Racismo faz mulheres negras concorrerem entre si pelas mesmas (e poucas) vagas, diz Gaby Amarantos

publicado 28/09/2018 12h01, última modificação 01/10/2018 17h19
São Paulo – Para comerciais de beleza, disputa é sempre entre as mesmas celebridades negras, diz cantora

Independente da profissão e status social, o racismo atinge as mulheres negras com a mesma intensidade, atesta a cantora e apresentadora de TV Gaby Amarantos. “Uma das coisas mais difíceis e injustas que o racismo faz com a gente é que acabamos tendo que disputar as mesmas vagas. Quem é negra, sabe do que estou falando.”

Gaby expôs alguns desafios que passa em sua trajetória profissional a uma plateia de mais de 300 executivos e profissionais que estiveram no Fórum de Diversidade da Amcham-São Paulo na quinta-feira (27/9).

Como influenciadora, a cantora é chamada para fazer comerciais de beleza, mas encontra um mercado restrito para etnias. “Porque no comercial tem que ter uma mulher negra, senão vai ficar feio, né? Então tem que chamar”, cutuca.

O padrão de beleza das mulheres negras ainda tem pouco espaço no mercado publicitário, lamenta a cantora. “Agora o Brasil está entendendo que também sou bonita. Sempre soube que era, mas só que a beleza que a gente vê na televisão não é a minha.”

Para os comerciais, são sempre as mesmas celebridades no segmento, segundo a cantora. “Essa negra que vai ser chamada disputa a vaga com mais outras dez colegas. Que, na maioria das vezes, são minhas amigas. A Taís (Araújo), a Juliana Alves. Então a gente, que é mulher negra, acaba disputando entre nós.”

O fato de concorrer com pessoas queridas incomodava a cantora. “Isso começou a me deprimir de uma forma, que liguei para outra amiga, a (filósofa) Djamila. Desabafei com ela, disse: olha isso que está acontecendo, tá muito feio. O que a gente vai fazer?”, indaga.

Por mais famosa que seja, Gaby conta que se sentia vulnerável e foi aconselhada por Djamila a se abrir com uma psicóloga. “Não sou intocável. Quero abrir que sou uma pessoa que sofro, que chora. Igual a vocês.”

Gaby disse que sempre lidou com racismo velado e explícito durante sua vida, mas admite que um episódio a atingiu em cheio. Em junho, a cantora sofreu violentos ataques racistas nas redes sociais depois de criticar o apresentador Silvio Santos por suas piadas de teor racista, homofóbico e machista.

Acolhimento

Apesar de ter toda a estrutura material e psicológica, Gaby disse que o mais importante foi ter recebido apoio das colegas do programa Saia Justa, da Globonews, para superar o episódio. “Precisei de uma coisa muito simples, que é o acolhimento.”

O mesmo vale para as empresas, defende Gaby. “É preciso entender a pessoa que é diferente, não é só convidar. Tem que acolher, porque ela precisa de compreensão. Você, que é CEO de empresa e tem um colega diferente, tem que acolher.”

Para a cantora, é preciso continuar defendendo a diversidade, por mais difícil que seja. “Quando a gente estiver falando coisas que doem, que são duras, não está falando isso porque a gente quer causar. Ou porque quer lacrar. A gente está falando, porque quer ver as coisas mudarem.”

Assista à íntegra: