono. O manejo do solo é um ponto de discussão na agricultura, já que é esperado cada vez mais um aumento de produtividade sem que haja aumento de áreas de cultivo, como ressalta, Malu Nachreiner, presidente da Divisão Crop Science da Bayer Brasil, uma das maiores multinacionais do mundo.

Malu afirma que o agricultor tem estado diretamente envolvido com soluções inovadoras no campo . Uma iniciativa da Bayer Brasil e Estados Unidos tem orientado produtores rurais com diversas práticas sustentáveis, através de uma rede de parceiros, visando aumentar a produtividade e rentabilidade de uma mesma área de terra. No Brasil, essa é uma iniciativa representativa, segundo Malu Nachreiner, “1800 agricultores vão fazer parte dessa jornada nesse ano. Esses 1800 agricultores somam com aproximadamente 215 mil hectares em 16 estados brasileiros”.

O uso inteligente do solo se mostra como grande oportunidade de inovação, de acordo com o diretor da Reservas Votorantim, David Canassa, “se tem um mecanismo, uma tecnologia para captar carbono é árvore. Árvore e solo, conservar bem os solos e toda a vegetação que está nele, ainda são as melhores tecnologias e mais baratas” para viabilizar práticas de cultivo sustentável. No entanto, Canassa, ressalta que embora haja um volume maior de pesquisas voltadas para conservação da Amazônia, é necessário um olhar para outros biomas, como a Mata Atlântica, por exemplo.

Para haver sustentabilidade é necessário haver investimento

Pauta consolidada entre as principais lideranças e autoridades mundiais, a viabilização de crédito para que países em desenvolvimento possam implementar políticas de redução de e neutralização de emissão de carbono - sendo inclusive base de boa parte das metas da ODS 17.

Uma meta que tem no setor privado respaldo para financiamentos para economias de baixo carbono, contando com linhas de crédito de grandes bancos mundiais nos financiamentos sustentáveis. Marcelo Marangon, CCO do Citi Brasil, um dos pioneiros em crédito para iniciativas sustentáveis, explica que os investidores estão cada vez mais atentos a clientes comprometidos com ESG e que as ações precisam ser de fato aplicadas, uma vez que há empresas certificadores que acompanham os relatórios socioambientais e são o crivo para liberação de novos créditos.

Richard Ridout, Chefe do Departamento de Clima e Energia da Embaixada do Reino Unido no Brasil, aponta que com a pandemia os bancos passaram a olhar para novos riscos no mercado econômico e que o risco climático é uma ameaça de curto, médio e longo prazo, sendo assim, Ridout ressalta “você hoje não pode conseguir um financiamento de forma substancial, se você não avaliar a emissão de carbono a longo prazo”. Algumas empresas tem identificado oportunidades de negócios e novas soluções frente a necessidade de se criar produtos sem carbono, no entanto é preciso que haja ainda mais financiamentos dos países desenvolvidos para que essas iniciativas ganhem vida em países ainda em desenvolvimento. Ridout ainda pontua que o Brasil é uma potência na agricultura e que é possível maximizar rendimentos através das terras.

O Estado na equação da sustentabilidade

No âmbito político, o Embaixador Paulino Neto, Secretário de Assuntos de Soberania Nacional e Cidadania do Itamaraty, mostra que o Brasil tem buscado alcançar resultados positivos e equilibrados para a Conferência da ONU que acontece em novembro de 2021, e ressalta o compromisso firmado no encontro com o presidente americano Joe Biden, em setembro de 2021, para zerar o desmatando ilegal até 2030. Houve também um encontro com o presidente da COP26, Alok Sharma, para alinhar as propostas do Brasil para a conferência, além de assumir o compromisso brasileiro com a implementação do acordo de Paris.

O Embaixador reconheceu ainda que há uma pressão do setor privado e sociedade civil, que inclusive o governo acredita que é saudável recebê-la e discuti-la, para que o Brasil assuma o protagonismo na implementação de políticas para amenizar as mudanças climáticas, tanto que o governo Federal anunciou 3 compromissos: a antecipação da nossa neutralidade climática de 2060 para 2050; a duplicação do orçamento dos órgãos de controle ambientais, para fins de operações de combate ao desmatamento e; o fim do desmatamento ilegal até o ano de 2030. Paulino Neto pontua ainda que embora exista uma dificuldade em combater o desmatamento ilegal, o governo tem se esforçado e que nos meses de agosto e setembro de 2021 houve uma sensível diminuição na taxa de desmatamento. Vale ressaltar que o desmatamento é um importante desafio para cumprimento das metas brasileiras do Acordo de Paris.

Como estamos diante do protagonismo esperado?

As ações promovidas pelo setor empresarial, com apoio de importantes entidades do setor coloca o Brasil em situação estratégica diante de outras grandes economias mundiais, sendo relevante destacar, ainda, o bom relacionamento entre outros países, o que facilita as relações de cooperação entre as partes e viabilização de soluções que contribuam para as metas propostas no Acordo de Paris.

Cada vez mais as empresas irão buscar assumir o compromisso de emissão zero de carbono, uma vez que os bancos estão cada vez mais atentos aos riscos oferecidos pelas mudanças climáticas nos próximos anos. A sociedade consumidora e até mesmo produtiva vem exigindo produtos sem carbono e fazendo com que as empresas passem a perceber que é mais barato implantar energia renovável do que construir uma plataforma de petróleo, por exemplo, conforme explica Richard Ridout.

Vale destacar ainda que no Brasil, assim como acontece nos países desenvolvidos, a comunidade científica tem contribuído ativamente para o desenvolvimento de soluções em parcerias com empresas privadas, sendo essas responsáveis por conduzir estudos de dados, aplicação de técnicas e desenvolvimento de tecnologias para apoio na tomada de decisões que resultem em redução da emissão de carbono.

O crivo ESG também faz com que as empresas estejam massivamente comprometidas com as soluções sustentáveis, um exemplo no qual somos referência global, por exemplo, é o Sistema Campo Limpo, onde através de logística reversa 93% das embalagens de agrotóxicos que são utilizados na agricultura voltam de alguma forma para a cadeia produtiva e os outros 7% acabam tendo uma destinação para eliminação adequada.

O outro exemplo a ser destacado no cuidado com o meio ambiente é no setor da mineração, que ainda é essencial para a cadeia produtiva e, assim como outros setores da economia, enfrenta desafios durante seu processo produtivo como tratamento de resíduos, redução do consumo energético, implantação de logística reversa dos produtos gerados, e cuidado com a preservação florestais nos entornos das áreas de exploração. David Canassa conta que, nas áreas de mineração das empresas onde trabalha há, por exemplo, o reaproveitamento de resíduos na agricultura como o caso em que ocorre a mineração de alumínio. Ao fazer a retirada do solo o mesmo passa a ter um aumento de produtividade. Em relação às florestas no entorno das áreas de exploração também há oportunidades, como o múltiplo uso da terra além da possibilidade de pensar em novos negócios para serem trabalhados no local enquanto a mineração está operando.

O protagonismo da economia sustentável já está acontecendo

Embora haja uma expectativa dos empresários e de autoridades que o Brasil, como nação, seja protagonista na COP26 no âmbito de mostrar a potencialidade das ações promovidas através de políticas públicas, a contribuição promovida pelos outros atores da equação devem ser fundamentais para que o país assuma esse papel internacionalmente. Assim como recomenda o Acordo de Paris, os diversos encontros promovidos pelas entidades empresariais e pela sociedade civil, bem como os incentivos bancários para o financiamento de soluções sustentáveis colocam o Brasil em uma situação extremamente favorável frente ao compromisso de reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa e principalmente no compromisso de dialogar e fomentar o desenvolvimento tecnológico para mitigar o aquecimento global.

Por fim, algo que foi comum no discurso tanto de autoridades nacionais e internacionais, como de empresários no encontro que antecede a COP26 realizado por nós em parceria com Um Só Planeta, o Brazil institute do Wilson Center e apoio do Eurasia Group, que foi o pedido de uma economia colaborativa mostrou que é o nosso grande diferencial na hora de colocar a mão na massa e implementar soluções que visam promover o bem estar do planeta.

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