Brasil tem que trocar protecionismo por políticas consistentes de exportação, aponta especialista

por giovanna publicado 24/01/2012 19h34, última modificação 24/01/2012 19h34
São Paulo – Recomendações incluem avançar na exploração de vantagens competitivas naturais e ampliar diversificação de pauta e destinos.
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Em um cenário de crise global, com queda da demanda nas maiores economias, o Brasil tem um grande desafio no que diz respeito ao comércio exterior: em vez de apostar em protecionismo, dar maior consistência à sua política para a área externa, avançando na exploração de vantagens competitivas naturais e apostando na diversificação – tanto da pauta exportadora e como dos destinos.

A recomendação é de Lia Valls Pereira, economista do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia), da FGV (Fundação Getúlio Vargas), e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Segundo ela, que participou nesta terça-feira (24/01) do comitê de Comércio Exterior da Amcham-São Paulo, o governo já sabe as medidas capazes de incentivar as exportações. Falta colocá-las em prática.

“Os diagnósticos já são discutidos há muito tempo”, analisa Lia. “O governo mesmo tem vários programas para incentivar a melhoria da qualidade das exportações. Faltam disseminação da informação, continuidade desses programas.”

Segundo a professora, dar subsídio para exportação não é algo que faz sentido. “O Brasil tem outras prioridades. Temos que identificar com clareza o que temos de medida de comércio exterior e acompanhar”, defende. “São medidas voltadas a melhorar a produtividade e crescer de forma mais eficiente.”

Diversificação

Falando sobre as “Perspectivas para o Comércio Exterior brasileiro diante da crise internacional”, Lia defende que um dos pontos para garantir progressos em comércio exterior é o aumento da participação em cadeias produtivas globais e regionais.

Outro ponto-chave é a diversificação. “Temos que saber diversificar, pensando no médio prazo, num horizonte de três a cinco anos, porque não se muda uma pauta de exportação no curto prazo.”

O ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, que preside o comitê e hoje atua como consultor de comércio internacional, analisa que o Brasil se acomodou e deixou suas exportações se concentrarem em produtos e países. “Houve participação muito maior de básicos, em consequência da valorização de umas poucas commodities que ganharam maior espaço na pauta de exportação.”

Luis Afonso Lima, diretor presidente da Sobeet (Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica) e economista-chefe da Telefônica, diz que, além de acabar com o chamado “Custo Brasil” (a burocracia que pesa e a infraestrutura precária), o País precisa chegar a destinos que ainda não alcançou.

“A diversificação é sempre melhor para quem está exportando. Isso torna um país menos vulnerável a problemas específicos em determinadas regiões do mundo”, avalia. “Hoje a crise está acontecendo em várias frentes, não só na Europa. No momento em que principalmente os países desenvolvidos que já são nossos importadores estão sofrendo mais, vale a pena mirar outras regiões e novos mercados para os quais exportamos menos ou não exportamos – caso de alguns países do Oriente Médio – e também passar a priorizar produtos que exportamos pouco, como manufaturados.”

Subaproveitamento

O próprio mercado interno aquecido faz muitas empresas preferirem não exportar, avalia Lima. “Nessa situação, vale a pena o governo brasileiro pensar em incentivar, seja por meio de tributo, financiamento ou estruturas de regulação, a exportação desses produtos”, assinala. “Vontade de exportar sempre existe.”

Ele cita a China como exemplo de oportunidade subaproveitada. “Os chineses sabem muito bem o que querem de nós, mas não sabemos o que queremos deles”, aponta.

“Temos que oferecer produtos de maior valor agregado, aproveitando a pujança da economia chinesa para o financiamento da nossa infraestrutura. Há diversas oportunidades que não estamos sabendo aproveitar.”

Lia defende a exploração de vantagens competitivas naturais (com adição de valor, criando verdadeiros complexos produtivos, como, por exemplo, em biocombustíveis) e a diversificação rumo a outros setores pouco explorados, caso dos serviços, que ainda têm grande potencial de crescimento.

“Hoje nossa pauta é muito ‘primarizada’. Há uma concentração em commodities, cujo preço depende basicamente da demanda mundial”, afirma ela. Isso significa, segundo os especialistas, que o Brasil não pode mais depender só de exportar minério de ferro para a China, por exemplo.

Cenários

Lia trabalha com duas projeções para o comércio exterior. “Nosso cenário base é de moderado crescimento do Brasil, em que a crise na Europa não contamina o sistema financeiro. Mesmo que a demanda mundial caia, o preço das commodities diminuirá de forma moderada.”

Ela lembra que, depois de despencar em 2009, “houve esse aumento surpreendente no preço das commodities até 2011, o que explica o resultado positivo [da balança no ano passado]”.

A balança comercial brasileira saiu de um cenário de pessimismo para o de otimismo: em janeiro de 2011, a previsão era de que saldo teria um superávit de US$ 9,6 bilhões, mas ele bateu em US$ 29,7 bilhões. Entre 2010 e 2011, os preços aumentaram 28,9%, com grande destaque para os minerais e os combustíveis.

“Mas olhando para Estados Unidos e Europa, é esperada [agora] uma piora, uma desaceleração do comércio mundial”, analisa.

Nessa perspectiva, o superávit comercial brasileiro ficaria em 2012 entre US$ 10 bilhões e US$ 23 bilhões.

Numa segunda alternativa de cenário, de crise total, “os preços das commodities vão despencar, os mercados latinos, se contrair, e o saldo da balança comercial ter superávit mais reduzido, na casa dos US$ 8 bilhões”. O déficit em conta corrente é afastado pela especialista. “É muito difícil, mas é importante saber se esse superávit menor é financiável ou não.”

Financiamento

Luis afirma que os financiamentos externos tendem a diminuir e, pela primeira vez, o Brasil pode não ter a balança de pagamentos financiada por investimento estrangeiro.

“O financiamento do balanço de pagamentos vem sendo feito há anos por meio de investimentos diretos estrangeiros, em que o déficit em transações correntes é sempre superado pela entrada de investimentos. Em 2012, pela primeira vez isso não irá acontecer”, relata.

“Teremos uma redução das reservas internacionais. Mas isso não é um drama agora, ao contrário do que ocorreu nos anos 1980 com o financiamento do balanço de pagamentos, porque hoje temos reservas, um colchão grande, que pode ser uma solução”, diz.

Lima afirma que a maior parte do financiamento das exportações brasileiras era feita com capital externo, principalmente de bancos europeus, que estão mais preocupados atualmente em mostrar que podem sobreviver à crise.

“Em relação ao trade finance, as perspectivas não são boas no mundo. O principal motivo é a situação dos bancos europeus, que concentram uma boa parte desse financiamento”, afirma. “As instituições devem fazer um esforço [em 2012] para se recapitalizar, e isso pode forçar uma venda de ativos e o adiamento de novos empréstimos e financiamentos. Com isso, há séria ameaça de cortes [no crédito]”, explica.

“Até poucos anos atrás, ninguém imaginaria uma situação externa como a que vemos hoje, com países desenvolvidos pedindo ajuda aos emergentes.”

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