Angola quer desenvolver sua economia com apoio de capital e tecnologia do setor privado brasileiro, indica embaixador

por andre_inohara — publicado 06/02/2013 16h43, última modificação 06/02/2013 16h43
São Paulo – Oportunidades mais promissoras estão em agronegócios, energia e serviços; África tem potencial para ser o principal parceiro comercial do Brasil dentro de 20 ou 30 anos, avalia diplomata.
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Uma das economias mais dinâmicas do sul da África, Angola deseja estreitar parcerias comerciais com o Brasil. O país busca maior desenvolvimento nas mais variadas frentes – indústria, infraestrutura e serviços – e, para isso, quer contar com o capital e o conhecimento do setor privado brasileiro.

O incremento das trocas comerciais seria um impulso para Angola diversificar e desenvolver sua indústria, argumenta Nelson Cosme, embaixador do país africano no Brasil. O diplomata participou do comitê estratégico de Governança Corporativa da Amcham-São Paulo nesta quarta-feira (06/02), e falou ao site da Amcham após o encontro.

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“Temos sido uma das locomotivas da África Central e Austral (sul), e o Brasil foi o primeiro país a conhecer [o potencial econômico de] Angola. Seria importante mudar as características em termos de trocas comerciais [entre Brasil e Angola], e que o empresariado brasileiro tirasse mais proveito do imenso potencial de parcerias”, observa Cosme.

Na visão do diplomata, esse caminho traria ganhos importantes também para o Brasil. Uma inserção maior na África representaria um relacionamento comercial mais intenso com um continente de 1 bilhão de habitantes e que caminha para a estabilidade política e econômica – sendo que  alguns países têm se destacado na tarefa de apoiar as instituições democráticas e criar um ambiente de negócios mais propício, caso de Angola.

“Dentro de 20 ou 30 anos, estimamos que África será o principal parceiro [comercial] do Brasil. É importante construir hoje um posicionamento maior, de forma a que as empresas brasileiras não fiquem de fora dessa relação”, reforça o embaixador.

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Oportunidades de negócios

Cosme trabalha na ampliação da pauta de comércio bilateral, atualmente concentrada em petróleo, derivados e alimentos. Há muitas áreas estratégicas em Angola que poderiam ser mais bem aproveitadas pelos brasileiros, aponta o embaixador.

Uma delas é o agronegócio. O acordo de desenvolvimento agrário do governo angolano com a Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), assinado em 2008, introduziu técnicas que melhoraram a produtividade do arroz, milho, feijão e soja, abrindo caminho para o plantio dessas culturas de forma mais rentável.

A tecnologia de plantio que chegou a Angola com a Embrapa é um exemplo que Cosme gostaria de ver replicado. “Queremos que as trocas comerciais com o Brasil também representem transferência de tecnologias para nossas indústrias e melhorem o valor agregado dos produtos”, aponta ele.

Além da atividade agro alimentar, há muito a explorar em beneficiamento de insumos (indústria de transformação), bens de capital, mineração, energia e infraestrutura, enumera Cosme. “Outro segmento importante é o de serviços, com capacitação profissional e treinamento”, comenta ele.

O longo histórico de relacionamento e a afinidade cultural com o Brasil são fatores que ajudariam na adaptação das empresas na África, e acelerariam o processo de desenvolvimento industrial em seu país, avalia Cosme.

“Temos um país com base de produção mais diversificada, e o Brasil pode contribuir para dar mais complementaridade à produção e transformar a relação comercial centrada em um ou dois para dez produtos”, estima ele.

Angola como porta de entrada para a África

Com acordos comerciais fechados com 54 dos 55 países africanos [exceto o Sudão do Sul, criado em 2011], Angola pode servir de plataforma logística para as demais nações, afirma o consultor Francisco Marcos Dias, da InterService Consultoria e Formação.

Ele também ressaltou as amplas necessidades angolanas. “Cerca de 97% dos produtos para o mercado interno são abastecidos por importações.” É por isso que o país está construindo grandes zonas industriais para atrair esses investimentos. “Eles não querem mais só o produto, mas também a fábrica”, acrescentou Dias.

Há muito espaço que a indústria brasileira poderia ocupar rapidamente. “Portugal é o maior exportador de óleo de soja para Angola. O detalhe é que, como Portugal não tem soja, compram do Brasil para revender na África”, exemplifica Dias.

No futuro, Angola vai demandar serviços em todas as áreas. “Os chineses já estão lá, oferecendo coisas que sabemos fazer melhor. Estamos deixando de ocupar espaço, o empresário brasileiro precisa conhecer mais a África e ousar”, acrescenta o consultor.

 

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