CEO da Amcham: além de recuperação da economia e estreitamento de relações com a Ásia, segundo mandato de Obama deve marcar consolidação de programas sociais

por andre_inohara — publicado 21/01/2013 17h20, última modificação 21/01/2013 17h20
São Paulo – Relação Brasil-EUA também tende a ser aprofundada, em função do peso econômico do País e de oportunidades promissoras.
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O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, inicia nesta segunda-feira (21/01) seu segundo mandato [2013-2016], tendo como missão continuar a tarefa de reconduzir a principal economia do mundo ao caminho do crescimento, estreitar relações com os países asiáticos – especialmente a China – e implementar uma ousada agenda social.

“A prioridade hoje do governo americano é a economia interna, bem como questões políticas ligadas a isso. O segundo foco é a Ásia como um todo. Obama também tem uma agenda social ousada, que inclui compromissos com inovação e meio ambiente bastante grandes, que outros presidentes não tinham”, avalia o CEO da Amcham, Gabriel Rico.

Devido ao seu peso econômico no continente, o Brasil também deve ganhar atenção especial do mandatário, comenta Rico. “Há oportunidades de fortalecimento da relação com o Brasil, especialmente porque o Obama foi o primeiro presidente, depois de muito tempo, que destacou claramente o Brasil da América Latina.”

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O CEO lembra que Obama foi o primeiro líder americano a elevar o status de relacionamento com o Brasil. “Ele passou a estabelecer uma pauta bilateral com o Brasil, independente das relações com a América Latina. A reeleição de Obama traz certa tranquilidade para que essa agenda tenha sequência”, comenta Rico.

No front doméstico, Obama ganha mais quatro anos para consolidar seus programas sociais. Os mais destacados são o Medicare e o MedicAid, ambos de saúde pública, que enfrentaram grande polêmica para aprovação.

Em seu primeiro mandato, Obama defendeu o desenvolvimento da inovação, para gerar mais empregos e tornar seu país mais preparado para competir no cenário internacional.

Preocupações com o meio ambiente vêm, por exemplo, na forma de incentivo aos combustíveis renováveis para diminuir a dependência do petróleo. Neste segmento, há muito espaço para ampliar as relações comerciais com o Brasil. “O presidente americano tem agenda ampla e o Brasil pode ser um parceiro maior do que tem sido”, aponta Rico.

Economia

Um dos primeiros – e grandes – desafios do presidente reeleito será negociar o teto da dívida dos EUA, cuja administração pública está sobrecarregada por gastos de custeio, defesa e benefícios sociais.

“A prioridade de curtíssimo prazo é viabilizar uma negociação satisfatória com o Partido Republicano (oposição). Ela é considerada bastante difícil, mas no final do ano Obama teve uma grande vitória conceitual, que foi elevar o imposto de renda das pessoas com ganhos anuais acima de US$ 450 mil [para casais e US$ 400 mil para indivíduos]”, comenta Rico.

A situação do presidente não é das mais confortáveis: no Congresso, os oposicionistas republicanos têm a maioria na Câmara, enquanto os democratas predominam no Senado, o que configura negociações duras e custosas. Mas o fato de o presidente conseguir aprovar o acordo foi uma vitória política que o deixa fortalecido.

“Ele teve essa aprovação contando com um numero razoável de republicanos (85), que contrariaram um tema que é quase um dogma do partido [não sobretaxar a população mais rica]”, detalha Rico.

Dívida pública dos EUA

Depois de ter conseguido recentemente elevar a arrecadação por meio da aprovação de um pacote fiscal que aumenta os impostos dos mais ricos [definidos como os que possuem renda anual superior a US$ 400 mil], o mandatário voltará a negociar com o Congresso o limite de endividamento público da administração federal.

A equipe econômica do presidente já estuda cortes de gastos, mas avisa que, sem um novo limite de endividamento, as coisas ficarão bastante difíceis. “Há outras formas de aumentar a arrecadação sem mexer nos impostos, como a redução de subsídios, até porque tanto os democratas como os republicanos concordam que o país não pode conviver com o contínuo aumento do endividamento”, observa o CEO da Amcham.

O teto atual da dívida soberana dos EUA bate em US$ 16,4 trilhões, um montante que está acima da riqueza produzida no país em 2011 e, provavelmente, também da de 2012, caso as previsões do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA) se confirmem.

O Fed anunciou que o Produto Interno Bruto (PIB) americano em 2011 foi de US$ 15,1 trilhões. Em setembro do ano passado, a autoridade projetou crescimento de 2% para o PIB, o que aumentaria a riqueza americana para US$ 15,4 trilhões em 2012. Os dados referentes ao período ainda não foram divulgados.

O prazo final para a definição do teto da dívida está previsto para o início de março. A administração democrata propõe cortes menores, alegando a necessidade de manter programas sociais aos mais pobres.

Para Rico, os republicanos querem pressionar Obama a enxugar custos. “A questão não é apenas elevar o teto da dívida, mas cuidar do corte de gastos. E não há como Obama obter aprovação da elevação do teto da dívida se não se comprometer com algumas reduções de gastos.”

Relações internacionais

O estreitamento das relações com China e Índia – as potências emergentes da Ásia – deve marcar a política externa americana. O desenvolvimento da inovação tem a ver com a necessidade de reconquistar mercados mundiais perdidos para a China, segundo Rico.

“A relação com a Índia é mais estrutural, dada a grande quantidade de estudantes de mestrado e PhD em universidades americanas. O fenômeno dos call centers [de empresas americanas] funcionando na Índia evidencia a integração cultural”, afirma o CEO.

A deferência dos EUA aos países com economias mais dinâmicas deve alcançar o Brasil, de acordo com Rico. “Em 2011, ano da visita do Obama ao Brasil, os EUA investiram US$ 400 bilhões no exterior. Mesmo em um ano de crise, o investimento americano direto no Brasil dobrou de US$ 5 bilhões para US$ 10 bilhões, fruto da visita do presidente”, lembra o CEO.

O volume de investimentos americanos em 2012 ainda não é conhecido, mas Rico estima que foi maior. “Só a aquisição da Amil, de assistência médica [pelo grupo UnitedHealth], de US$ 5 bilhões, mostra que devemos ter tido um crescimento expressivo do investimento. E tivemos vários private equities atuando fortemente no Brasil, comprando participações e controles de empresas.”

Se o investimento direto americano fosse proporcional ao tamanho da economia brasileira, deveria ser da ordem de US$ 17 bilhões em 2012, estima Rico. “Se chegar a isso, seria um montante dentro da média. Mas temos potencial muito grande. O Brasil vive uma necessidade enorme de aportes, principalmente em infraestrutura.”

Investimentos e intercâmbio bilateral

O aumento do fluxo de investimentos entre Brasil e EUA é benéfico a ambos os países. “Os EUA, além de terem estrutura logística mais desenvolvida, também precisam de oportunidades. E o bom é que, ao investir em infraestrutura no Brasil, eles vão trazer tecnologia de ponta”, afirma Rico.

Na agenda de inovação, o programa Ciência sem Fronteiras deve ser um dos pilares da relação bilateral. “O Brasil é um país que tem participação pífia de estudantes em universidades americanas e internacionais como um todo. Estamos muito atrás de Colômbia e Chile, e o programa Ciência sem Fronteiras representa uma integração maior”, conforme o CEO.

A Amcham fechou um acordo com o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e a Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e constituiu uma força-tarefa para discutir ideias e experiências sobre o programa de estágios para facilitar o acesso dos estudantes a estágios no exterior. Por meio dessa iniciativa, empresas associadas à Amcham já contrataram 166 estagiários em estudo nos EUA.

Outros pontos de convergência da relação bilateral são a identidade de valores. “A própria iniciativa do presidente Obama de combate à comercialização de armas (pesadas) está muito ao encontro da legislação brasileira”, comenta Rico.

Tanto o Brasil como os EUA assinaram um compromisso com a transparência na gestão pública. No final de 2011, o Brasil e os Estados Unidos firmaram um acordo chamado de ‘Governo Aberto’ projeto das administrações americana e brasileira para promover a transparência orçamentária e o direito ao acesso às informações públicas.

“No campo dos valores, há uma identidade bastante grande entre os dois governos, e a continuidade da gestão Obama é positiva”, afirma Rico.

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