Apex: sem melhorar capacidade produtiva, promoção comercial é insuficiente para aumentar exportações

publicado 18/04/2017 16h31, última modificação 19/04/2017 10h42
São Paulo – Ser competitivo é mais determinante do que acordos comerciais, diz Roberto Jaguaribe (Apex)
Roberto Jaguaribe

Roberto Jaguaribe, da Apex-Brasil: há perspectivas de que acordo Mercosul – União Europeia avance em 2017

A entrada de produtos brasileiros nos mercados globais não depende apenas de acordos comerciais globais ou esforços de marketing, destaca o embaixador Roberto Jaguaribe, presidente da Apex-Brasil (Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos). “O segredo do intercâmbio comercial é a geração de competitividade e capacitação. Precisamos de mais competitividade na produção, para termos a pretensão de entrar de forma mais clara em mercados fora do Brasil”, disse Jaguaribe, no discurso de abertura do seminário ‘Caminhos para Alavancar o Comércio Exterior Brasileiro’ da Amcham – São Paulo, na terça-feira (18/4).

“Também não adianta pensar que os acordos comerciais automaticamente serão a solução do processo. Tampouco adianta colocar rios de dinheiro na promoção comercial e dotar a Apex com recursos superiores, que vou fazer milagres no marketing e na promoção”, continua.

Tatiana Prazeres, conselheira sênior da Diretoria Geral da Organização Mundial do Comércio e ex-secretária de Comércio Exterior do MDIC (Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços), também participou do debate sobre a inserção do Brasil nos mercados mundiais.

De acordo com Jaguaribe, os países que mais exportam tiveram que preparar interna e gradualmente para a conquista de mercados. “Eles buscaram se capacitar localmente e depois regionalmente. Quando eram muito ambiciosos, se preparavam nacionalmente.”

A China é um caso exemplar, segundo o embaixador. “Ela se tornou a maior exportadora mundial porque tinha uma política externa de capacitação e competitividade. Chegou lá sem ter feito nenhum acordo de comércio com os países que mais se relaciona”, afirma.

Investir em capacidade produtiva é o mais importante para conquistar mercados. É por esse motivo que Jaguaribe relativiza a importância de grandes tratados de comércio como indutora de exportações. “Existe a tendência natural de acreditar que os acordos necessariamente conduzem ao aumento do comércio exterior. É uma regra geral válida, mas extremamente exagerada.”

Sem investir em melhorias de infraestrutura e reduzir burocracias e o custo-Brasil, o país não terá condições de explorar toda a sua capacidade produtiva, segundo Jaguaribe. Por outro lado, o embaixador elogia as ações do governo de promover o maior numero de entendimentos comerciais.

Há, por exemplo, perspectivas positivas de que o Brasil avance no acordo com a Uniao Europeia. “Até o fim do ano, temos expectativa de que a parte política do entendimento seja costurado no âmbito do Mercosul. O interesse europeu se aguçou em função da instabilidade que veem do outro lado do Atlântico [referindo-se aos EUA]. A relação entre as duas economias está turbulenta”, opina.

Segundo Prazeres, a política comercial dos Estados Unidos e a saída do Reino Unido da União Europeia são fatores que acirram o ambiente de incerteza no mundo. “Ainda não conhecemos as diretrizes do governo Trump para o comércio mundial, e há um sentimento antiglobalização e anti-comércio. Nessas horas, a OMC, como organismo multilateral, se torna mais importante do que nunca.” Apesar de não ser um dos grandes exportadores mundiais, o Brasil tem voz ativa na organização, destaca Prazeres.