Visão de ganhos em curto prazo atrasa implantação de modelos de gestão sustentável

por andre_inohara — publicado 17/05/2011 14h23, última modificação 17/05/2011 14h23
André Inohara
São Paulo – Necessidades de gestão ecoeficiente e engajamento com públicos estratégicos são tendências no discurso, mas ainda estão longe da prática na maioria das companhias, analisa consultor
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A discussão sobre modelos de produção mais sustentáveis tem ganhado espaço nas empresas, amparada por instituições multilaterais e especialistas em sustentabilidade, que defendem e justificam economicamente sua implantação. Sua adoção, no entanto, ainda é relativamente baixa em função de ainda predominar em boa parte do meio corporativo uma visão de ganhos no curto prazo.

“As necessidades de investimento social, gestão ecoeficiente e engajamento com os públicos estratégicos (funcionários, clientes, fornecedores etc.) são tendências consagradas no discurso, mas ainda estão longe da prática na imensa maioria das companhias”, comentou o consultor em responsabilidade sócio-ambiental e sustentabilidade, Aron Belinky, que participou de reunião de planejamento do Prêmio ECO 2011 na Amcham-São Paulo em 05/04.

Ele observa que "o sistema atual de gestão dos acionistas enfoca muito a maximização de retornos em prazos curtos, com todas as consequências que isso tem para a sustentabilidade”.

As empresas enfrentam um duplo desafio em relação à sustentabilidade, disse o consultor: começar efetivamente a colocar em prática o que sabem necessitar ser feito e entender as grandes tendências da sustentabilidade.

Tendências para a sustentabilidade

Há três discussões predominantes, segundo Belinky, originadas pela criação de normas e estudos sobre a importância e a viabilidade dos modelos de práticas sustentáveis.

A norma internacional de qualidade ISO 26000 sobre responsabilidade sócio-ambiental, e a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) ‘Rio+20’, que tratará do desenvolvimento sustentável a partir de junho de 2012, na cidade do Rio de Janeiro, são os grandes direcionadores.

A primeira tendência apontada por Belinky é a integração da responsabilidade social no conjunto de atividades da empresa. “Isso é o reflexo mais evidente da norma ISO 26000, ao trazer a visão integrada de gestão socialmente responsável”, afirmou.

Publicada em dezembro de 2010, a norma traz diretrizes de uso voluntário para uma gestão socialmente responsável. “Responsabilidade social é gerir bem uma companhia. Isso representa melhores resultados, mais estabilidade, retenção de funcionários e reconhecimento da sociedade”, disse Belinky.

A segunda tendência trata do desacoplamento (decoupling, em inglês), ou seja, aumentar o bem estar das pessoas sem sobrecarregar o uso dos recursos naturais.

“Nesse conceito, um empreendimento próspero cria renda e bem-estar para a sociedade”, indicou o consultor. “Ao mesmo tempo, não gera impactos negativos com uso de recursos naturais e descarte de resíduos na mesma proporção”, acrescentou.

A terceira tendência envolve o posicionamento estratégico das empresas. “Se o planejamento de longo prazo não levar em conta o impacto ambiental do aumento de produção, então a companhia será mais uma a contribuir para as coisas continuarem do jeito que estão.”

Economia verde dá lucro

As duas últimas tendências se alinham ao tema da Rio+20, economia verde e desenvolvimento sustentado.  Um dos princípios da economia verde é que é possível produzir mais e ao mesmo tempo ser mais eficiente na utilização de recursos naturais.

Um estudo da ONU, chamado “Rumo a uma Economia Verde: Caminhos para o Desenvolvimento Sustentável e a Erradicação da Pobreza – Uma Síntese para Tomadores de Decisão” e publicado em fevereiro deste ano, afirma que a economia verde pode ser iniciada ao se investir 2% do PIB (Produto Interno Bruto) global (US$ 1,3 trilhão) até 2050 em dez setores-chave da economia.

Ou seja, um aporte da ordem de US$ 1,3 trilhão em agricultura, edificações, energia, pesca, silvicultura, indústria, turismo, transporte, água e gestão de resíduos seria capaz de transformar o modelo econômico atual de consumo desenfreado de matérias-primas para uma economia de baixo carbono e maior eficiência de utilização dos recursos do meio ambiente.

De acordo com a ONU, investimentos verdes não gerariam apenas crescimento e renda em capital natural, mas também produziriam maior crescimento do PIB e do PIB per capita em um espaço de cinco a dez anos. Parte do resultado viria dos avanços da eficiência energética.

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