Brexit mostra tendência de um mundo desglobalizado, aponta especialista

publicado 30/06/2016 11h17, última modificação 30/06/2016 11h17
São Paulo - Lentidão na burocracia e medo do terrorismo impactam as relações comerciais internacionais
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"Estamos vivendo em um mundo em que existe o risco da desglobalização. O exemplo do referendo na semana passada [Brexit] se tornou prova disso", afirmou Marcos Troyjo, co-diretor do BRICLab na Columbia University, durante reunião do comitê estratégico de CEOs e Chairpersons da Amcham - São Paulo na quarta-feira, 29. Segundo o especialista, há ao menos três fatores que alimentam a tendência para um mundo mais desglobalizado: o desejo dos países em verticalizar as atividades produtivas, medo do terrorismo e a lentidão da burocracia comunitária.

Troyjo afirma que, com a crise econômica e financeira dos Estados Unidos em 2008, algumas ideias econômicas como o livre mercado entraram em crise. Isso deixou um desejo nos países, em geral, de querer verticalizar as atividades produtivas em todos os setores, o que o especialista denominou como "local-conteudismo”, ou seja, uma priorização na produção local e menos intenção de inserção global. "A força de trabalho local e a geração de impostos locais são mais importantes do que a rentabilidade ou sustentabilidade de suas empresas para os formuladores de políticas públicas", explicou.

Outro fator que pesa muito nesse sentido, para Troyjo, é a burocracia comunitária lenta de instituições ou blocos como União Europeia e Mercosul. Muitas vezes, acordos entre os blocos e outros países se arrastam por anos por conta de divergência entre os participantes, prolongando as negociações por anos. Essa demora acaba fazendo com que os países queiram sair dessas associações a fim de ter mais liberdade comercial, segundo o especialista.

Para o futuro, Troyjo acredita que essa nova fase da geopolítica vai ser dominada por algumas tensões. A primeira é a incerteza de como vão ser feitos os acordos comerciais a partir de agora, tendo como modelos o TTP ou a União Europeia. Outra questão será a ascensão chinesa para além da economia - por exemplo, o gasto no setor militar do país está crescendo cada vez mais e pode causar desconforto, por todo o histórico de guerras e conflitos entre os países do sudeste asiático.

Brexit no Brasil

Para o Brasil, no curto prazo, a saída do Reino Unido da União Europeia (A opção sair - Brexit - venceu por 1,2 milhão de votos de diferença, com 51,9% dos votos ) traz desvantagens, segundo Troyjo. "Em primeiro lugar, o Brasil perde uma espécie de aliado direto nas suas negociações com a União Europeia - mais especificamente nas negociações agrícolas, já que, entre os membros da UE, o menos protecionista e o mais favorável a uma liberalização das commodities brasileiras era o Reino Unido", explicou.

Além disso, com o aumento do clima de incerteza no, a tendência é uma queda de investimentos no mundo todo, o que representa uma perda para o Brasil, país que depende muito de capitais externos. Por outro lado, a saída do Reino Unido abre uma possibilidade de realizar acordos bilaterais com os britânicos, principalmente de bens agrícolas, segundo Troyjo.

O momento de redefinição e desorganização global é ideal para o Brasil construir um projeto de nação, na visão do especialista. "O Brasil precisa definir o que ele quer. As empresas têm seus planos de negócio, mas o país não tem seu plano de nação. Precisamos aproveitar o momento de confusão no mundo e desenhar nossa estratégia. Tenho certeza que existe oportunidade para uma economia que é extensa em pessoas, criatividade e empreendedorismo, como é nosso caso", afirmou.

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