Responsabilidade socioambiental agrega valor à identidade das empresas e gera oportunidades

por agrimaldo — publicado 31/10/2010 14h18, última modificação 31/10/2010 14h18
Porto Alegre - Especialistas debateram o tema em seminário promovido pela Amcham.

As companhias apostam cada vez mais na responsabilidade socioambiental como forma de agregar valor às suas identidades. Atualmente, os consumidores, ao adquirirem produtos ou contratarem serviços, buscam alinhamento com valores e compromisso ético das empresas. A avaliação é de Claudia Lorenzo, diretora de Negócios Sociais da Coca-Cola Brasil e diretora executiva do Instituto Coca-Cola Brasil.

 

“Existe uma mudança da sociedade. A criança de agora está aprendendo para se tornar um adulto com mentalidade sustentável. Esse será o futuro e a demanda será por ações responsáveis”, afirma Claudia, que esteve presente na quinta-feira (14/10) ao START – Seminário de Sustentabilidade. O evento foi realizado pela Amcham-Porto Alegre em parceria com a Net Impact, rede que visa criar líderes para a nova geração.

 

Acreditando na ideia de unir sustentabilidade e lucro, a Coca-Cola Brasil criou, há menos de um ano, a área de Negócios Sociais.  “Estamos presentes na vida de 80% dos brasileiros de todas as rendas. Queríamos agregar mais valor à empresa e capturar melhor as oportunidades. Vimos então que gerar benefício social seria um bom negócio para a Coca-Cola também, pois contribuiríamos positivamente para a vida de grande parte do nosso público”, explica Claudia.

 

Um dos projetos mais recentes da gigante de bebidas é o Coletivo, que, em conjunto com Organizações Não Governamentais (ONGs), capacita jovens em áreas de baixa renda social para que consigam empregos na rede de parceiros da companhia. Em troca, os jovens estimulam maiores vendas do refrigerante dentro de suas comunidades.

 

Claudia acredita que qualquer empresa pode buscar esse tipo de perspectiva, bastando criatividade e pensar sempre em como levar benefícios através de seu negócio. “Projetos sustentáveis possuem muito apoio do governo e das companhias. Há verbas públicas e privadas disponíveis. O que falta são boas ideias”, pontua.

 

Conceito

 

Para que um empreendimento seja considerado sustentável, necessita ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo, culturalmente aceito e cumprir com os deveres éticos.  Líderes da prática destacam, no entanto, a falta de entendimento pela sociedade sobre essas cinco vertentes. “Não entendo por que a iniciativa ambiental é mais visada em detrimento das sociais e culturais. Existe uma discussão enorme sobre isso”, revela Claudia, diretora da Coca-Cola.

 

Ela vê a confusão como resultado da compreensão por muitos gestores de que benefício social é uma forma de assistencialismo ou filantropia. “Devido à responsabilidade social, criou-se uma mentalidade de que tudo o que é social serve apenas para responder à sociedade ou diminuir a culpa por ter resultados financeiros. Gerar negócio é benefício social; ao mesmo tempo, é um processo muito novo. Temos um enorme caminho a percorrer”, acredita.

 

Caso Braskem

 

O diretor de Desenvolvimento Sustentável da Braskem, Jorge Soto, também presente ao encontro da Amcham, acredita que os pequenos e médios empresários ainda têm medo de investir em sustentabilidade, pois acham que isso pode ser uma ameaça às suas finanças. Ele alertou, porém, que os ganhos proporcionados à sociedade e as oportunidades de novos negócios são diferenciais competitivos no mercado.

 

Este é o caso da Braskem, que inovou com o recente lançamento de um polo de produção de energia renovável em Triunfo, Rio Grande do Sul. “Foi uma decisão estratégica da Braskem ser sustentável. Corremos riscos e investimos R$ 140 milhões em ações socioambientais de 2005 a 2008. Felizmente, acertamos”, diz Soto.

 

Outra questão importante para o sucesso da Braskem foi a decisão tomada na hora certa. Soto conta que, na década de 1970, uma das fábricas, localizada em Alagoas,  produziu eteno a partir de álcool pela primeira vez, contudo a ideia foi abandonada porque não era viável economicamente. “Naquele tempo, pagar mais caro por energia limpa não era importante para o mercado. Já hoje, o consumidor gasta mais em um produto que faça diferença na sociedade. Tivemos de esperar este momento”, explica ele.

 

 

Cenário no Brasil

 

O Brasil, historicamente, com os programas que já desenvolveu e por sua geografia, tem um referencial de sustentabilidade positivo em relação aos demais países do Bric, destacou Jorge Soto. Por contar com riqueza hídrica e solo fértil, o País reúne condições para produzir alimentos e matérias primas para energia renovável.

 

Soto diz que há muito espaço para outras empresas investirem em energia limpa, já que hoje somente uma parcela de 18% da terra arável brasileira é destinada à agricultura e apenas 1% é voltado para a cana de açúcar. “Temos muito espaço para ocupar, ainda mais com os avanços da tecnologia voltados a produzir álcool a partir de celulose, o que possibilitará o uso de todos os resíduos de agricultura para a produção de energia”, comemora o engenheiro.

 

No seminário, os especialistas aproveitaram para discutir que algumas normas já estão sendo adotadas pelo governo federal para que, cada vez mais, as empresas assumam práticas sustentáveis. É o caso da nova Lei de Resíduos Sólidos, que exigirá maior responsabilidade das empresas em relação à logística reversa, e da Norma Internacional de Responsabilidade Social (ISO 26000), que deverá ser lançada em dezembro deste ano.

 

Claudia, da Coca-Cola, ressaltou que o mundo já se convenceu da importância de ser sustentável e que o Brasil vive iniciativas pontuais sobre o tema. “O que se vê são iniciativas pessoais e crenças isoladas de sustentabilidade. Precisamos transformá-la em prática efetiva no País”, afirma.

 

START

 

Foram mais de 300 inscritos no START, entre gestores, representantes do governo e estudantes. O evento contou com participação também de Rodrigo Baggio, fundador do Comitê para Democratização da Informática (CDI), e Dal Marcondes, ganhador do Prêmio Ethos de Jornalismo 2006 e 2008. A mediação ficou por conta de Cid Alledi, sócio-gerente da Núcleo Ético.

 

Ainda como parte do seminário, Alledi apresentou uma pesquisa realizada em 2010 pela agência de Relações Públicas Edelmam, que aponta as práticas honestas e transparentes como responsáveis por 83% dos fatores da boa reputação corporativa no Brasil. O professor ressaltou a importância de ser ético e fazer sustentabilidade com verdade. “Vivemos em um mundo 2.0, conectado com as redes sociais. As coisas não podem mais ser varridas para de baixo do tapete, pois alguém descobrirá.”

 

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